segunda-feira, 11 de julho de 2011

A lógica da miséria política.




Comentei em artigo anterior que a mãe de todas as misérias maranhenses era a  "miséria política". Tal miséria tem origem e é alimentada pelas elites dominantes do nosso estado, reafirmando seu status quo e definindo, no jogo da mediocridade programática, a pauta rasteira do debate político. Essa miséria não é exclusividade das oligarquias decadentes, mas também dos setores da oposição e neo-esquerdistas do nosso estado, que compartilham essa mesma lógica que alimenta a nossa miséria política.

Defini essa lógica miserável como sendo aquela que enxerga todos os fatos políticos do mundo como sendo resultado de uma dicotomia entre sarneístas e anti-sarneístas, ficando excluída qualquer outra possibilidade de ação política. É o famoso princípio aristotélico do terceiro excluído rebaixado à condição de pensamento político da província maranhense.

Entretanto, tal qual o princípio do estagirita, essa exclusão não passa de uma negação formal, abstrata, que não se diferencia daquilo que quer negar, pelo contrário, se iguala, uma vez que basta estar do outro lado para ser verdadeiro, sem, no entanto, ter diferença do conteúdo falso que se quer opor. Ou, dito de outra maneira, ao dividir o mundo entre pró e contra Sarney, a pseudo-oposição o favorece, pois universaliza uma lógica onde o oligarca-mor é sempre referência, tornando-se condição sine qua non para o valor de verdade dos discursos.

Pois bem. A entrevista na qual Flávio Dino citou de passagem o senador José Sarney foi o suficiente para transbordar dos esgotos a miséria política maranhense. É a prova inconteste de como essa lógica política oligárquica e provinciana fornece os elementos para análises de setores da situação, cooptados pela oligarquia e de neo-esquerdistas de plantão.
 
Senão vejamos.

A indicação de Flávio Dino está na cota nacional do PCdoB. Não passou nem de longe pelo Maranhão. Foi uma indicação nacional. Embora com enorme resistência por parte do PT, uma vez que seu aliado preferencial é o PMDB, os comunistas conseguiram ampliar seu pequeno espaço no governo Dilma, mantendo o Ministro dos Esportes e agora a presidência da Embratur (não cito a Agência Nacional do Petróleo, ANP, cujo presidente é comunista, pelo fato de que essas indicações devem ser aprovadas pelo senado, não dependendo, exclusivamente, do chefe do executivo).

José Sarney (PMDB), ao saber que o indicado pelo PCdoB era Flávio Dino, seu principal oponente no Maranhão, utilizou-se do que mais sabe fazer: chantagear os petistas e mobilizar forças para impedir a nomeação do seu adversário. O intuito do velho oligarca era criar um 'círculo de fogo' para deixar o comunista sem expressão e reforçar o mito de que só ele indica cargos federais no Maranhão.  Mas a direção nacional do PCdoB não abriu mão da indicação, manteve o nome do Flávio Dino e alertou o vacilante governo Dilma sobre os riscos de se deixar conduzir pela "pequena política provinciana" na definição dos interesses nacionais. Por fim, e contra as artimanhas de Sarney e do PMDB, o PCdoB emplacou o nome do Flávio Dino na presidência da Embratur. Esses são os fatos vivenciados por quem tratou das questões em tempo real.

Mas como no Maranhão a lógica oligárquica trata de distorcer a realidade para adequá-la aos interesses dos grupos locais, a derrota de Sarney foi transformada em "vitória" tanto pelos fâmulos da oligarquia, quanto por aqueles que juram combatê-la.

Primeiro foi o desdém pela indicação. Teve pseudo-jornalista que disse que "ninguém queria a estatal". Depois, como é de costume nos meios de comunicação oligárquicos, "a indicação só deu certo porque Sarney permitiu"... Mais tarde vieram as teorias conspiratórias dos neo-esquerdistas "Sarney e Flávio Dino fizeram um acordo para as eleições de 2012 e 2014"... E, por fim, teve petista querendo justificar sua anterior venda de votos com a sentença "por que só Flávio Dino pode e nós não?". Como se vê, a lógica oligárquica está disseminada por amplos setores da política maranhense, da direita à esquerda.

Quanto aos empregados e bajuladores de Sarney não há nada a dizer, apenas cumprem com seu ofício. Mas aos neo-esquerdistas de plantão e aos vendilhões de votos e de consciências, cabe desmascará-los como oportunistas, uma vez que suas frases exigindo "coerência" e "oposição" de  Flávio Dino  só serve para tentar esconder, bem ao estilo da nossa miséria política, seus passados recentes.

O caso do petista José Inácio é simples: precisa ficar bem com seus novos patrões na busca de benesses. Já os neo-esquerdistas - da estirpe de Haroldo Sabóia (PSOL) e seus apaniguados - querem que esqueçamos que na última eleição para prefeito de São Luís apoiaram o "revolucionário" João Castelo (PSDB). Temos, portanto, os dois lados de uma mesma moeda.

Chama atenção que ambos têm o mesmo discurso: desacreditar a única opção democrática, progressista e de esquerda viável para derrotar o sarneísmo, o nome de Flávio Dino!

Que fique bem claro que não respondo suas mentiras, devaneios e ilusões. Vivemos em uma democracia e cada um escreve o que quer. O que me interessa é a própria condição que torna possível a identidade do conteúdo dos seus discursos. Quero explicitar a lógica subjacente que unifica direitistas, oportunistas e neo-esquerdistas num mesmo pântano de representações, prendendo num círculo vicioso a análise da realidade do nosso estado, ajudando a perpetuar a nossa miséria política, a mãe de todas as misérias maranhenses.

2 comentários:

  1. Capovilla, acredito que essa miséria política não é só privilegio dos citados, mas está no seio do movimento de esquerda, não obstante só no maranhão como no mundo inteiro. Hoje o Maranhão é um reflexo da realidade brasileira, sem espaço de dúvida, onde esse maldito governo petista humilha as dignidades de trabalho das pessoas, assassina as esperanças dos jovens. Comete um crime histórico de concentração de renda e regalias. Não vejo com bons olhos o futuro do Maranhão como do Brasil, com Sarney e sem Sarney, o Brasil está num desfiladeiro sem fundo. O camarada Flávio Dino é de notória competência, mas acho bem difícil dar jeito no Maranhão... Abraços

    ResponderExcluir
  2. Caro Roberto.

    Calma, as coisas não estão tão perdidas assim. Estamos em crise e na defensiva, mas, acredite, já estiveram piores.

    Vamos tentar evoluir o pensamento da esquerda maranhense que, dentro da esquerda brasileira, é a de pior qualidade, na minha humilde opinião!

    Obrigado pelo comentáruio.

    Saudações

    ResponderExcluir

Seu comentário será publicado após moderação.