quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Roubini, a China e a reserva de mercado.





Por Elias Jabbour*


Fui chamado, virtualmente – e from – Paris, por um dos mais competentes economistas brasileiros da atualidade –, o professor da UERJ, Maurício David. A pauta seria a de um “relatório explosivo” escrito pelo economista Nouriel Roubini sob o título de “Growth Model: The Rising Risk of a Harding Landing After 2013”. Evidente que li e notei que o renomado economista não foge à regra da literatura anglo-saxônica. Como em Romeu e Julieta, o final é trágico.

Novamente, na Ásia, uma bomba atômica está prestes a estourar. E mais precisamente na China. Os signos deste arsenal atômico são vários: “altas taxas de investimentos”, “pouca participação do consumo na formação geral da demanda”, “estatais ineficientes”, “artificialização do mercado de terras”, “câmbio ultradesvalorizado”, “dívida pública na beira da irresponsabilidade”, “sistema financeiro na beira do precipício”, "um país administrado e subsumido a 'interesses provinciais mesquinhos”'. Talvez fosse melhor se os governadores provinciais e prefeitos não passassem de meros síndicos ocupados em tapar buracos nas estradas em detrimento de serem, de fato o que são, agentes locais do desenvolvimento econômico.

Evidente que devemos reconhecer que as preocupações de Roubini são plausíveis, afinal o mundo espera é da China, e não da Europa e dos Estados Unidos, uma resposta para a crise financeira. Normal. A coincidência é que as preocupações do Roubini são as mesmas do governo chinês. O problema da análise não se encontra no diagnóstico das contradições e sim na ênfase em determinados desequilibrios macro e microecononômicos e em velhas soluções de aporte empírico no mínimo duvidável. Por exemplo, apontar a solução dos imensos problemas da economia chinesa, notadamente da alta taxa de poupança e investimentos, apontando na direção da apreciação da taxa de câmbio e da privatização de estatais é algo no mínimo discutível. Onde isso deu certo? O nosso Nouriel não responde. Ideologia pura.

Não aponta que a solução por mais centralização e concentração do capital já está em curso há muito tempo na China sob a forma de uma imensa operação de fusões e aquisições no âmbito estatal nos últimos quinze anos e que desembocou na formação de 149 conglomerados estatais. Não aponta também que enquanto Krugman lamentava as características do “modelo asiático” (e comemorando o fato de o sistema financeiro coreano estar sendo tomado de assalto pelo FMI), esse processo de reestruturação produtiva sob os auspícios de um sistema financeiro estatal, logo imune a maldição da “preferência pela liquidez”, sustentava (e sustenta) um esforço que deixou o país quase imune às crises de 1997 e a atual. Seus cálculos microeconômicos sobre o retorno dos investimentos em infraestrutura são muito insuficientes, ainda mais quando se quer comparar uma realidade continental como a da China com países como a Islândia, Irlanda e levar à sério demais o caráter non tradable dos investimentos em infraestruturas para justificar, para tristeza de John Maynard Keynes, a pequena relação entre investimento e renda na China.

Ele diz que a questão é a transformação do modelo baseado em investimentos-exportações para outro baseado num maior consumo (transferência de rendimentos do capital para o trabalho). Ótimo e ele não descobriu a roda como muitos acham. Bastaria ler algumas páginas do seminal Business Cycles de Schumpeter para perceber. E isso (mudança de “modelo”), será que não está sendo encaminhada? Que economia (planificada ou não) nunca passou por problemas de sobre-investimentos? Ou ele não conhece (certamente conhece) o processo norte-americano de acumulação que se de um lado tornou a crise de 1929 plausível (pelo "sobre-investimento)", por outro este mesmo sobre-investimento foi essencial para enfrentar o pós-1929. Em Economia Política, determinadas escolhas tem de ser historicizadas, ou seja, se este modelo baseado na relação produtividade-câmbio está se esgotando, o importante é saber que esse modelo foi essencial para China e no fulcro dele está a solução que por sua vez é determinada pela política. Gorbachev ficaria apavorado diante de um relatório deste, não tenho dúvidas. Para os chineses, orientais que são, a contradição e os limites das coisas são parte essencial do processo e não uma aberração sem determinação histórica.

A economia e a sociedade chinesa são eivadas de problemas e o "modelo" está em passo de esgotamento. Disso eu não tenho dúvidas e já escrevi sobre isso algumas vezes. Agora propor soluções tipo "mais do mesmo" não levará a discussão a canto nenhum. A liberalização cambial virá a seu tempo: nos últimos anos a moeda chinesa valorizou mais de 20% com relação ao dólar. Talvez esta valorização não esteja em concordância com as vontades e desejos do governo norte-americano e do próprio Roubini. Os chineses conhecem como poucos o que significa um tal instituto chamado de “reserva de mercado”. Aprenderam isso com os mercantilistas que tiraram Macau de seu controle na metade do século XVI...


* Doutor e Mestre em Geografia Humana pela FFLCH-USP, autor de “China: infra-estruturas e crescimento econômico” e pesquisador da Fundação Maurício Grabois.


terça-feira, 16 de agosto de 2011

As criaturas da crise.







Por Luiz Gonzaga Belluzzo


Tem razão o economista Heiner Flassbeck: o âmago da crise que ora nos aflige está nos sistemas financeiros –bancos, quase-bancos e mercados de títulos, criaturas nascidas do matrimônio entre governos frouxos e “inovadores” incontroláveis.

Tangidos pelas normas da concorrência sem peias e, portanto, envolvidos na perseguição de resultados acima da média, os bancos e assemelhados- entregaram–se a um esporte de alta periculosidade. Lançaram-se- à aventura da superalavancagem e cultivaram a ilusão da diversificação de riscos, enquanto praticavam exatamente o contrário do que afirmava a teoria dos mercados eficientes: a disseminação dos ativos de mesma “origem”, todos de precificação enigmática.

A despeito de suas verdades e de sua força simbólica, a palavra “financeirização” diz menos do que estaria obrigada a revelar. Comprada pelo valor de face, a expressão obscurece a compreensão das leis de movimento do sistema econômico e social que hoje estrebucha sob o olhar desconfiado dos que promoveram sua derrocada. Assim, quase sempre são obscurecidas as conexões entre os desenvolvimentos da finança contemporânea e a globalização do capital produtivo. As relações entre esses fenômenos determinaram a rápida acumulação de capacidade produtiva nos emergentes asiáticos e a farra financeira nos submergentes do Primeiro Mundo. Esse “arranjo” engendrou na área desenvolvida a criação de empregos de baixa qualidade, a queda dos rendimentos da massa assalariada e o avanço assustador da desigualdade. Não faltou à festança a deterioração persistente da receita pública, matriz dos déficits fiscais produzidos por regimes tributários cada vez mais regressivos. Com tais ingredientes, o receituário dito neoliberal preparou a gororoba do “excesso” de endividamento público e privado.

A crise deflagrada em 2007 mostra de forma cabal a natureza e as consequências das reformas financeiras, fiscais e trabalhistas do início dos anos 1980 promovidas pela mão visível do Estado. Elas trataram de remover os controles que pretendiam impedir a subordinação das decisões de gasto geradoras de empregos, renda, lucros e impostos às avaliações diárias e voláteis do estoque de riqueza produzida.

As ditas reformas aceleraram as mudanças na composição e repartição da riqueza social, acentuaram as assimetrias entre o crescimento de países e regiões e aprofundaram as desigualdades na distribuição da renda entre as classes sociais.

Nesse ambiente, sucederam-se os episódios de “inflação de ativos” acompanhados da persistente fuga do capital manufatureiro para regiões de menor custo de mão de obra. Não espanta que, ao longo dos ciclos de prosperidade, fossem intensos os surtos de eliminação dos melhores postos de trabalho nas economias centrais. A desregulamentação e as novas regras fiscais montaram uma usina de desigualdades e uma fábrica de instabilidades.

É tolice, senão esperteza, buscar os “culpados” pelo desfecho desastroso das políticas adotadas a partir da “estagflação” dos anos 1970. Os slogans que proclamavam “mais mercado e menos Estado” não são menos ridículos do que a aceitação dessa falsa dicotomia por quem deveriam criticá-la. O jogo entre o Estado e os mercados cuida, com especial carinho, das relações entre as classes sociais, ou seja, das formas e condições de apropriação da riqueza e da renda entre os protagonistas antagônicos do processo de criação de valor. No capitalismo realmente existente, não há “espontaneidade” ou “naturalidade” nas normas que regem a acumulação de riqueza monetária e abstrata, obtida mediante a produção de novos valores (mercadorias) e o rastro de direitos representativos da propriedade e das relações débito-crédito.

O desenvolvimento da crise demonstra que a eficácia dos instrumentos de “intervenção” do Estado, leia-se, a carga tributária, os níveis de gasto e de endividamento do governo, estão submetidos à preservação do poder privado de acumular riqueza social. A “confiança” dos controladores privados do crédito é decisiva para conferir força e legitimidade à política fiscal e de endividamento público.

Se o desequilíbrio fiscal e o crescimento do débito público na composição dos patrimônios privados tornarem-se, na visão dos mercados, fenômenos profundos e duradouros, a desconfiança dos possuidores de riqueza se desloca das desgraças da finança privada para a situação financeira do Estado. Neste momento, os senhores do universo, salvos pela vigorosa intervenção do Estado, já consideram insustentáveis a trajetória das dívidas privadas e públicas, passivos que criaram generosamente na etapa da euforia inconsequente. O estoque de liquidez injetada nas reservas bancárias para adquirir a massa de ativos privados podres se recusa a produzir os novos fluxos de crédito para governos, empresas e famílias. A isso Keynes chamou de “armadilha da liquidez”, o predomínio absoluto do estoque de riqueza monetária e abstrata sobre o impulso a produzir novo valor, criando renda e emprego.

sábado, 13 de agosto de 2011

O anti-Celso Lafer.






Por Mauricio Dias


 
O novo ministro da Defesa jamais diria "o que é bom para os EUA é bom para o Brasil".

Já é possível traçar um retrato do novo ministro da Defesa, Celso Amorim, ainda que seja um ministro jovem no cargo. Jovem de poucos dias.

Na Defesa, Amorim ganhou muito mais visibilidade do que tinha nos longos anos que comandou o Itamaraty.

Funções distintas, ações distintas. Mas Amorim não retocou a forma de agir. Firme, sem ser rude, objetivo, embora diplomático, exercitou agora essas virtudes sob o fogo das críticas mais estapafúrdias. Chegaram mesmo a plantar notícias de reações nos quartéis, inventadas, em geral, por oficiais de pijama. Daqueles que reagem ao perceber que a grama já cresce à porta da casa deles.

Amorim tem mesmo vários pontos que desagradam ao establishment nacional e internacional. Isso ficou claro com o foco das perguntas ao longo das entrevistas que concedeu. Isso é atacado por argumentos tacanhos e genéricos, por se tratar de ideologia. Posições políticas contrárias às de Amorim não são ideológicas? Existiria no mundo alguém que comentasse qualquer coisa a partir de uma visão não ideológica?

Foram resgatar, por exemplo, artigos escritos por ele em CartaCapital, onde ele teria exercitado “ideias mais à esquerda”.

Nesse período, exerceu o papel de um articulista livre, sem compromissos. Isto é, sem as amarras das funções públicas e, assim, apresentou discordância com a decisão do governo Dilma de apoiar a resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU, que instituiu um relator especial para o Irã.

Amorim, já fora do cargo e em conversas informais, explicou que era uma discordância pontual, reafirmou apoio ao chanceler Antonio Patriota e pontuou também que os dois trabalharam juntos por 15 anos. Isso gerou uma relação de absoluta confiança.

O chanceler Amorim jamais tiraria os sapatos no aeroporto Kennedy, em Nova York, por exigência do protocolo imperial da segurança norte-americana. Um ritual humilhante obedecido, por exemplo, pelo ex-chanceler tucano Celso Lafer.

Em artigo escrito para CartaCapital, embora tenha atacado o preconceito ocidental contra os países islâmicos, que, segundo ele, levou à execução de Saddam Hussein, no Iraque, ressalvou: “Não sejamos inocentes. Interesses econômicos e políticos motivaram a decisão de atacar o Iraque”.

Amorim é o anti-Lafer.

Como ministro da Defesa, Celso Amorim também desarmou várias armadilhas contidas nas perguntas que respondeu ao longo das últimas entrevistas. Uma das indagações transmitia o sentimento contra a presença de um diplomata à frente da função recém-assumida. Teria sido formulada por “um oficial”, conforme foi relatado pela repórter porta-voz: “E se fosse um general mandando no Itamaraty?”

“Já houve ministro militar: Juracy Magalhães”, respondeu Amorim.

Ele pôs o ponto final da resposta no momento certo. Diplomaticamente. Poderia, no entanto, ter exposto o verdadeiro caráter da pergunta do oficial guarnecido pelo anonimato. A razão de Amorim talvez esteja no contexto político em que Juracy atuou. General da reserva, ele foi chanceler do também general Castelo Branco, primeiro presidente da ditadura. Foi então que formulou o lema inscrito hoje na bandeira do servilismo: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”.

Amorim é o anti-Juracy.


Fonte: CartaCapital


quarta-feira, 10 de agosto de 2011

VEREADOR DR. FERNANDO LIMA PROPÕE VISITAS AS ESCOLAS ABANDONADAS PELA PREFEITURA.




Na manhã desta quarta-feira (10), o vereador Dr. Fernando Lima (PCdoB), demonstrou sua indignação com a situação de abandono das escolas públicas municipais localizadas nos bairros: Bequimão e Cidade Operária, conforme apresenta a matéria do jornal “O Estado do Maranhão”. O parlamentar afirma que, as obras esquecidas pela gestão do prefeito João Castelo, não se restringem apenas aos dois bairros citados na matéria, afeta também outras comunidades, que se encontram na mesma situação, é o caso dos bairros: São Raimundo, Santa Bárbara e Santa Clara, segundo levantamento realizado pelo parlamentar.

“Lamentável ver a educação ser tratada dessa maneira. São anos e anos de abandono, o pior é que a única serventia das obras inacabadas é refugiar marginais, quando na verdade os estudantes da comunidade deveriam estar usufruindo do espaço do conhecimento. Por isso, proponho como presidente da Comissão de Educação da Câmara Municipal de São Luís, uma visita às unidades de ensino públicas municipais, que estão caducando, ao invés de ensinando”.

Após a apresentação do relatório das visitas técnicas do Socorrão I e II que acontece na próxima segunda (15), o vereador Dr. Fernando Lima, deve sentar com os membros da Comissão de Educação e agendar a data para iniciar as visitas.

domingo, 7 de agosto de 2011

Líderes e gestos.





Gandhi foi detonador do movimento pela independência da Índia da colonização britânica. Em 1930, após uma marcha rumo ao litoral com uma multidão, ele tomou um punhado de sal para simbolizar a rebeldia pacífica contra as imposições da metrópole de monopolizar a produção e comércio de sal, no que foi seguido pela multidão. Menos de 20 anos depois, a Índia alcançava a independência.

Intuitivamente, Getúlio Vargas mandou queimar milhões de toneladas de café ensacado, na década de 30 do século 20 para manter os preços do produto no mercado externo. Era um gesto defensivo da nação contra os efeitos daquela que foi a segunda grande crise histórica do regime capitalista, detonada em 1929. O que se seguiu é conhecido: menos de 30 anos depois, o Brasil sob a liderança de Vargas e das forças nacional-desenvolvimentistas conservadoras dera passos impressionantes em termos do desenvolvimento brasileiro. Rossevelt, que tirou os EUA da crise com o New Deal, em 1942 declarou, em viagem ao Brasil, que os “pais do New Deal” foram dois: Vargas e ele próprio. Referia-se àquele gesto inaugural do presidente do Brasil.

Lula na segunda presidência não hesitou no gesto marcante na crise deflagrada com a falência do Lehmann Brothers em setembro de 2008. Em pronunciamento à nação, na TV, instou os brasileiros a manter a confiança, consumir e sustentar o mercado interno como fator de manter aquecida a economia. Sua confiança foi atendida e o Brasil enfrentou melhor, como pouquíssimos outros países, a crise que se prolonga já por três anos.

Gestos assim são para estadistas, grandes líderes políticos.

É o que a nação necessita neste momento em que a crise econômica e financeira sistêmica capitalista entra em agudização, com o duplo mergulho recessivo nos EUA e Europa. A crise é também risco para a economia brasileira; mas igualmente é oportunidade para romper outros elos de dependência em defesa da afirmação nacional. O Brasil pode e deve “fugir para a frente”. É possível empolgar as forças vivas da nação no rumo de um projeto nacional afirmativo, de desenvolvimento democrático e de caráter popular.

Qual o gesto de Dilma? O país precisa de líderes que deflagrem consciências, motivações, clareza e reunião de forças. Nestas horas, é preciso liderar, isso é o que cabe a Dilma Rousseff.

Publicado por waltersorrentino em 06/08/2011

sábado, 6 de agosto de 2011

Homenagem de Neruda ao Partido Comunista do Brasil.

Por Pablo Neruda *



Quantas coisas quisera hoje dizer, brasileiros,

quantas histórias, lutas, desenganos, vitórias,

que levei anos e anos no coração para dizer-vos, pensamentos

e saudações. Saudações das neves andinas,

saudações do Oceano Pacífico, palavras que me disseram

ao passar os operários, os mineiros, os pedreiros, todos

os povoadores de minha pátria longínqua.

Que me disse a neve, a nuvem, a bandeira?

Que segredo me disse o marinheiro?

Que me disse a menina pequenina dando-me espigas?



Uma mensagem tinham. Era: Cumprimenta Prestes.

Procura-o, me diziam, na selva ou no rio.

Aparta suas prisões, procura sua cela, chama.

E se não te deixam falar-lhe, olha-o até cansar-te

e nos conta amanhã o que viste.


 
Hoje estou orgulhoso de vê-lo rodeado

por um mar de corações vitoriosos.

Vou dizer ao Chile: Eu o saudei na viração

das bandeiras livres de seu povo.


 
Me lembro em Paris, há alguns anos, uma noite

falei à multidão, fui pedir auxílio

para a Espanha Republicana, para o povo em sua luta.

A Espanha estava cheia de ruínas e de glória.

Os franceses ouviam o meu apelo em silêncio.

Pedi-lhes ajuda em nome de tudo o que existe

e lhes disse: Os novos heróis, os que na Espanha lutam, morrem,

Modesto, Líster, Pasionaria, Lorca,

são filhos dos heróis da América, são irmãos

de Bolívar, de O' Higgins, de San Martín, de Prestes.

E quando disse o nome de Prestes foi como um rumor imenso.

no ar da França: Paris o saudava.

Velhos operários de olhos úmidos

olhavam para o futuro do Brasil e para a Espanha.



Vou contar-vos outra pequena história.


Junto às grandes minas de carvão, que avançam sob o mar,

no Chile, no frio porto de Talcahuano,

chegou uma vez, faz tempos, um cargueiro soviético.



(O Chile não mantinha ainda relações

com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Por isso a polícia estúpida

proibiu que os marinheiros russos descessem,

e que os chilenos subissem).

Quando a noite chegou

vieram aos milhares os mineiros, das grandes minas,

homens, mulheres, meninos, e das colinas,

com suas pequenas lâmpadas mineiras,

a noite toda fizeram sinais, acendendo e apagando,

para o navio que vinha dos portos soviéticos.


Aquela noite escura teve estrelas:

as estrelas humanas, as lâmpadas do povo.

Também hoje, de todos os rincões

da nossa América, do México livre, do Peru sedento,

de Cuba, da Argentina populosa,

do Uruguai, refúgio de irmãos asilados,

o povo te saúda, Prestes, com suas pequenas lâmpadas

em que brilham as altas esperanças do homem.

Por isso me mandaram, pelo vento da América,

para que te olhasse e logo lhes contasse

como eras, que dizia o seu capitão calado

por tantos anos duros de solidão e sombra.



Vou dizer-lhe que não guardas ódio.

Que só desejas que a tua pátria viva.

E que a liberdade cresça no fundo do Brasil como árvore eterna.


Eu quisera contar-te, Brasil, muitas coisas caladas,

carregadas por estes anos entre a pele e a alma,

sangue, dores, triunfos, o que devem se dizer

o poeta e o povo: fica para outra vez, um dia.


Peço hoje um grande silêncio de vulcões e rios.

Um grande silêncio peço de terras e varões.

Peço silêncio à América da neve ao pampa.

Silêncio: com a palavra o Capitão do Povo.

Silêncio: que o Brasil falará por sua boca.



Poema lido por Pablo Neruda no Comício do Partido Comunista do Brasil em julho de 1945 no estádio do Pacaembu, em São Paulo. Retirado do livro “Canto Geral” (1950), 5ª edição brasileira, São Paulo, Difel, 1982.