sexta-feira, 4 de maio de 2012

O grito de US$ 120 milhões de dólares.



Fiquei impressionado com o valor do quadro. A obra do pintor expressionista norueguês Edvard Munch é a mais cara obra de arte da história. De uma série de quadros pintados em 1893, "O grito" representa de forma sintética todas as idéias que compõe o pano de fundo do expressionismo: a visão distorcida da subjetividade, o arrebatamento do inconsciente, a irracionalidade do humano e a deformação emocional da realidade pelo indivíduo. A figura desesperada que grita, funde na sua agonia o céu e o mar, que juntos deformam-se para compor a cena. A dor e o desespero estão estampados nas cores fortes e nos gestos deformados. Sem dúvida é uma cena impressionante!

Mas por que essa obra custou tão caro? Será o expressionismo a maior corrente artística do nosso tempo? Será Munch o maior de todos os pintores? Ou será apenas especulação do capital no mercado das artes?

São as duas coisas ao mesmo tempo!

No mercado de grandes obras de arte prevalece a mesma lógica do sistema capitalista como um todo, isto é, as obras viram mercadorias, no caso específico das artes, commodities artísticas. O capital acumulado procura realizar seu lucro não na liquidez imediata, mas na sua transformação em capital simbólico, que acumula valor dado o monopólio da exclusividade da peça e do circuito cultural da sua valorização, como bienais, exposições etc., onde o grupo de investidores espera a realização do lucro futuro.

Segundo o pensador marxista inglês David Harvey no livro a Condição pós-moderna (Loyola, 1992), a renda do monopólio ocorre quando um produtor pode gerar um aumento constante de superávit e, em consequência disso, maior renda ao longo do tempo, através da exclusividade da sua mercadoria. Isto pode ser atingido quando se é o único produtor ou detentor de certa commodity, no âmbito de uma economia regional, ou através da singularidade de uma marca numa economia mais global. Aqui lidamos com uma culturização de commodities bem como com a mercantilização da cultura. Portanto, para decepção dos amantes da pintura, não foi um expert em artes que adquiriu o quadro, mas sim um grupo de investidores na procura de salvar o rendimento dos seus clientes ante a crise que afeta os EUA e a Europa.

Mas também há um elemento espiritual nessa aquisição. "O grito" representa o momento atual da nossa civilização capitalista, globalizada e neoliberal. A barbárie, o desespero e a falta de perspectiva que abala particularmente o velho mundo, reduzido a joguete nas mãos brutas do capital financeiro, estão expressos, como vimos, na obra de Munch.
Por um viés que algum dia será explicado, a obra de arte mais cara que o capital pode inventar é a imagem mesma, subconsciente, do sistema que agoniza ante sua própria exuberância irracional.

Um comentário:

  1. Salve Cristiano:

    Esse "GRITO" provavelmente vai ser o grito do fim do Capitalismo. Fim este, não por comunistas "inimigos do sistema", mas pelas próprias características intrínsecas do modelão em decadência total.
    O Capitalismo colapsou, mas ainda não divulgaram a notícia. No momento, estão tentando ganhar os últimos "cobres" e preparando as cercas do encarceramento social.
    Esse "O Grito" é bem representativo deste momento - uma Elite vil, tentando subjugar os demais, mantê-los na ignorância e no escracho de si mesmos, enquanto tramam seus planos sinistros.
    Esse energúmeno, que comprou este quadro por este valor sem sentido, provavelmente paga o mínimo aos seus empregados, aos seus funcionários, deve tratá-los como animais, com desprezo.
    Esse "apreço" à arte deve ser uma forma de parecer um ser humano de valor, apreciador das artes, etc. Que nada, são a escória da humanidade, puro lixo humano, mãos cheias de sangue e iniquidades.
    Esse grito, que será ouvido em toda a parte, é o grito de repúdio a um sistema decadente, podre e desumano.
    Saudações,

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