segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Ano-novo

 
 

Ano-novo
 
 
Meia-noite. fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.
 
Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
 
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça:
nada ali indica
que um ano novo começa.
 
E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.
 
Começa com a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
 
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar que sonha
(e luta).
 
Ferreira Gullar

domingo, 23 de dezembro de 2012

Homenagem a Ledo Ivo (1924-2012)



A Queimada.

Queime tudo o que puder
as cartas de amor
as contas telefônicas
o rol de roupas sujas
as escrituras e certidões
as inconfidências dos confrades ressentidos
a confissão interrompida
o poema erótico que ratifica a impotência
e anuncia a arteriosclerose

os recortes antigos e as fotografias amareladas.
Não deixe aos herdeiros esfaimados
nenhuma herança de papel.

Seja como os lobos : more num covil
e só mostre à canalha das ruas os seus dentes afiados.
Viva e morra fechado como um caracol.
Diga sempre não à escória eletrônica.

Destrua os poemas inacabados,os rascunhos,
as variantes e os fragmentos
que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.
Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.
Não confie a ninguém o seu segredo.
A verdade não pode ser dita.

Ledo Ivo