quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O fascismo pós-moderno e a batalha pela memória.



Fábio Palácio *

Começou da noite para o dia. A um chamado de Veja, os trustes do oligopólio midiático – hoje alcunhados, não sem razão, de PIG (Partido da Imprensa Golpista) – iniciaram, em uníssono e de forma frenética, intenso bombardeio contra os comunistas brasileiros e sua corrente orgânica, o Partido Comunista do Brasil.

O que começou com agressões contra uma importante e respeitada liderança comunista, o ministro Orlando Silva, foi tomando proporções insólitas. Quando os detratores do PCdoB desceram sorrateiramente aos porões de suas próprias almas, as investidas iniciais deram lugar a uma ofensiva de nítidos contornos ideológicos. Passou-se a atentar contra o Partido como instituição – sua história, suas ideias, sua herança, sua presença na sociedade e na cultura brasileira –, numa espécie de reação ideológica em toda linha, com múltiplas frentes de contestação abertas simultaneamente.

Uma delas, talvez a mais curiosa, foi inaugurada no último sábado (22) com a publicação, na capa do jornal O Globo, de chamada para uma carta da historiadora Anita Leocádia Prestes, filha das históricas lideranças comunistas Olga Benário e Luís Carlos Prestes. Na missiva, endereçada à direção do PCdoB, ela protesta contra o que considera “utilização indébita” da imagem de seus pais no programa do PCdoB, exibido nas redes de TV aberta na última quinta-feira (20). Anita se referia a uma vinheta veiculada como avant-première das comemorações pelos 90 anos do PCdoB, que se realizam em 2012. Vejamos o texto que foi ao ar no programa:

“Mudar era impossível. Até o dia em que eles usaram o que tinham de melhor e simplemente mudaram. A criatividade de Jorge Amado mudou a literatura brasileira. A paixão de Drummond mudou a poesia. A ousadia de Pagu mudou o comportamento feminino. O talento de Portinari mudou a arte. A visão de futuro de Niemeyer mudou a forma da arquitetura. A coragem de Olga Benário mudou a forma de se fazer política. O sonho de João Amazonas, Maurício Grabois e Luís Carlos Prestes mudou a história. De um jeito ou de outro, todos eles mudaram o país. E todos eles fizeram do PC do B um partido que é a cara do Brasil.”

O que talvez tenha passado despercebido de Anita é que o PCdoB não utilizou “seus pais”, mas dois ícones da história política brasileira. Essa senhora – que recentemente, quando do traslado da Rússia para o Brasil de importantes documentos relacionados a Prestes, pleiteou que fossem alocados não em arquivos públicos, mas em uma ONG familiar por ela administrada – pensa que os símbolos da história têm dono. No entanto, personagens como Olga e Prestes pertencem unicamente à galeria de heróis da nação brasileira e ao acervo de lutas de nosso povo. A história não pode ser privatizada – nem pelo dinheiro, nem pela aristocrática evocação de uma herança de sangue.

À senda aberta por Anita Leocádia logo acorreram outros. Não bastava questionar o presente do PCdoB, era preciso golpear os comunistas apagando seu passado, divorciando-os de sua própria história. “O partido delirou: no programa partidário para TV, tratou a História como massinha de moldar. De repente, citam Luís Carlos Prestes, Niemeyer, Drummond como grandes nomes do partido”, afirma o jornalista Carlos Brickmann em coluna publicada em vários jornais deste domingo (23). Já Fernando Gabeira – figura renegada da esquerda, rendida aos conservadores por trinta tostões –, joga ainda mais duro: o PCdoB teria cometido, em seu programa na TV, “uma injustiça com a história cultural brasileira”.

O argumento esgrimido é sempre o mesmo: figuras como Prestes, Niemeyer ou Drummond não teriam sido jamais membros das fileiras do PCdoB, não podendo portanto ser evocados por esse partido. Nas palavras de Gabeira, “fica no ar uma impressão falsa de que existe uma continuidade entre eles e o PC do B”. Nessa concepção cartorial de política, que vê sempre os partidos como meras legendas descartáveis – o que, infelizmente, se aplica de fato à maioria deles – fico pensando se também não deveríamos ser proibidos de reverenciar figuras como as de Marx, Engels, Lênin, José Bonifácio e Tiradentes. Afinal, eles também “não foram do PCdoB”.

Mas Gabeira vai ainda mais longe. Mostrando-se especialmente indignado com a evocação do poeta Carlos Drummond de Andrade, termina por afirmar que nada autoriza a apresentá-lo “como um dos grandes intelectuais comunistas da história do Brasil”. Logo Drummond, ex-editor da Tribuna Popular (órgão da imprensa comunista que circulou na década de 1940) e também autor, como lembra o próprio Gabeira, de A Rosa do Povo, livro de grande sensibilidade social e política, momento alto não apenas da cultura brasileira, mas da literatura de extração comunista em todo o mundo, capaz de ombrear-se à maior literatura do mesmo gênero, bastando para isso compará-lo à poesia comunista de Pablo Neruda.

Para Gabeira, o rompimento de Drummond com o Partido em 1949, após a realização do congresso da Associação Brasileira dos Escritores, seria suficiente para ficarmos os comunistas proibidos de evocá-lo para todo o sempre. “A poesia de Drummond não cabia nos rígidos cânones estéticos do Partido Comunista. Nem sua individualidade poderia ser conformada nos limites do centralismo democrático.” O intuito é fulgente: exaltar a grandeza de Drummond em oposição à “pequenez” do Partido Comunista. Drummond não precisa disso. E Gabeira, ademais, não se dá conta da contradição em que incorre: ali, quando opõe Drummond aos comunistas, enxerga continuidade entre o PCdoB e a legenda à qual esteve filiado o grande poeta brasileiro. Traduzindo: os comunistas só temos o direito de reivindicar a herança do Partido naquilo que possui de “negativa”, jamais no que possa possuir de positiva.

Abre-se dessa forma um confronto de novo tipo, intangível, que bem poderia ser considerado uma “batalha pela memória”. Está decretado: ficam os comunistas proibidos de evocar sua própria história! Ou, melhor dizendo, ficam os comunistas proibidos de ser quem são!

O irônico de tudo é que, na avalanche anticomunista deflagrada no final dos anos 1980, com a queda do muro de Berlim, o PCdoB foi vilipendiado exatamente por continuar reivindicando símbolos, personagens e, enfim, a herança do movimento comunista. Naquela época não foram poucos os que renegaram essa herança. Muitos rasgaram as bandeiras com a foice e o martelo e mergulharam de cabeça no butim neoliberal. Quando nos convidaram a ir junto, recusamos. E se riam de nós, dizendo que, se não nos dispuséssemos a renegar nosso próprio passado, desapareceríamos. Respondemos que não, que preferíamos morrer a jogar no lixo nossa história. Não morremos. Ao contrário, a persistente crise capitalista mundial – à qual nosso país tem resistido bravamente, graças às políticas dos governos Lula e Dilma – nos dá razão dia após dia. E, não por acaso, o Partido cresce a olhos vistos, como revela de maneira insuspeita o semanário Época, apresentando gráficos, tabelas e toda uma parafernália de provas do crescimento dos comunistas, que teriam chegado “ao centro do poder”.

Ou seja: naquela época se riam quando evocávamos a história do comunismo. Hoje, ao contrário, estamos proibidos de reverenciá-la. Num país onde os partidos costumam mudar de nome não como expressão de qualquer avanço programático, mas como reles tentativa de apagar o passado, é surpreendente que se ataque um partido por recusar-se a renegar sua história!

Porém, em pelo menos uma coisa é necessário concordar com nossa moderna inquisição: a memória é coisa séria demais para ser deixada “solta” por aí. O marxismo possui fortuna crítica sobre o tema. Em O narrador, Walter Benjamin – intelectual marxista morto em 1940 em decorrência da perseguição fascista na Europa – mostra-se convicto de que o passado contém sempre a força de algo inacabado, e que o presente pode assumir, por meio da memória, um papel redentor. Em sua crítica da modernidade, Benjamin esforçou-se por apontar o que considerou um grave perigo: a “perda da memória”. O homem moderno teria como um de seus traços o culto obsessivo à imediatidade do instante presente, o que terminaria por acarretar uma recusa persistente do passado. Segundo Benjamin, esse fenômeno seria visível na perda, pelo homem moderno, da capacidade de narrar – e, com ela, de comunicar a experiência, instruindo o presente e agregando sentido ao futuro. Benjamin via nesse fenômeno um verdadeiro atentado à cultura e, mesmo, uma tendência à barbárie.

De fato, o mundo em que vivemos é marcado por contínuos e persistentes ataques à consciência histórica. Como afirma o intelectual marxista britânico Terry Eagleton em seu Depois da Teoria – um olhar sobre os estudos culturais e o pós-modernismo, esse processo é consequência direta do clima de desilusão que se instaurou no pós-guerra. Ao longo das últimas décadas, de enfadonho conservadorismo neoliberal, o senso histórico tornou-se crescentemente “obtuso”, já que convém aos detentores do poder que as maiorias populares, não recordando o passado, sejam também incapazes de imaginar alternativas ao estado atual das coisas. Nessa perspectiva, classificada por Eagleton de “política da amnésia”, o futuro seria, simplesmente, o presente indefinidamente repetido.

Essa realidade tem afetado gravemente os empreendimentos coletivos, sejam os dos trabalhadores, sejam os da juventude, sejam os de diversos outros segmentos sociais ou, mesmo, os do povo-nação. Não à toa, conforme denuncia Eagleton, “o que se provou mais danoso foi a ausência de memórias de ação política coletiva – e efetiva. É isso que tem distorcido tantas ideias culturais contemporâneas”.

Essas ideias distorcidas são expressão de um autoritarismo visceral. Se em tempos outros o fascismo, em sua luta contra os comunistas, tinha como expediente principal a aniquilação física, hoje pratica uma violência simbólica, porém não menos agressiva, que lança mão de uma espécie de liquidacionismo “moral” e inclui a negação do direito à memória. Fico pensando se não seria também a isso que faz referência o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, quando, no auge das denúncias contra Orlando Silva, sacou o termo “fascismo pós-moderno”. No mundo em que vivemos, o mesmo que atira ao lixo da história princípios civilizatórios como o da presunção de inocência, nem mesmo o direito ao passado está garantido. É preciso lutar contra isso. Em nossa sociedade, ninguém devia ser proibido de lembrar seus heróis.

* Fábio Palácio é jornalista e estudante de doutorando pela ECA/USP. Desenvolve, com financiamento da Capes, projeto de pesquisa sobre o marxismo e o conceito de cultura. Militante comunista, espera poder continuar recordando, sem ser importunado, seus ícones e referências, quando e onde quer que seja.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Neta de Prestes defende o PCdoB.





Ana Maria Prestes: "Sobre o legado de Olga e Prestes"


A edição desta segunda-feira (24) do jornal O Globo traz uma matéria sobre as críticas da historiadora Anita Leocádia Prestes, filha de Luís Carlos Prestes e Olga Benário, ao uso das imagens de seus pais no programa partidário do PCdoB – que foi ao ar na última quinta-feira (20), em rede nacional de televisão. Ao lado de outros grandes nomes que ajudaram a construir o movimento comunista no Brasil, Olga e Prestes foram, na verdade, homenageados pela heroica atuação na vida política do país.

Anita chegou a encaminhar uma carta ao Comitê Central do Partido em manifestação contrária à homenagem do PCdoB aos seus pais. Em resposta, a socióloga Ana Maria Prestes Rabelo – membro do Comitê Central do PCdoB e neta de Luís Carlos Prestes – contesta a postura da tia. Ela lembrou que a trajetória do avô “é uma referência na história mundial do século 20” e não pode ser vista como um bem pertencente a qualquer um de seus herdeiros.

“Através destas homenagens e graças à força do PCdoB nos dias atuais, as novas gerações de jovens comprometidos com o desenvolvimento do Brasil podem conhecer esta história e decidir se integrar à ela”, diz Ana Maria.

Ela ressaltou que, há 15 anos, escolheu militar no PCdoB e se reafirmou testemunha das constantes homenagens e do respeito que o Partido rende à memória de Prestes – interna e publicamente.

Ana Maria falou ainda dos ataques e das calúnias das quais o PCdoB foi acusado recentemente. “Nas últimas semanas, este Partido tem sido sistematicamente atacado como parte de uma estratégia que pretende deslegitimar um governo comprometido com os avanços do Brasil. E, não por coincidência, esta estratégia é inflamada pela mesma imprensa golpista que meu avô e minha avó, Maria, me ensinaram a condenar”.

Leia abaixo a íntegra da carta divulgada por Ana Maria Prestes Rabelo:


Sobre o legado de Olga e Prestes


No último dia 21 de outubro, em carta enviada ao PCdoB, minha tia, Anita Leocádia Prestes, protestou contra a homenagem prestada pelo PCdoB a Olga Benário e Luiz Carlos Prestes em programa televisivo transmitido na noite do dia 20 de outubro.

Como neta de Prestes, sempre penso que felizmente em nossa numerosa família ninguém se arvora a ser proprietário(a) da história do meu avô e temos todos consciência de que sua trajetória é uma referência na história mundial do século 20 e não pertence a qualquer um de nós.

Perto de comemorar seus 90 anos, o PCdoB presta uma homenagem a todos aqueles que ajudaram a construir o movimento comunista no Brasil, nas suas diferentes etapas e de diferentes maneiras.

Através destas homenagens e graças à força do PCdoB, nos dias atuais, as novas gerações de jovens comprometidos com o desenvolvimento do Brasil podem conhecer esta história e decidir se integrar à ela.

O programa de TV veiculado pelo PCdoB expressou este momento especial pelo qual passam os comunistas no Brasil, de aumento da influência de suas ideias e projeção de suas lideranças. Por isso, o mesmo tem sido alvo de uma poderosa reação de setores que há tempos imemoriais tentam calar a nossa voz.

O PCdoB foi o Partido que escolhi para militar há 15 anos e sou testemunha das homenagens e o respeito que se tem rendido à memória de Prestes no seu interior e em suas manifestações públicas.

Nas últimas semanas, este Partido tem sido sistematicamente atacado como parte de uma estratégia que pretende deslegitimar um governo comprometido com os avanços do Brasil. E, não por coincidência, esta estratégia é inflamada pela mesma imprensa golpista que meu avô e minha avó, Maria, me ensinaram a condenar.


Ana Maria Prestes Rabelo

Membro do Comitê Central do PCdoB

domingo, 23 de outubro de 2011

Veja se enrola mais nas mentiras.

Uma fonte deste blog na TV Globo, do Rio, informa que não está nada amistosa a relação da emissora dos Marinhos com a revista Veja. O estranhamento de Veja e Globo tem a ver com a artilharia pesada do semanário contra o ministro do Esporte, Orlando Silva, e o PCdoB.

A produção do Jornal Nacional pediu ontem o áudio que Veja recebeu do ex-policial João Dias Ferreira, no qual dialoga com dois assessores do Ministério do Esporte, mas a revista se recusou a fornecer a matéria-prima ao parceiro de PIG (Partido da Imprensa Golpista).

O blog foi atrás e descobriu que Veja não possui diálogos que comprometem o ministro ou os assessores acusados por ela. Pelo contrário. É o policial Dias quem se complica ainda mais. O “herói” da revista já esteve preso por desvio de recursos da pasta e é suspeito de assassinato.

Na fita que está em poder de Veja, o acusador ameaça com um revólver os assessores do Ministério. Por isso a revista não publicou diálogos na reporcagem desta semana.

Como norma padrão, o Jornal Nacional sempre dava destaque às estripulias de Veja com a condição de exclusividade nas “provas” materiais adquiridas. Pela primeira vez a revista não cumpriu o acordo e isso deixou a Globo com muito mau humor.

A direção TV Globo, segundo a mesma fonte, teme que a emissora tenha sido arrastada numa guerra que poderá custar-lhe o pouco de credibilidade (e os pontinhos no Ibope) que tem.

Se a Globo quer saber do áudio secretos de Veja, imagine os comunistas…

O ministro Orlando Silva está rindo à toa da trapalhada. Ele fez a sua parte ao pedir para ser investigado, abrir sigilos bancários e telefônicos, enfim, depor no Congresso Nacional.

O diabo é que a revista Veja se recusa a fazer a parte dela que é bem mais simples: mostrar o áudio coletado clandestinamente pelo policial João Dias.

Fonte: Blog do Esmael (www.esmaelmorais.com.br)

terça-feira, 18 de outubro de 2011

A bárbarie dos grandes meios de comunicação.






As denúncias da Veja/Globo contra o Ministro do Esporte Orlando Silva Jr. são apenas pontas do gigantesco iceberg  que é a  "inversão de valores" que graça na economia e na política.

Sendo o neoliberalismo a hegemonia do capital financeiro, portador de juros, especulativo, volátil, sobre a produção e o trabalho, então vivemos em uma época parasitária, do menor esforço e do máximo lucro. Das conclusões antes das premissas. É a época da especulação vencendo a produção!

O reflexo social da nossa época pode ser percebido na grande mídia - que, a rigor, são empresas privadas - e a sua sistemática destruição de todos os valores do discurso racional, universalista e humanista, em favor das especulações dos interesses corporativos e privados, nacionais e estrangeiros!

Essa "nova ordem mundial" vai de encontro a nossa constituição cidadã de 1988, que consagra os valores clássicos da institucionalidade jurídica de um período democrático da nossa história.

Subvertendo a lógica elementar, querem inverter o ônus da prova e condenar antes do julgamento! Os grandes meios de comunicação se arrogam o direito da autotutela, promovendo verdadeiros linchamentos públicos, sem um mínimo de direito de defesa !!! Estamos, portanto, em uma época bárbara...

Basta dessa injustiça !!! Por uma Lei de Meios!!! Pelo controle social da informação !!!

domingo, 16 de outubro de 2011

As fontes sinistras da revista Veja.


Por Altamiro Borges

Atacado em sua honra pela revista Veja, o ministro dos Esportes, Orlando Silva, foi rápido nas respostas. Ainda de Guadalajara, no México, onde participou da abertura dos Jogos Pan-Americano, ele solicitou que a Polícia Federal investigue as denúncias, colocou à disposição o seu sigilo fiscal e bancário e anunciou que refutará as acusações no Congresso Nacional já na próxima semana.

Revoltado com as “invenções e calúnias”, o ministro também explicitou que não vai se intimidar. Ele está decidido a mover ações judiciais e penais contra os caluniadores e estudará mecanismos para processar a Veja. “Não temo nada do que foi publicado na revista... Estou indignado, porque um bandido me acusa e eu preciso me explicar. Agora, o sentimento é de defesa da honra”.

Métodos criminosos lembram Murdoch

A revolta de Orlando Silva é compreensível. Afinal, a Veja utilizou um sujeito de biografia sinistra, “um bandido”, como fonte para sua “reporcagem”. João Dias Ferreira não apresenta qualquer prova concreta, faz apenas insinuações maldosas. No mínimo, uma revista séria – e não um pasquim partidário dos métodos criminosos do império Murdoch – averiguaria a trajetória da sua fonte.

O noticiário da mídia de meados do ano passado é farto em denúncias sobre as ações criminosas do policial João Dias, que desviou recursos do Programa Segundo Tempo para construir uma mansão e três academias de ginástica. Bastaria ao repórter da Veja ler o que publicou o jornal Correio Braziliense, em 1º de abril de 2010:

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Operação Shaolin prende cinco suspeitos de desviar R$ 2 milhões do Ministério dos Esportes

Por Ary Filgueira e Lilian Tahan

Cinco pessoas estão presas na Divisão Especial de Combate ao Crime Organizado (Deco) suspeitas de participar de desvio de dinheiro repassado pelo Ministério do Esporte. O policial militar João Dias Ferreira, Demis Demétrio Dias de Abreu, Flávio Lima Carmo, Miguel Santos Souza e Eduardo Pereira Tomaz foram detidos às 6h da manhã desta quinta-feira (1º/4) por agentes da Polícia Civil do Distrito Federal, numa operação chamada Shaolin, que tem a participação do Ministério Público do DF.

O grupo, que era liderado pelo PM, falsificou 49 notas frias para retirar o dinheiro repassado pelo Ministério dos Esportes a entidades sociais conveniadas com o Programa Segundo Tempo do Governo Federal. A verba aproximada, ao longo de três anos (2006/07 e 08), foi de R$ 3 milhões. O dinheiro seria destinado a programas sociais, em atividades esportivas para 10 mil atletas carentes de núcleos situados em Sobradinho, mas pouco menos de R$ 1 milhão foi realmente destinado a eles.

O derrame de verba pública saia da Federação Brasiliense de Kung-Fu (Febrak) e da Associação João Dias de Kung-Fu, Esportes e Fitness. Esta última é uma organização não-governamental e leva o nome do soldado da 10ª Companhia de Polícia Militar Independente. Ele é dono de duas academias em Sobradinho: Thisway Fitness e Wellness Ltda., usada para lavar dinheiro desviado, situada no primeiro piso do Sobradinho Shopping.

Além das academias, os agentes cumpriram mandados de busca e apreensão, autorizados pela 3ª Vara Criminal de Brasília, nas residências dos acusados, entre elas, na luxuosa casa onde reside o casal João Dias e Ana Paula Oliveira de Faria, 33, também apontada como integrante da quadrilha. O imóvel do PM fica num condomínio luxuoso de Sobradinho e foi arrestado pela Justiça.

A investigação surgiu em junho de 2008 com o cumprimento de mandado de busca e apreensão no escritório de um dos apontados no esquema: o contador Minguel Santos Souza, 54, situado na 711 Norte. Na ocasião, os policiais localizaram 49 notas fiscais emitidas pelas empresas Infinita e Serviços Gerais Ltda. e JG Comércio de Alimentos Preparados e Serviços Gerais Ltda. administradas por Miguel.

Os documentos foram emitidos em favor da Febrak e da Associação João Dias de Kung-Fu. Elas descreviam a venda de kimonos da luta marcial, jogos de xadrez, dominó, dama, varetas e gêneros alimetícios no valor de R$ 1.999.850,58. Foram apresentadas na prestação de contas ao Ministério dos EsportesApós análise na Seção de Perícias Contábeis do Instituto de Criminalística da Polícia Civil, descobriram que tais notas eram consideradas frias.

Segundo a PCDF, as duas entidades receberam um total de R$ 2.962.998 milhões do convênio com o Programa Segundo Tempo do Ministérios dos Esportes. Destes, o grupo do soldado João Dias é acusado de desviar R$ 1.999.850,58 milhão. Os acusados estão detidos por força de um mandado de prisão temporária com validade de cinco dias. Mas, com o avanço das investigações, pode ser que a pena provisória dobre ou até seja comutada para uma preventiva de 30 dias.


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O uso de mercenários

O uso de fontes desqualificadas já virou moda na mídia nativa – que se acha acima das leis e não teme qualquer represália. No ano passado, o Jornal Nacional serviu-se do ex-presidiário Rubnei Quicoli para caluniar a candidata Dilma Rousseff. Em setembro último, em audiência na 9ª Vara Cível, o mercenário desmentiu as acusações e “pediu desculpas ao PT”. A TV Globo sequer teve a dignidade de se retratar!

Na edição desta semana, Veja usa o mesmo expediente sórdido. Neste caso, ela simplesmente requentou velhas denúncias. Na campanha eleitoral de 2010, o policial João Dias Ferreira fez campanha para a esposa do “ético” Joaquim Roriz, candidata derrotada ao governo do Distrito Federal. O caluniador não é uma pessoa isenta. Tem lado político e virou um opositor feroz do governador Agnelo Queiroz (PT).

Agora, ele ataca o ministro Orlando Silva, até como represália pelo Ministério do Esporte ter suspenso os convênios e exigido a restituição do dinheiro roubado. Dá para confiar numa fonte como esta?

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Deu na Folha de S. Paulo: EUA boicotaram o programa espacial do Brasil.




Telegramas sigilosos divulgados pela Folha revelam pressão americana sobre projeto brasileiro de foguetes. Ações dos EUA, como proibição de venda de tecnologia espacial ao Brasil, atrasaram projetos do país na área.

Telegramas confidenciais do Itamaraty revelam que os EUA promoveram embargo e “abortaram” a venda, por outros países, de tecnologia considerada essencial para o programa espacial brasileiro na década de 1990. Em um dos telegramas, o Itamaraty associou a ação norte-americana a um atraso de quatro anos na produção e lançamento de satélites.

O projeto Folha Transparência divulga em seu site a partir de hoje 101 telegramas confidenciais inéditos da diplomacia brasileira, que tratam dos programas brasileiros espacial e nuclear. A pressão norte-americana sobre o projeto espacial já foi ressaltada por especialistas brasileiros ao longo dos anos, e um telegrama do Wikileaks divulgado em 2010 indica que ela ainda ocorria em 2009. Os documentos agora liberados permitem compreender a origem e o alcance do embargo, assim como a enérgica reação do Brasil.

Em despacho telegráfico de agosto de 1990, o Itamaraty afirmou que a ação norte-americana começara três anos antes, por meio de “embargos de venda de materiais”, impostas pelos países signatários do RCTM (Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis) -um esforço voluntário entre países, de 1987, para coibir o uso de artefatos nucleares em mísseis.

O Itamaraty incluiu o bloqueio dos EUA como um dos motivos para o atraso na entrega do VLS (Veículo Lançador de Satélites), que deveria estar pronto em 1989. O primeiro teste de voo foi em 1997. Além do VLS, o programa espacial previa a construção de quatro satélites, dois para coleta de dados e dois para sensoriamento remoto.
O Brasil só aderiu ao acordo em 1995. Os telegramas revelam que, um ano depois, o diretor do CTA (Centro Técnico Aeroespacial) da Aeronáutica, Reginaldo dos Santos, atual reitor do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), informou ao Itamaraty que os EUA negaram o pedido para importar transmissores para uso em foguetes brasileiros.

O Itamaraty orientou seu embaixador em Washington, Paulo Tarso Flecha de Lima, a manifestar “estranheza e preocupação” ao governo dos EUA. A medida dos EUA só foi revista meses depois.

José Israel Vargas, ministro da Ciência e Tecnologia entre 1992 e 1998, confirmou à Folha as gestões dos EUA para prejudicar o programa espacial brasileiro. “Houve sim pressão americana para qualquer desenvolvimento de foguetes, contra nós e todo mundo (que o fizesse).” Segundo ele, países avançados na área, que ajudavam outros a criar seus programas espaciais, como a França fez com o Brasil, também eram pressionados.

A Embaixada dos EUA em Brasília, quando procurada em agosto pela Folha, não comentou os telegramas do Itamaraty, mas elogiou a divulgação dos documentos.

COMENTÁRIO DO BLOGUE.

É impressionante como a macropolítica estratégica não é discutida nem debatida nos círculos partidários maranhenses. Com raríssimas exceções, no geral, exclui-se da "análise concreta da situação concreta" a questão nacional e, por tabela, o imperialismo! Esses documentos são de dez anos atrás... E hoje? Não estará acontecendo?