sábado, 23 de junho de 2012

Vermelho: a oligarquia paraguaia depõe o presidente Fernando Lugo



O Congresso paraguaio, formado por uma maioria de oligarcas cevados durante a longa ditadura de Alfredo Stroessner, inovou e, imitando a guerra relâmpago dos nazistas, inventou o impeachment relâmpago: entre o abandono do presidente Fernando Lugo pelos parlamentares que formavam sua frágil base parlamentar, o início do “processo” e a decisão de afastar o presidente não transcorreram sequer 48 horas!
O que ocorreu entre a manhã de quinta-feira (21) e a tarde de sexta-feira (22) em Assunção foi um golpe de Estado com disfarce de legalidade. Ele expõe, à luz do dia, a contradição larvar que havia desde a posse de Fernando Lugo, em 2008, entre o presidente que encarnava a promessa de mudança democrática e combate à pobreza e à desigualdade, e um parlamento raivosamente antidemocrático que sempre se pôs de joelhos perante os interesses dos EUA na América do Sul. Conclave de oligarcas saudoso da presença do imperialismo para assegurar seus próprios e anacrônicos privilégios e que foi entrave, por exemplo, à entrada da Venezuela no Mercosul, pois nunca votou a necessária aprovação para a incorporação da pátria de Hugo Chávez ao bloco regional – bem de acordo, é claro, com os interesses de seus patrões do hemisfério norte.

A deposição de Lugo foi um golpe oportunista, que ocorreu no momento em que as atenções, e os principais dirigentes dos países do mundo, estavam no Rio de Janeiro, na Rio+20. E baseado numa alegação hipócrita: o conjunto de latifundiários que domina o parlamento paraguaio usou como bandeira o sangue derramado num conflito de reintegração de posse em Curuguaty, na semana passada, que deixou 17 camponeses e policiais mortos. Os trabalhadores rurais sem-terra lutam para retomar lotes onde suas famílias residem há mais de cem anos mas que, durante a ditadura de Stroessner, foram “doados” a um dos homens mais ricos do país, o latifundiário Blas Riquelme. Os camponeses expulsos querem suas terras de volta. Os camponeses paraguaios querem terra para trabalhar, e se chocam com a minoria extrema (2% da população) de ricaços que controlam 80% das terras do país, colocando o Paraguai entre as nações mais pobres do continente, com quase metade da população abaixo da linha de pobreza.

O convescote dos oligarcas confiscou o mandato de Lugo mas não teve a coragem de apresentar a violência cometida com o nome adequado para sua ação: golpe de Estado. Preferiu dar a ela o disfarce de uma legalidade esfarrapada.

Nas praças, desde a manhã da quinta-feira, os paraguaios demonstram seu inconformismo contra o golpe. Deixam claro que a Câmara dos Deputados e o Senado do Paraguai estão em oposição à nação e ao povo numa luta que, agora, extravasa as fronteiras nacionais e estende-se pelo continente. Ao rasgar os compromissos continentais pela democracia, ordem constitucional e defesa das instituições democráticas, o golpe de Estado é um claro rompimento com as demais nações do continente e a busca de fortalecimento da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) e do Mercosul. O confronto com a nova legalidade democrática que se firma no continente é inegável, e inaceitável.

O golpe abre uma nova etapa na luta dos paraguaios pela democracia, que impõe a derrota da oligarquia aliada ao imperialismo. E coloca um desafio institucional para a integração continental: as nações do continente não podem aceitar o rompimento de acordos regionais solenemente proclamados, e festejados pelos povos e pelos democratas.

Se cabe aos paraguaios derrotar os golpistas, cabe aos democratas e aos governos da região agir para destruir a serpente da desunião e da traição aos povos. É preciso combater com toda a força, veemência, e com os instrumentos conquistados na última década, toda ilegitimidade institucional no continente. Basta de golpes! Basta de interferências externas. Basta de alinhamento com os interesses do imperialismo e do latifúndio atrasado! O governo ilegítimo que nasceu do golpe precisa ser isolado e derrotado, e esta tarefa cabe a todos os democratas do continente.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Cura e prevenção

Por Luiz Gonzaga Belluzzo
Na Europa do euro 2012, os mercados de dívida soberana transferem a turbulência para os bancos. Depois dos gregos, os espanhóis entraram na dança. Os italianos tiritam às portas do baile sinistro. Quanto aos franceses e alemães, financiadores dos irmãos periféricos, é só aguardar. A crise financeira européia chega ao seu estágio supremo.
Tudo começou quando os sopradores da bolha imobiliária perderam o fôlego em 2008, sufocados pela queda dos preços dos imóveis e pela desvalorização dos ativos financeiros originados e distribuídos a partir dos pacotes de créditos hipotecários. Na posteridade do colapso, escancarou-se um estoque de endividamento “excessivo” das famílias gastadoras e das instituições financeiras montadas em estruturas “alavancadas”.
No caso das famílias espanholas, por exemplo, o peso da dívida tornou-se insustentável, quer calculado em relação aos fluxos esperados de rendimentos, quer comparado ao valor cadente das residências. Por um lado, o avanço do desemprego anunciava a queda da renda dos devedores e, portanto, o aumento da inadimplência. Por outro, o patrimônio das famílias (o preço das casas) despencava ladeira abaixo.
A dívida dos governos engordou cevada pela queda das receitas, pela ampliação automática das despesas e pelo socorro aos bancos moribundos. Aliviadas da carga de ativos podres do setor privado – graças à ação dos bancos centrais – as instituições financeiras, num primeiro momento, acolheram mais dívida soberana em seus balanços. Logo depois partiram para a desalavancagem agressiva: trataram de acumular reservas excedentes e de evitar novos empréstimos aos privados, até mesmo às suas congêneres.
As famílias com patrimônio negativo e as empresas sobrecarregadas de capacidade correm para os confortos da liquidez e do reequilíbrio patrimonial. Os países e as regiões se engalfinham: uns para reverter os déficits externos, outros para manter seus superávits. Os governos – os europeus germanizados e os americanos atormentados pelas tolices republicanas – adotam políticas de austeridade fiscal.
A essa gente e a seus acólitos no resto do mundo não ocorre pensar que tais decisões são “racionais” do ponto de vista microeconômico e virtuosas sob a ótica da gestão das finanças domésticas, mas perversas para o conjunto da economia. Se todos pretendem cortar gastos, realizar superávits e se tornar líquidos ao mesmo tempo, o resultado só pode ser a queda da renda, do emprego e o crescimento do peso das dívidas, cujo valor está fixado em termos nominais. É o paradoxo da desalavancagem, também conhecido como o inferno das boas intenções, cujas chamas crepitam no conhecido, mas sempre descuidado território das falácias de composição. Se bem interpretadas, as falácias poderiam nos aconselhar a discernir os fundamentos macroeconômicos da microeconomia.
Keynes escreveu a Teoria Geral para explicar um momento de “ruptura de expectativas” – a Grande Depressão – e não a ocorrência de simples flutuações cíclicas da economia capitalista. Nas flutuações cíclicas, a contração do investimento e do consumo deprime a acumulação interna das empresas e a renda das famílias, suscitando problemas de endividamento e risco que podem ser resolvidos com mudanças suaves na política monetária e na velocidade e intensidade do gasto público.
Nas crises, ocorre o colapso dos critérios de avaliação da riqueza que vinham prevalecendo. As expectativas de longo prazo capitulam diante da incerteza e não é mais possível precificar os ativos. Os métodos habituais que permitem avaliar a relação risco-rendimento dos ativos sucumbem diante do medo do futuro. A obscuridade total paralisa as decisões e nega os novos fluxos de gasto.
Na perspectiva keynesiana, a estabilização do investimento e a regulação da finança – com o propósito de impedir as crises deflacionárias e a queda abrupta da renda e do emprego – deveriam estar inscritas de forma permanente nas políticas do Estado. Diz Keynes numa resposta irada a James Meade: “Você acentua demais a cura e muito pouco a prevenção. A flutuação de curto prazo no volume de gastos em obras públicas é uma forma grosseira de cura, provavelmente destinada ao insucesso”.
A geração de déficits monumentais e as políticas exasperadas de liquidez são “formas grosseiras” e danosas de sustentação do lucro macroeconômico e de proteção dos portfólios privados. Mas, diante da fuga desatinada para a liquidez e para a segurança, tornam-se inevitáveis o desequilíbrio fiscal, a ampliação do espectro de ativos privados a serem absorvidos pelo balanço do Banco Central e o crescimento do débito público na composição dos patrimônios privados.
Fonte: CartaCapital

terça-feira, 12 de junho de 2012

25º aniversário do assassinato do advogado Paulo Fonteles




Por Paulo Fonteles Filho*

No transcurso do vigésimo-quinto aniversário do assassinato do ex-deputado e advogado de posseiros do Sul do Pará, Paulo Fonteles, ocorrido em 11 de junho de 1987 é, mais do que nunca necessário avaliar suas ideias e legado para atual fase da luta pela terra no Brasil.
E isso num momento de franca expansão do Agronegócio, particularmente na Amazônia e a odiosa tentativa de criminalização dos movimentos sociais brasileiros, praticadas pela grande mídia e reacionários de todas as espécies.

A vida de combates de Paulo Fonteles atravessou mais de três décadas de profundo compromisso com questões concernentes aos temas mais urgentes da nação brasileira como a democracia, as liberdades políticas, a reforma agrária e o socialismo.

A saga daquele que seria uma das mais contundentes vozes da luta contra o latifúndio iniciou a atividade política quando o Brasil estava encarcerado pela quartelada de 31 de Março de 1964 que submeteu o país a infame ditadura e a submissão aos interesses externos, notadamente estadunidenses.

Como muitos jovens de sua geração iniciou sua militância no ambiente da igreja católica quando a juventude do Brasil e do mundo davam passos insurgentes naqueles longínquos anos de 68 na qual Zuenir Ventura ensina-nos que jamais acabou porque fora um marco, verdadeiro divisor de águas e, ainda é referência tanto na cultura, no comportamento e na política pelo que introduziu na vida brasileira. Eram os generosos anos das figuras heroicas de Che Guevara, da passeata dos 100 mil a enfrentar a dura ditadura hasteando o sangue paraense do estudante Edson Luís assassinado pela repressão no restaurante Calabouço, como uma emergência para mudar os destinos nacionais através de um poderoso movimento de massas.

Eram tempos da rebelião juvenil francesa e da primavera de Praga, de mudanças tecnológicas e da incerteza da guerra fria, da guerra do Vietña, da estreia na Broadway do musical "Hair", do lançamento do "Álbum Branco" dos Beatles, do acirramento da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos e também do assassinato de Martin Luther King e do engendramento do Apartheid na África do Sul. As mulheres, historicamente, proibidas de atuar na vida pública queimaram sutiãs e a juventude passou a ter, na sociedade uma presença social autônoma. No Brasil de 68 Chico Buarque estreia "Roda-Viva" e logo os artistas da peça sofrem atentado patrocinado pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC), Caetano Veloso e Gilberto Gil lançam o manifesto onde apresentam a "Tropicália", do contundente discurso do jornalista Márcio Moreira Alves contra a ditadura, estopim para o Ato Institucional 5 (AI-5). É por essa época que o General Costa e Silva promove torpe censura contra o cinema e o teatro e é criado o Conselho Superior de Censura.

O jovem Paulo Fonteles tomou parte nas manifestações que eclodiram naquele período na qual a cidade de Belém, que por ser terra de legado cabano não poderia ficar de fora, tendo como referência a necessidade de derrubar os direitistas de fardas instalados no poder na qual a juventude brasileira ganhou pessoa e postura.

Militando na Ação Popular Marxista-Leninista (APML) e disposto a radicalizar muda-se com a mulher Hecilda Veiga para Brasília.

Estudante do curso de História da UNB e professor de cursinho adquire o codinome de "Peixoto" e é um dos principais dirigentes de juventude universitária da APML que o levou, junto com a esposa, grávida, em outubro de 1971 a conhecer toda selvageria e barbárie da repressão política quando fora preso e severamente torturado. Seus relatos daquele período, pela força da sua poesia, revelam a permanente luta pela vida na forma da denúncia da bestialidade dos torturadores que alcunhava como "cães febrentos". Ali, no famigerado Pelotão de Investigações Criminais (PIC), um dos maiores centros de tortura do país onde os algozes foram adestrados pela Escola do Panamá de inspiração norte-americana, tomou, a partir do contato com camponeses presos na guerrilha do Araguaia a decisão de ingressar, mesmo no calvário dos porões, no Partido Comunista do Brasil.

Em Brasília militou com Honestino Guimarães, contribuiu para fortalecer a União Nacional dos Estudantes (UNE) e na prisão conheceu o campesino Zé Porfírio, líder de Trombas e Formoso.

Enquadrado pelo 477, terrível instituto criado pelo coronel Jarbas Passarinho, então Ministro da Educação, que proibia estudantes insubmissos de retornarem aos estudos por três anos depois de presos, Paulo Fonteles vai trabalhar nas fazendas dos irmãos e ao cumprir tal período e sem nenhuma vocação para capataz retorna a Universidade e, concomitantemente para a luta popular.

Formado em Direito pela UFPa vai, a convite do Poeta Rui Barata, ter seu primeiro teste na defesa dos camponeses envolvidos na luta da Fazenda Capaz. Aquele convite marcaria dali para frente sua opção e militância.

É por esse tempo que, junto com outros companheiros, como Iza e Humberto Cunha, Hecilda Veiga, Paulo Roberto Ferreira, Jaime Teixeira, João Marques, Egidio Salles Filho, Rui Barata, Luís Maklouf de Carvalho e tantos outros organizam a Sociedade Paraense de Direitos Humanos e lança, naquele período o Jornal "Resistência", verdadeiro ícone da imprensa de combate à ditadura militar. É uma pena que na historiografia brasileira, quando tratam da imprensa alternativa, o "Resistência" não tenha tido até hoje o reconhecimento merecido, seja pela ousadia da linha editorial e formato diferente de tudo que havia na época.

Paulo Fonteles é eleito o primeiro presidente da SPDDH e nesse ambiente se coloca à disposição da Comissão Pastoral da Terra (CPT) para advogar para os camponeses do Sul do Pará.

Frei Ivo me disse quando o conheci, há alguns anos em Belém, que na época a CPT havia convidado vários advogados para a tarefa e apenas o advogado comunista havia topado o desafio, contando com a ajuda, sempre generosa do amigo, também advogado Egidio Salles Filho no sentido de resolver intrincados processos onde tudo conspirava contra o interesse camponês, desde o judiciário marcado pelo interesses dos poderosos até a polícia que "jagunçava" para os donos das grandes extensões de terra . Em grande parte a sua decisão fora tomada pela experiência da Fazenda Capaz e a comovente relação estabelecida com os camponeses e a dura realidade encontrada como também pela enorme curiosidade de saber dos acontecimentos da Guerrilha do Araguaia.

Todo esse ambiente do final da década de setenta fora de muita luta e no mesmo momento em que os operários paralisavam no ABC paulista que revelou para a cena brasileira o metalúrgico Luís Inácio Lula da Silva, os camponeses dos sertões paraenses ocupavam 250 mil hectares de terras no Baixo-Araguaia, numa verdadeira guerra de guerrilhas contra o poderio dos latifundiários.

Esse momento foi de militarização da política fundiária, com o engendramento do Grupo Executivo Araguaia-Tocantins (Getat) que, a bem da verdade estava ali por conta dos vultosos e alienígenas projetos para a Amazônia no sentido de conter a luta dos lavradores. Porque tanto naquela época quanto na atualidade os trabalhadores do campo sempre ofereceram destemida oposição à entrega das riquezas nacionais. .

Enfrentando o poder dos coronéis das oligarquias rurais, Paulo Fonteles logo é reconhecido pelos homens e mulheres simples do campo e por eles é carinhosamente chamado de “advogado-do-mato”.

E nesse momento que seu nome começa a figurar nas tenebrosas listas de marcados para morrer, muito em função de sua atuação como advogado da oposição sindical nas contendas contra o pelego Bertoldo, preposto dos militares, na luta para retomar para as mãos dos lavradores o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Conceição do Araguaia. Naquela época tal município englobava Rio Maria, Xinguara e Redenção.

A chapa de Bertoldo era apoiada abertamente por gente de triste estirpe como os famigerados Major Curió e o Ministro Jarbas Passarinho. Todos os instrumentos repressivos do regime atuaram para derrotar a oposição e até a Rádio Nacional de Brasília fazia campanha para os caudatários do militarismo.

Nesse contencioso é assassinado Raimundo Ferreira Lima, o "Gringo". O candidato à presidência da oposição sindical fora a primeira liderança camponesa assassinada no Sul do Pará quando retornava de longa viagem onde percorreu o país amealhando apoio político e financeiro para o contencioso eleitoral. A oposição vence os caudatários do regime e a eleição é empastelada pelo Ministério do Trabalho.

Daquela chapa, de 1980, participaram ainda João Canuto de Oliveira, Belchior e Expedito Ribeiro de Souza, além de Paulo Fonteles e todos, sem exceção, foram mortos pelo latifúndio nos anos que iriam se seguir.

É também neste período que procura sistematizar os acontecimentos dos combates da Guerrilha do Araguaia e certamente foi seu primeiro pesquisador. Conhece gente como o "Velho Doza", antigo militante das Ligas Camponesas onde fora citado como exemplo de combatividade e inteligência no livro de memórias de Gregório Bezerra, publicado em 1947. Militante comunista Bezerra fora eleito em 1946 Deputado Federal Constituinte na lendária bancada do Partido Comunista do Brasil que contava com Luís Carlos Prestes, primeiro senador eleito pelo PC, além de figuras legendárias como João Amazonas, Maurício Grabois, Carlos Marighela, Jorge Amado, dentre outras. Conhece, também, Amaro Lins, ligado às Forças Guerrilheiras do Araguaia.

Cumpre importante papel de advogado de familiares de mortos e desaparecidos que, em histórica caravana percorrem a região por mais de dez dias em fins de 1980. Tal caravana é um marco da luta dos direitos humanos no Brasil. Dessa atividade escreve um conjunto de artigos para a "Tribuna da Luta Operária" onde afirma que no Araguaia a luta fora de massas, tomando a posição contrária de que nas matas da Amazônia a mais contundente oposição ao regime militar teria sido um "foco" que, na linguagem política é o mesmo que atuar sem o povo, como uma espécie de seita. Compreendeu, como poucos que a luta é um problema científico do ponto de vista de entender as necessidades populares.

Em 1982 é eleito Deputado Estadual sob a consigna de "Terra, Trabalho e Independência Nacional" e no curso de sua atuação parlamentar é constantemente ameaçado e por diversas vezes denuncia da tribuna da Assembleia Legislativa do Pará as macabras listas de marcados para morrer onde figurava. Em 1985, um Coronel do Exército e latifundiário, Eddie Castor da Nóbrega anuncia num dos principais jornais paraenses que iria atentar contra a vida do então Deputado. Fonteles no mesmo jornal responde que "se um Coronel tem a ousadia de ameaçar de morte um Deputado abertamente, o que este senhor não faz com os trabalhadores rurais de sua fazenda", concluiu.

Um dos aspectos de sua passagem pelo parlamento fora a denúncia contra a ditadura militar e a necessidade histórica de passarmos para um regime democrático, onde as liberdades políticas pudessem estar asseguradas no altar da vida pública brasileira.

Denunciava, também, o entreguismo do governo militar com sua subserviência aos poderosos internacionais e os projetos do imperialismo para a Amazônia. Atuava com um pé no Plenário e outro nas ruas, aliado não apenas dos camponeses, mas também da juventude e dos trabalhadores urbanos.

Na luta de ideias fazia fogo contra o revisionismo contemporâneo soviético, da era Gorbachev e afirmava que a Revolução Bolchevista de 1917 havia sofrido um duro golpe "por dentro" e que logo o regime da Perestroika iria agudizar o fim da experiência socialista o que seria uma histórica derrota para povos e para toda a humanidade. Afinal, o fim da Rússia socialista marcou o início de uma Nova Ordem Mundial que, através do malsinado "Consenso de Washington" engendrou tempos neoliberais de profunda ofensiva do capital contra o mundo do trabalho. A vitória do pensamento dos grandes financistas construiu uma realidade mundial belicista, unipolar e cada vez mais vai revelando, na atualidade, o caráter sistêmico da crise do capitalismo que nos dias atuais enfrenta profunda deterioração.

Em 1986 é candidato à Deputado Federal Constituinte, porém não conseguiu êxito eleitoral.

Fora do parlamento cria o Centro de Apoio ao Trabalhador Rural e Urbano (CEATRU) e apoia, como advogado, a luta contra os pelegos no Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil que baniu o interesse patronal do seio do sindicato e da categoria.

Em 11 de Junho de 1987 todas as ameaças se confirmam e no final da manhã daquele dia é assassinado à mando da União Democrática Ruralista (UDR) na região metropolitana de Belém. A ação que atentou contra a vida de Paulo Fonteles ocorreu no mesmo momento em que se votava, no âmbito da constituinte, o capítulo da terra.

Os latifundiários para obter êxito nesse contencioso utilizaram a tática de comprar parlamentares, um deles, paraense, até então comprometido com a questão da reforma agrária sumiu misteriosamente da votação.

Outro aspecto da agenda política dos donos do poder no campo era intimidar o movimento camponês através da covardia da pistolagem e o alvo fora uma das mais combativas lideranças e Paulo Fonteles fora o escolhido. Tanto que seu desaparecimento mereceu a atenção de dirigentes nacionais da UDR como o do funesto Ronaldo Caiado que, indiretamente pelo fato de presidir tão demoníaca organização deve ter tido, pelo controle estabelecido, relação com os mandantes do tão sórdido acontecimento.

Tramada na Fazenda Bamerindus, hoje chamada de "Palmares" porque fora ocupada pelo MST, entre Xinguara e Paraoapebas, a ação que vitimou tão brilhante vida teve como intermediário e executores gente do antigo regime que vieram para a Amazônia organizar milícias no sentido de proteger a grande propriedade rural da "ameaça" camponesa. O fato é que os latifundiários instalados na Amazônia utilizaram largamente, com a derrota do regime, de gente do SNI que promoveram uma espécie de "diáspora" para o norte do Brasil. Esse é o caso, por exemplo, de James Vita Lopes, julgado e condenado como intermediário da ação que vitimou Fonteles e que pertenceu aos quadros da Operação Bandeirantes de São Paulo como também do Serviço Nacional de Informações (SNI).

Até hoje os mandantes do assassinato de Paulo Fonteles não foram levados a julgamento e, como centenas de casos da pistolagem perpetradas pelo latifúndio seu crime permanece impune o que revela o caráter do judiciário paraense e brasileiro.

Mais do que nunca, diante do recrudescimento da violência do latifúndio, as forças vivas da sociedade paraense e brasileira devem travar o combate contra a impunidade e criar ambiente propício, mesmo com o recalcitrante judiciário local, para punir os históricos crimes do latifúndio e passar a ofensiva na luta contra os violentos que tudo resolvem na intimidação e na liquidação física de lideranças camponesas e seus apoiadores. Uma das importantes saídas para a impunidade é a federalização dos crimes praticados pelos poderosos do campo.

O advogado comunista Paulo Fonteles era um homem de partido e suas ideias continuam atuais porque a luta pela reforma agrária e pelo socialismo são absolutamente atuais, desta quadra histórica, deste momento brasileiro que, mais do que nunca é preciso exemplos para reforçar o caráter das mudanças para o desenvolvimento, com valorização do mundo do trabalho para o futuro de progresso social da nação brasileira.

Sua vida de combates continua inspirando até os nossos dias a luta histórica dos trabalhadores no sentido de sua emancipação social.

* Paulo Fonteles Filho é membro da Associação dos Torturados da Guerrilha do Araguaia e colaborador do Vermelho

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Riachuelo: a batalha




A Força Naval Brasileira comandada por Barroso, estava fundeada no Rio Paraná próximo à Cidade de Corrientes, na noite de 10 para 11 de junho de 1865.

O plano paraguaio era surpreender os navios brasileiros na alvorada do dia 11 de junho, abordá-los e, após a vitória, rebocá-los para Humaitá. Para aumentar o poder de fogo, a força naval paraguaia, comandada pelo Capitão-de-Fragata Pedro Ignácio Mezza, rebocava seis chatas com canhões. A Ponta de Santa Catalina, próxima à foz do Riachuelo, foi artilhada pelos paraguaios. Havia, também, tropas de infantaria posicionadas para atirar sobre os navios brasileiros que escapassem.

No dia 11 de junho, aproximadamente às 9 horas, a força naval brasileira avistou os navios paraguaios descendo o rio e se preparou para o combate. Mezza se atrasara e desistiu de iniciar a batalha com abordagem. Às 9 horas e 25 minutos, dispararam-se os primeiros tiros de artilharia. A força paraguaia passou pela brasileira, ainda imobilizada, e foi se abrigar junto à foz do Riachuelo, onde ficou aguardando.

Após suspender, a força naval brasileira desceu o rio, perseguindo os paraguaios, e avistou-os parados nas proximidades da foz do Riachuelo.

Desconhecendo que a margem estava artilhada, Barroso deteve sua capitânia, a Fragata Amazonas, para cortar possível fuga dos paraguaios. Com sua manobra inesperada, alguns dos navios retrocederam, e o Jequitinhonha encalhou em frente às baterias de Santa Catalina. O primeiro navio da linha, o Belmonte, passou por Riachuelo separado dos outros, sofrendo o fogo concentrado do inimigo e, após passar, encalhou propositadamente, para não afundar.

Corrigindo sua manobra, Barroso, com a Amazonas, assumiu a vanguarda dos outros navios brasileiros e efetuou a passagem, combatendo a artilharia da margem, os navios e a chatas, sob a fuzilaria das tropas paraguaias que atiravam das barrancas.

Completou-se assim, aproximadamente às 12 horas, a primeira fase da Batalha. Até então, o resultado era altamente insatisfatório para o Brasil: o Belmonte fora de ação, o Jequitinhonha encalhado para sempre e o Parnaíba, com avaria no leme, sendo abordado e dominado pelo inimigo, apesar da resistência heróica dos brasileiros, como o Guarda-Marinha Greenhalgh e o Marinheiro Marcílio Dias, que lutaram até a morte.

Então, Barroso decidiu regressar. Desceu o rio, fez a volta com os seis navios restantes e, logo depois, estava novamente em Riachuelo.

Tirando vantagem do porte da Amazonas, Barroso usou seu navio para abalroar e inutilizar navios paraguaios e vencer a Batalha. Quatro navios inimigos fugiram perseguidos pelos brasileiros.

Antes do pôr-do-sol de 11 de junho, a vitória era brasileira. A Esquadra paraguaia fora praticamente aniquilada e não teria mais participação relevante no conflito. Estava, também, garantido o bloqueio que impediria que o Paraguai recebesse armamentos do exterior, inclusive os encouraçados que encomendara na Europa.

Foi a primeira grande vitória da Tríplice Aliança na guerra e, por isto, muito comemorada.

Com a vitória em Riachuelo, com a retirada dos paraguaios da margem esquerda do Paraná e a rendição dos invasores em Uruguaiana, a opinião dos aliados era de que a guerra terminaria logo. Isso, porém, não ocorreu. O Paraguai era um país mobilizado e Humaitá ainda era uma fortaleza inexpugnável para os navios de madeira que venceram a Batalha Naval do Riachuelo. A guerra foi longa, difícil e causou muitas mortes e sacrifícios. Foi nela, que brasileiros de todas as regiões do País foram mobilizados conheceram-se melhor e trabalharam juntos para a defesa da Pátria. Consolidou-se, assim, a nacionalidade.

terça-feira, 5 de junho de 2012

O PCdoB e a "teoria dos três campos".


Todos os documentos políticos aprovados nos congressos do PCdoB nos últimos 20 anos (inclusive o da Conferência Estadual de 2011) apontam para a existência de três grandes campos políticos no Maranhão. Esses campos não são caracterizados somente por partidos, pessoas ou grupos políticos, mas também e principalmente pelas concepções sobre a gestão e o desenvolvimento do estado.

São eles: o grupo Sarney como sendo o grupo hegemônico, representando um condomínio de grupos familiares, locais e regionais, que se utilizam da influência do ex-presidente da república e atual presidente do senado José Sarney como o interlocutor nacional e do uso da máquina pública para manter a ferro e fogo o seu poder político.

A concepção de desenvolvimento do estado propugnada pelo sarneísmo baseia-se na opção de atrair, através de incentivos fiscais, grandes projetos e empreendimentos, que seriam os “redentores do Maranhão”. Esse modelo de crescimento desigual beneficia uma pequena parte da população e exclui a grande maioria do trabalho digno e da renda justa. Favorece, portanto, a própria elite política, que se retroalimenta numa relação promíscua entre o público e o privado.

O segundo grupo é formado pela oposição de direita a nível nacional (notadamente o PSDB) e pelas frações oligárquicas que disputam historicamente com Sarney o comando político do estado. Esse grupo, a rigor, não se diferencia do grupo Sarney nos projetos de desenvolvimento e na gestão da coisa pública. Na prática, repetem as mesmas ações do grupo sarneísta, pois compreendem a luta política como uma disputa interna na "classe política tradicional". Como estratégia intra-oligárquica, sempre tentou derrotar Sarney por um atalho, através de um único "golpe"! Acreditam, portanto, que vencer eleitoralmente Sarney seria já a superação do "sarneísmo". Por isso priorizam a "classe política tradicional" em detrimento de um equilíbrio entre a classe política e a sociedade civil e desprezam o conteúdo nacional no debate político interno.

O terceiro campo político é dos setores de esquerda, democráticos, progressistas e os movimentos sociais organizados (sindicatos, igrejas, ONGs, etc.). É onde o PCdoB se encontra. Esse campo sempre foi caracterizado pelo seu fracionamento político, pelo criticismo e esquerdismo em seus gestos e ações. E, pela sua fragilidade eleitoral, sempre se dividiu entre um ou outro grupo oligárquico.

O PCdoB tem se esforçado desde 2008 (contra Castelo, que representa a oposição de direita) e 2010 (contra Roseana Sarney, que representa o grupo hegemônico) em apresentar o que ficou popularmente conhecido como "terceira via" para a política maranhense. O nome do camarada Flávio Dino foi se configurando como a opção viável eleitoralmente para derrotar essas oligarquias. A "terceira via" seria a superação do modo oligárquico de comandar e gerir o estado, apresentando um programa para tirar o Maranhão do atraso em que se encontra há quase um século.

Ao contrário da visão oligárquica, os setores de esquerda, democráticos e progressistas propõem um projeto de desenvolvimento estadual que priorize os arranjos regionais produtivos, com valorização do trabalho e políticas públicas para o povo, equilibrando com os grandes projetos já implementados.
A concepção oligárquica do grupo Sarney e de sua oposição à direita defendem que só há dois campos políticos no estado: os sarneístas e os anti-sarneístas. É a lógica do terceiro excluído, que procura enquadrar os movimentos sociais, os setores democráticos e de esquerda entre uma ou outra oligarquia.

Na atual disputa pela sucessão de São Luís percebemos o movimento de pinça que os dois campos oligárquicos tentam fazer para pressionar o PCdoB a se enquadrar na disputa intra-oligárquica. Nessa lógica mesquinha, se o PCdoB derrotar Castelo fortalecerá Sarney; se apoiar Castelo então derrotará Sarney. Nessa visão não há saída política fora desses dois campos. Ora, o que está em debate é qual a lógica que prevalecerá na luta contra o sarneísmo: o do campo democrático ou da oposição oligárquica?

É óbvio que deve haver uma aliança política para derrotar o sarneísmo, mas não deve ser sob uma lógica dos setores oligárquicos, mas sim sobre os interesses democráticos, progressista e de esquerda. Deve haver um reforço do caminho vitorioso que a duras penas o PCdoB e seus aliados vêm construindo e que é popularmente conhecido como "terceira via" da política maranhense. Essa é a verdadeira renovação, não na idade dos atores, mas na concepção, na essência da visão política sobre o nosso estado.

É por isso que o PCdoB não deve apoiar nem indiretamente João Castelo (PSDB). Deve ajudar a derrotá-lo e submeter esses setores a um novo sentido, desta vez anti-oligárquico. Não se trata, obviamente, de não fazer alianças eleitorais, mas sim de dar sentido a essas alianças, o sentido anti-oligárquico. É somente com a derrota de Castelo que o campo anti-oligárquico vai se posicionar de maneira efetiva, com a força política dos seus ideais, para derrotar a oligarquia Sarney e começar a construir um novo momento para o nosso estado.

domingo, 3 de junho de 2012

Finalmente um debate com conteúdo na Rio + 20!!


Está circulando na internet o texto intitulado "Mudanças climáticas: hora de se recobrar o bom senso" na forma de uma carta aberta à presidenta Dilma Rousseff. Na carta - assinada por dezeseis cientistas e engenheiros de reconhececidas de importantes instituições públicas como o INPE, o ITA, a USP, a UFRJ, a UNB, entre outras - são elencados argumentos que vão na contramão do "consenso apocalíptico" que tomou conta do debate sobre o meio ambiente.

Já argumentei em outras oportunidades que o debate histérico em torno do meio ambiente tem interesses geopolíticos bem definidos e caminha no sentido de encobrir o fundamento histórico e social, enfim, prático, da degradação humana!

 O debate sobre o meio ambiente calcado no dogma da mudança climática, isto é, na crença de que "o aumento das temperaturas globais é causada pelo aumento da emissão de gases", se mostra extremamente frágil quando exposta ao crivo da argumentasção rigorosa, tanto científica quanto filosófica!

Aqui será exposto uma síntese dos argumentos científicos contra esse dogma. Depois, em outro texto, pretendo expor os argumentos filosóficos contra essa "naturalização" do destino humano.


Carta aberta à presidenta Dilma Rousseff

Mudanças climáticas: hora de se recobrar o bom senso


São Paulo, 14 de maio de 2012
Exma. Sra.
Dilma Vana Rousseff
Presidenta da República Federativa do Brasil

Excelentíssima Senhora Presidenta:

Em uma recente reunião do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, a
senhora afirmou, oportunamente, que a fantasia não tem lugar nas discussões
sobre um novo paradigma de crescimento - do qual a Humanidade necessita, de
fato, para proporcionar a extensão dos benefícios do conhecimento a todas as
sociedades do planeta. Com igual propriedade, a senhora assinalou, também,
que o debate sobre o desenvolvimento sustentado precisa ser pautado pelo
direito dos povos ao progresso, com o devido fundamento científico.
Assim sendo, permita-nos complementar tais formulações, observando que as
discussões sobre o tema central da agenda ambiental, as mudanças climáticas,
têm sido pautadas, predominantemente, por motivações ideológicas, políticas,
econômicas e acadêmicas restritas. Isto as têm afastado, não apenas dos
princípios basilares da prática científica, como também dos interesses maiores
das sociedades de todo o mundo, inclusive a brasileira. Por isso, apresentamos-
lhe as considerações a seguir.

1) Não há evidências físicas da influência humana no clima global:

A despeito de todo o sensacionalismo a respeito, não existe qualquer evidência
física observada no mundo real, que permita demonstrar que as mudanças
climáticas globais, ocorridas desde a Revolução Industrial do século XVIII,
sejam anômalas em relação às ocorridas anteriormente, no passado histórico e
geológico – anomalias que, se ocorressem, caracterizariam a influência humana.

Todos os prognósticos que indicam elevações exageradas das temperaturas e
dos níveis do mar, nas décadas vindouras, além de outros efeitos negativos
atribuídos ao lançamento de compostos de carbono de origem humana
(antropogênicos) na atmosfera, baseiam-se em projeções de modelos
matemáticos, que constituem apenas simplificações limitadas do sistema
climático – e, portanto, não deveriam ser usados para fundamentar políticas
públicas e estratégias de longo alcance e com grandes impactos
socioeconômicos de âmbito global.

A influência humana no clima restringe-se às cidades e seus entornos, em
situações específicas de calmarias, sendo esses efeitos bastante conhecidos, mas
sem influência em escala planetária. Para que a ação humana no clima global
ficasse demonstrada, seria preciso que, nos últimos dois séculos, estivessem
ocorrendo níveis inusitadamente altos de temperaturas e níveis do mar e,
principalmente, que as suas taxas de variação (gradientes) fossem superiores às
verificadas anteriormente.

O relatório de 2007 do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas
(IPCC) registra que, no período 1850-2000, a temperatura média global
aumentou 0,74oC, e que, entre 1870 e 2000, os níveis do mar subiram 0,2 m.
Ora, ao longo do Holoceno, a época geológica correspondente aos últimos
12.000 anos em que a Civilização tem existido, houve diversos períodos com
temperaturas mais altas que as atuais. No Holoceno Médio, há 6.000-8.000
anos, as temperaturas médias chegaram a ser 2oC a 3oC superiores às atuais,
enquanto os níveis do mar atingiram até 3 metros acima do atual. Igualmente,
nos períodos quentes conhecidos como Minoano (1500-1200 a.C.), Romano
(séc. VI a.C.-V d.C.) e Medieval (séc. X-XIII d.C.), as temperaturas foram mais
de 1oC superiores às atuais.

Quanto às taxas de variação desses indicadores, não se observa qualquer
aceleração anormal delas nos últimos dois séculos. Ao contrário, nos últimos
20.000 anos, desde o início do degelo da última glaciação, houve períodos em
que os gradientes das temperaturas e dos níveis do mar chegaram a ser uma
ordem de grandeza superiores aos verificados desde o século XIX.
Entre 12.900 e 11.600 anos atrás, no período frio denominado Dryas Recente, as
temperaturas caíram cerca de 8oC em menos de 50 anos e, ao término dele,
voltaram a subir na mesma proporção, em pouco mais de meio século.
Quanto ao nível do mar, ele subiu cerca de 120 metros, entre 18.000 e 6.000
anos atrás, o que equivale a uma taxa média de 1 metro por século,
suficientemente rápida para impactar visualmente as gerações sucessivas das
populações que habitavam as margens continentais. No período entre 14.650 e
14.300 anos atrás, a elevação foi ainda mais acelerada, atingindo cerca de 14
metros em apenas 350 anos – média de 4 metros por século.

Tais dados representam apenas uma ínfima fração das evidências
proporcionadas por, literalmente, milhares de estudos realizados em todos os
continentes, por cientistas de dezenas de países, devidamente publicados na
literatura científica internacional. Desafortunadamente, é raro que algum destes
estudos ganhe repercussão na mídia, quase sempre mais inclinada à promoção
de um alarmismo sensacionalista e desorientador.

Por conseguinte, as variações observadas no período da industrialização se
enquadram, com muita folga, dentro da faixa de oscilações naturais do clima e,
portanto, não podem ser atribuídas ao uso dos combustíveis fósseis ou a
qualquer outro tipo de atividade vinculada ao desenvolvimento humano.

2) A hipótese “antropogênica” é um desserviço à ciência:

A boa prática científica pressupõe a busca permanente de uma convergência
entre hipóteses e evidências. Como a hipótese do aquecimento global
antropogênico (AGA) não se fundamenta em evidências físicas observadas, a
insistência na sua preservação representa um grande desserviço à Ciência e à
sua necessária colocação a serviço do progresso da Humanidade.

A História registra numerosos exemplos dos efeitos nefastos do atrelamento da
Ciência a ideologias e outros interesses restritos. (...).
 O empenho na imposição do AGA, sem as devidas evidências, equivale a
uma versão atual do “lysenkoísmo”, que tem custado caro à Humanidade,
em recursos humanos, técnicos e econômicos desperdiçados com um problema inexistente.

Ademais, ao conferir ao dióxido de carbono (CO2) e outros gases produzidos
pelas atividades humanas o papel de principais protagonistas da dinâmica
climática, a hipótese do AGA simplifica e distorce um processo extremamente
complexo, no qual interagem fatores astrofísicos, atmosféricos, oceânicos,
geológicos, geomorfológicos e biológicos, que a Ciência apenas começa a
entender em sua abrangência.

Um exemplo dos riscos dessa simplificação é a possibilidade real de que o
período até a década de 2030 experimente um considerável resfriamento, em
vez de aquecimento, devido ao efeito combinado de um período de baixa
atividade solar e de uma fase de resfriamento do oceano Pacífico (Oscilação
Decadal do Pacífico-ODP), em um cenário semelhante ao verificado entre 1947 e
1976. Vale observar que, naquele intervalo, o Brasil experimentou uma redução
de 10-30% nas chuvas, o que acarretou problemas de abastecimento de água e
geração elétrica, além de um aumento das geadas fortes, que muito
contribuíram para erradicar o café no Paraná. Se tais condições se repetirem, o
País poderá ter sérios problemas, inclusive, nas áreas de expansão da fronteira
agrícola das regiões Centro-Oeste e Norte e na geração hidrelétrica
(particularmente, considerando a proliferação de reservatórios “a fio d’água”,
impostos pelas restrições ambientais).

A propósito, o decantado limite de 2oC para a elevação das temperaturas, que,
supostamente, não poderia ser superado e tem justificado todas as restrições
propostas para os combustíveis fósseis, em âmbito internacional, também não
tem qualquer base científica: trata-se de uma criação “política” do físico Hans-
Joachim Schellnhuber, assessor científico do governo alemão, como admitido
por ele próprio, em uma entrevista à revista Der Spiegel (17/10/2010).

3) O alarmismo climático é contraproducente:

As mudanças constituem o estado permanente do sistema climático – pelo que a
expressão “mudanças climáticas” chega a ser redundante. Por isso, o alarmismo
que tem caracterizado as discussões sobre o tema é extremamente prejudicial à
atitude correta necessária diante dos fenômenos climáticos, que deve ser
orientada pelo bom senso e pelo conceito de resiliência, em lugar de submeter
as sociedades a restrições tecnológicas e econômicas absolutamente
desnecessárias.

No caso, resiliência significa a flexibilidade das condições físicas de
sobrevivência e funcionamento das sociedades, além da capacidade de resposta
às emergências, permitindo-lhes reduzir a sua vulnerabilidade às oscilações
climáticas e outros fenômenos naturais potencialmente perigosos. Tais
requisitos incluem, por exemplo, a redundância de fontes alimentícias (inclusive
a disponibilidade de sementes geneticamente modificadas para todas as
condições climáticas), capacidade de armazenamento de alimentos,
infraestrutura de transportes, energia e comunicações e outros fatores.
Portanto, o caminho mais racional e eficiente para aumentar a resiliência da
Humanidade, diante das mudanças climáticas inevitáveis, é a elevação geral dos
seus níveis de desenvolvimento e progresso aos patamares permitidos pela
Ciência e pela Tecnologia modernas.

Além disso, o alarmismo desvia as atenções das emergências e prioridades reais.
Um exemplo é a indisponibilidade de sistemas de saneamento básico para mais
da metade da população mundial, cujas consequências constituem, de longe, o
principal problema ambiental do planeta. Outro é a falta de acesso à
eletricidade, que atinge mais de 1,5 bilhão de pessoas, principalmente na Ásia,
África e América Latina.

No Brasil, sem mencionar o déficit de saneamento, grande parte dos recursos
que têm sido alocados a programas vinculados às mudanças climáticas, segundo
o enfoque da redução das emissões de carbono, teria uma destinação mais útil à
sociedade se fosse empregada na correção de deficiências reais, como: a falta de
um satélite meteorológico próprio (de que dispõem países como a China e a
Índia); a ampliação e melhor distribuição territorial da rede de estações
meteorológicas, inferior aos padrões recomendados pela Organização
Meteorológica Mundial, para um território com as dimensões do brasileiro; o
aumento do número de radares meteorológicos e a sua interligação aos sistemas
de defesa civil; a consolidação de uma base nacional de dados climatológicos,
agrupando os dados de todas as estações meteorológicas do País, boa parte dos
quais sequer foi digitalizada; e numerosas outras.

4) A “descarbonização” da economia é desnecessária e economicamente
deletéria:

Uma vez que as emissões antropogênicas de carbono não provocam impactos
verificáveis no clima global, toda a agenda da “descarbonização” da economia,
ou “economia de baixo carbono”, se torna desnecessária e contraproducente –
sendo, na verdade, uma pseudo-solução para um problema inexistente. A
insistência na sua preservação, por força da inércia do status quo, não implicará
em qualquer efeito sobre o clima, mas tenderá a aprofundar os seus numerosos
impactos negativos.

O principal deles é o encarecimento desnecessário das tarifas de energia e de
uma série de atividades econômicas, em razão de: a) os pesados subsídios
concedidos à exploração de fontes energéticas de baixa eficiência, como a eólica
e solar - ademais, inaptas para a geração elétrica de base (e já em retração na
União Europeia, que investiu fortemente nelas); b) a imposição de cotas e taxas
vinculadas às emissões de carbono, como fizeram a União Europeia, para
viabilizar o seu mercado de créditos de carbono, e a Austrália, sob grande
rejeição popular; c) a imposição de medidas de captura e sequestro de carbono
(CCS) a várias atividades.

Os principais beneficiários de tais medidas têm sido os fornecedores de
equipamentos e serviços de CCS e os participantes dos intrinsecamente inúteis
mercados de carbono, que não têm qualquer fundamento econômico real e se
sustentam tão-somente em uma demanda artificial criada sobre uma
necessidade inexistente. Vale acrescentar que tais mercados têm se prestado a
toda sorte de atividades fraudulentas, inclusive no Brasil, onde autoridades
federais investigam contratos de carbono ilegais envolvendo tribos indígenas, na
Amazônia, e a criação irregular de áreas de proteção ambiental para tais
finalidades escusas, no estado de São Paulo.

5) É preciso uma guinada para o futuro:

Pela primeira vez na História, a Humanidade detém um acervo de
conhecimentos e recursos físicos, técnicos e humanos, para prover a virtual
totalidade das necessidades materiais de uma população ainda maior que a
atual. Esta perspectiva viabiliza a possibilidade de se universalizar – de uma
forma inteiramente sustentável – os níveis gerais de bem-estar usufruídos pelos
países mais avançados, em termos de infraestrutura de água, saneamento,
energia, transportes, comunicações, serviços de saúde e educação e outras
conquistas da vida civilizada moderna. A despeito dos falaciosos argumentos
contrários a tal perspectiva, os principais obstáculos à sua concretização, em
menos de duas gerações, são mentais e políticos, e não físicos e ambientais.

Para tanto, o alarmismo ambientalista, em geral, e climático, em particular, terá
que ser apeado do seu atual pedestal de privilégios imerecidos e substituído por
uma estratégia que privilegie os princípios científicos, o bem comum e o bom
senso.

A conferência Rio+20 poderá ser uma oportuna plataforma para essa necessária
reorientação.

Kenitiro Suguio
Geólogo, Doutor em Geologia
Professor Emérito do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo
(USP) Membro titular da Academia Brasileira de Ciências
Luiz Carlos Baldicero Molion
Físico, Doutor em Meteorologia e Pós-doutor em Hidrologia de Florestas
Pesquisador Sênior (aposentado) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
(INPE) Professor Associado da Universidade Federal de Alagoas (UFAL)
Fernando de Mello Gomide
Físico, Professor Titular (aposentado) do Instituto Tecnológico da Aeronáutica
(ITA)Co-autor do livro Philosophy of Science: Brief History (Amazon Books, 2010,
com Marcelo Samuel Berman)
José Bueno Conti
Geógrafo, Doutor em Geografia Física e Livre-docente em Climatologia
Professor Titular do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo
(USP)Autor do livro Clima e meio ambiente (Atual, 2011)
José Carlos Parente de Oliveira
Físico, Doutor em Física e Pós-doutor em Física da Atmosfera
Professor Associado (aposentado) da Universidade Federal do Ceará (UFC)
Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará
(IFCE)
Francisco Arthur Silva Vecchia
Engenheiro de Produção, Mestre em Arquitetura e Doutor em Geografia
Professor Associado do Departamento de Hidráulica e Saneamento da Escola de
Engenharia de São Carlos–USP
Diretor do Centro de Recursos Hídricos e Ecologia Aplicada (CRHEA)
Ricardo Augusto Felicio
Meteorologista, Mestre e Doutor em Climatologia
Professor do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP)
Antonio Jaschke Machado
Meteorologista, Mestre e Doutor em Climatologia
Professor do Departamento de Geografia da Universidade Estadual Paulista
“Júlio de Mesquita Filho” (UNESP)
João Wagner Alencar Castro
Geólogo, Mestre em Sedimentologia e Doutor em Geomorfologia
Professor Adjunto do Departamento de Geologia da Universidade Federal do
Rio de Janeiro (UFRJ)
Chefe do Departamento de Geologia e Paleontologia do Museu Nacional/UFRJ
Helena Polivanov
Geóloga, Mestra em Geologia de Engenharia e Doutora em Geologia de
Engenharia e Ambiental
Professora Associada do Departamento de Geologia da Universidade Federal do
Rio de Janeiro (UFRJ)
Gustavo Macedo de Mello Baptista
Geógrafo, Mestre em Tecnologia Ambiental e Recursos Hídricos e Doutor em
Geologia
Professor Adjunto do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília
(UnB)
Autor do livro Aquecimento Global: ciência ou religião? (Hinterlândia, 2009)
Paulo Cesar Soares
Geólogo, Doutor em Ciências e Livre-docente em Estratigrafia
Professor Titular da Universidade Federal do Paraná (UFPR)
Gildo Magalhães dos Santos Filho
Engenheiro eletrônico, Doutor em História Social e Livre-docente em História
da Ciência e Tecnologia
Professor Associado do Departamento de História da
Universidade de São Paulo (USP)
Paulo Cesar Martins Pereira de Azevedo Branco
Geólogo, Pesquisador em Geociências (B-sênior) do Serviço Geológico do Brasil
– CPRM
Especialista em Geoprocessamento e Modelagem Espacial de Dados em
Geociências
Daniela de Souza Onça
Geógrafa, Mestra e Doutora em Climatologia
Professora da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC)
Marcos José de Oliveira
Engenheiro Ambiental, Mestre em Engenharia Ambiental e Climatologia
Aplicada
Doutorando em Geociências Aplicadas na Universidade de Brasília (UnB)
Geraldo Luís Saraiva Lino
Geólogo, coeditor do sítio Alerta em Rede
Autor do livro A fraude do aquecimento global: como um fenômeno natural foi
convertido numa falsa emergência mundial (Capax Dei, 2009)
Maria Angélica Barreto Ramos
Geóloga, Pesquisadora em Geociências (Senior)
do Serviço Geológico d Brasil – CPRM
Mestre em Geociências – Opção Geoquímica Ambiental e Especialista em
Geoprocessamento e Modelagem Espacial de Dados em Geociências

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Flávio Dino: "Sarneysista e ingrato"




O título acima é uma postagem do blogueiro John Cutrim comentando o resultado das eleições de 2008 para prefeitura de São Luís(http://blog.jornalpequeno.com.br/johncutrim/2008/10/21/sarneysista-e-ingrato/).

Lá está dito que Flávio Dino "mais uma vez negou inutilmente que tenha o apoio da oligarquia Sarney" e que "o candidato dos comunistas acabou também se revelando um ingrato, afinal, todos sabem que Dino só se elegeu deputado federal por que teve o irrestrito apoio do então libertador do Maranhão governador José Reinaldo Tavares (PSB), que ainda hoje é seu principal conselheiro político". E conclui afirmando “não seria melhor para Dino jogar a toalha, a ter que ficar falando um rosário de asneiras que podem até comprometer uma promissora carreira política?"

Mais do que um panfleto pago, a conclusão expressava a tentativa de enquadramento de Flávio Dino (PCdoB) dentro das estreitas amarras da luta intra-oligárquica maranhense. O "jogar a toalha" é aceitar que para participar da política tem que se colocar a serviço de uma ou outra oligarquia que se sucedem na governança do Maranhão.

Não é de hoje que o arqui-reacionário prefeito João Castelo (PSDB) e sua corja de fâmulos atacam seus adversários políticos xingando-os de "sarneístas". Essa velha e surrada tática direitista está circunscrita na lógica da disputa intra-oligárquica como já apontei em outro artigo (http://www.pneuma-apeiron.blogspot.com.br/2009/04/o-terceiro-excluido-i-parte.html ).

Agora, mais uma vez, a ladainha do anti-sarneísmo volta à tona, tentando criar uma falsa condição política que mantenha sobrevida à múmia castelista. O argumento é primário: Castelo é o único que seria o legítimo opositor do oligarca-mor José Sarney, logo, merece estender por mais quatro anos o comando político da capital...

Não entrarei na lógica de afirmar que Castelo é tão anti-serneísta quanto seus interesses políticos e financeiros assim o permitirem (que diga os gestos do prefeito de São Luís nas eleições de 2010 para governador!). Prefiro sair dessa lógica intra-oligárquica que só serviu até hoje para afundar o Maranhão na maior de todas as suas misérias: a miséria política! Prefiro mostrar que esse mesmo discurso já foi usado contra o povo de São Luís há aproximadamente quatro anos, quando das eleições municipais passadas.

Nessa época, o sarneísta de plantão era o Flávio Dino. Fofocas, intrigas, fuxicos, invenções, falsas testemunhas oculares, cartazes e panfletos apócrifos, etc., tudo foi usado para "provar" que o então candidato Flávio Dino era "sarneysista" - como preferem os escribas pagos à soldo da prefeitura de São Luís -, além disso, Flávio Dino também era "ateu", "batia no pai" e "homossexual"!!! Edivaldo Holanda (PTC) também demonizava Flávio Dino pelas igrejas em que pregava.

Este é o nível do discurso daqueles que acreditam que por se dizerem anti-sarneístas, já expiaram todos os seus pecados e estão salvos somente por emitirem esse mantra. Tanto é assim, que o próprio John Cutrim anunciou a vitória de Castelo em 2008 como sendo "derrota de Sarney”(http://blog.jornalpequeno.com.br/johncutrim/2008/10/27/derrota-de-sarney-joao-castelo-vence-em-sao-luis/).

Agora, mais uma vez, estamos assistindo a repetição (ou seria farsa?) desse enredo reacionário e de baixo nível. Mais uma vez está em jogo o futuro de São Luís e a possibilidade de começar a superar essa política miserável, expressão maior do domínio oligárquico, que pretende arrastar a tudo e a todos para o esgoto das ações... Preparem-se, o velho Castelo, seus aliados e seus fâmulos estão de volta para perpetuar o atraso de São Luís.