segunda-feira, 28 de novembro de 2011

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Quem são os herdeiros de 1922?


Por Augusto C. Buonicore *

Devo dizer que me espantei com uma Nota Política do PCB de 25 de outubro de 2011. A própria linguagem a desqualifica, mas é seu conteúdo que choca pela agressão que realiza contra a honra e a memória de parte importante do movimento comunista brasileiro e, ainda, por se prestar ao papel de linha auxiliar da reação que há uma quinzena realiza uma verdadeira caçada reacionária ao Partido Comunista do Brasil, PCdoB. Esta “Nota”, por sinal, não tem a cara de alguns de seus valorosos militantes, que conheço e respeito.

O referido texto começa com um parágrafo lapidar: “Se nosso Partido fosse legalista, poderíamos reclamar no Procon, no TSE, na justiça comum, contra a tentativa de sequestro da história do PCB: propaganda enganosa, falsidade ideológica, estelionato político, apropriação indébita”. Assinalamos que o texto já começa com um linguajar de “briga de salão”, que não é adequado a uma discussão teórica e política séria. O fundo da questão é que o atual PCB se considera o verdadeiro e único Partido Comunista do Brasil, fundado em 25 de março de 1922. Assim, ninguém mais poderia reivindicar esta herança. A pena para tal crime seria o achincalhe público e a desqualificação moral. Tese e prática com a qual não concordamos.

O alvo central das críticas – e da pretensão – dos neopecebistas é o PC do Brasil (PCdoB). Afirmam: “Todas as pessoas razoavelmente informadas, todos os intelectuais, historiadores, militantes políticos e sociais sabem que o PCdoB foi fundado em 1962, por uma insignificante minoria do Comitê Central do PCB, após ser fragorosamente derrotada no V Congresso do nosso Partido”.

De fato, grande parte das pessoas acredita que o PCdoB foi fundado em 1962. Contudo, também, não deixa de ser verdade que as “pessoas razoavelmente informadas”, tem a convicção de que o atual PCB foi fundado em 1992, depois que uma “insignificante minoria” – ainda menor do que aquela que “reorganizou” o PCdoB – foi sucessivamente derrotada nos últimos congressos do antigo PCB. Todos sabem que, para o bem ou para o mal, não existe nada mais diferente do velho PCB que o atual PCB.

Pergunto: se o PCdoB foi criado em 1962 e o atual PCB o foi em 1992, qual, então, seria o legítimo herdeiro de 1922? Os “especialistas”, talvez, respondesse “ninguém” e iria rir gostosamente desta discussão um tanto bizantina.

Estranhamente tentando reconstruir a história do seu ponto de vista, o neoPCB acabou distorcendo-a, ajudando a aumentar a confusão que ele se propõe esclarecer. A nota diz que apenas recentemente PCdoB se arvorou como herdeiro do antigo PCB. “Esta tática – de renegar hoje sua própria trajetória para tentar se apropriar da história que rejeitaram em 1962 – vem sendo aplicada em razão de uma realidade que os dirigentes desse partido nunca imaginaram possível: a reconstrução revolucionária do PCB”. Por isso, “precisam fingir que são o PCB, fundado em 1922, confundindo a opinião pública”. E conclui: “Se o verdadeiro comunista João Amazonas estivesse vivo ficaria envergonhado de assistir à manipulação de sua própria história”.

Todas as pessoas “razoavelmente informadas” sabem que essas afirmações não são verdadeiras, parecem saídas de alguém que não conhece minimamente a história do PCdoB e do próprio PCB. Leigos na rica história da esquerda brasileira.

Quando o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) começou a se reivindicar herdeiro de 1922? Será que foi durante o governo Lula ou devido à autointitulada “reconstrução revolucionária” do neoPCB, como afirmam? É obvio que não. Este debate surgiu logo no início da década de 1960 e foi uma das razões centrais para o racha dos comunistas brasileiros. Vamos aos fatos:

Quando em agosto de 1961, a direção do P C do Brasil (então PCB) decidiu apresentar um novo Estatuto e Programa ao Tribunal Superior Eleitoral, mudando o nome da organização para Partido Comunista Brasileiro e tirando as referências ao internacionalismo e ao comunismo, um grupo de expressivos militantes protestou e, numa carta, exigiu a convocação de um novo congresso para deliberar sobre aquelas mudanças. Ao serem expulsos, convocaram o que chamaram de V Conferência Nacional extraordinária com o objetivo de reorganizar o antigo Partido Comunista do Brasil, mantendo o nome e o Estatuto.

Os delegados reunidos ali reivindicaram para si – e para o Partido Comunista do Brasil reorganizado – a continuidade do antigo Partido e não o rejeitaram como diz o texto desinformado do atual PCB. Foi exatamente neste momento que o nosso país passou a ter dois partidos comunistas, reivindicando o mesmo passado, a mesma herança.

Só este estupendo desconhecimento da nossa história comum, beirando mesmo à má-fé, justificaria a afirmação que o verdadeiro comunista João Amazonas ficaria chocado se soubesse que o PCdoB estava reivindicando a história do PCB, antes de 1962. Existem dezenas de artigos nos quais Amazonas reivindica essa continuidade histórica, destaco apenas o documento 50 anos de Luta (1972) (e não dez anos), escrito em plena selva do Araguaia, em parceria com outro grande comunista, Maurício Grabois. Se estavam errados é outro problema, mas ninguém pode tirar-lhes o sagrado direito de reivindicar a herança, especialmente os neopecebistas.

Atualmente, seria perfeitamente defensável afirmarmos que a frondosa árvore nascida em 25 de março de 1922 deu vários galhos e frutos – uns morreram pelo caminho, outros cresceram e se desenvolveram, e um deles pelo menos, o PCdoB, se transformou num partido comunista que não para de crescer, com uma massa de militantes e com influência política e social. Um partido revolucionário e contemporâneo, fiel a sua identidade e aos seus princípios. Outros não tiveram a mesma sorte. Entre os galhos e frutos desta árvore estão Luís Carlos Prestes, João Amazonas, Carlos Marighella, Mário Alves, Maurício Grabois, Mário Alves, Pedro Pomar, Joaquim Câmara Ferreira, Gregório Bezerra, David Capistrano, Nestor Veras etc. Uma lista infindável.

Penso que, aos poucos, vamos superando a falsa ideia de que só poderia haver um único partido comunista em cada país. O restante, portanto, seriam necessariamente forças políticas pequeno-burguesas ou burguesas, adversários (ou inimigos) a serem derrotados. Tese que levava a um eterno processo de exclusões e anátemas, que prejudicavam a unidade das forças mais avançadas da sociedade. Ressuscitar este velho espírito em pleno século XXI é prestar um grande desserviço à causa dos trabalhadores e do socialismo.

Calúnias sob o manto de debate programático

Para o neoPCB um partido só é verdadeiramente comunista se não participar de governos, não tiver expressão política de massas e for uma organização exclusivamente de quadros, preferencialmente uma seita de puros. Nada mais avesso às concepções marxistas e leninistas de partido. Transportam modelos de partidos feitos para atuar na clandestinidade para momentos históricos marcados pela existência de uma democracia ampliada, ainda que burguesa.

O atual PCB entra inclusive no mérito do programa de TV do PC do B. Critica-o por exibir “um programa eleitoral voltado para as eleições de 2012!”. Continua a acusação: “com efeitos especiais, exibiram cinco atuais parlamentares que já estão em campanha para prefeituras, uma manobra comum a todos os partidos eleitoreiros”. Assim, continua ele, “ganham de qualquer forma. Vencendo as eleições, se tornam prefeitos. Se as perdem, antecipam em dois anos a campanha para sua reeleição ao parlamento”.

Para os neocomunistas passou a ser crime projetar lideranças, através do seu espaço na TV, um ano antes da campanha eleitoral. Pela nova cartilha estaria proibido aos deputados e senadores comunistas se lançarem candidatos às prefeituras de suas cidades e, especialmente, conseguirem ser eleitos. Os políticos de direita, que se utilizam diariamente da grande mídia, gostariam que a esquerda seguisse estes conselhos extremamente revolucionários. Somente uma seita sectária – sem nenhuma expressão política e social – seria capaz de propor algo deste tipo.

Continua a crítica dos neocomunistas: “Em 10 minutos de programa, não houve menção alguma ao imperialismo e ao capitalismo. Parece que, para esse partido, nem o imperialismo está inventando guerras contra os povos nem os trabalhadores do mundo estão lutando contra as retiradas de seus direitos, em meio à crise sistêmica do capitalismo”. Eles reduzem seu campo de visão aos 10 míseros minutos do programa de TV, no qual o PCdoB teve que, excepcionalmente, passar a maior parte do tempo se defendendo de ataques da direita.

Parece que eles não viram nenhum dos programas anteriores, não leram a imprensa do PCdoB, as resoluções de seus congressos ou seu programa socialista. Não acompanharam – nem acompanham – as lutas travadas pelas entidades nas quais os comunistas (do B) têm alguma influência. Se tivessem feito isso, teriam uma visão muito diferente e mais próxima da realidade. Não é sem motivo que é uma dirigente do PCdoB, Socorro Gomes, a atual presidente do Conselho Mundial da Paz e a primeira reunião dos Partidos Comunistas em nosso continente tenha sido no Brasil, tendo o PCdoB como anfitrião. Sinal de reconhecimento do seu papel na luta anti-imperialista por parte dos demais partidos operários e comunistas. Isso não é pouco.

Por fim, cabe nos referir à parte mais deplorável do documento – engrossando o coro da mídia burguesa contra o PCdoB. Afinal, esta tem sido a prática histórica de certas correntes esquerdistas no Brasil e no mundo. O texto começa de uma maneira um tanto malandra: “Aliás, por falar em dinheiro público, o PCB, na crítica política e ideológica que faz ao PCdoB, não centrará suas divergências nas recentes denúncias contra o Ministro dos Esportes. Ficamos com o benefício da dúvida, aguardando os desdobramentos do caso e a apuração das denúncias”.

Passa então a descrever detalhadamente as acusações contra o referido ministério, todas plantadas pela mídia conservadora, e chega mesmo a supor que estas denúncias seriam “a principal motivação da candidatura do deputado Aldo Rabelo a Ministro do TCU”. E, contrariando o nobre direito da dúvida, anunciado anteriormente, afirmou, sentenciando: “Independente dos resultados da apuração das denúncias (sic), um fato já é cristalino: integrado ao sistema, o PCdoB, durante os nove anos em que dirige o Ministério dos Esportes e outros espaços de poder, se enredou na promiscuidade com esquemas, públicos e privados, e com delinquentes”. Fala, inclusive, que o PCdoB teria “voracidade por recursos não contabilizados”. Conclui, sem medo do ridículo: “Mas, como dissemos, nossa discussão é no campo político, na tática e na estratégia que devem adotar os que se reivindicam comunistas”. Aqui, num passe de mágica, calúnia sem prova virou crítica política e ideológica. Para o atual PCB o fato já é cristalino, não precisa de apuração, que passa ser uma formalidade jurídica. Os “neocomunistas” adotam as calúnias da revista Veja, e com base nelas fazem coro com o campo político mais reacionário do país.

Concluo com uma frase lapidar daquele documento que se diz comunista: “só é abatido na luta pelo poder no Estado burguês quem tem telhado de vidro”. Que o digam os parlamentares comunistas cassados em 1948, Jango e Allende, abatidos por um golpe militar. Apesar do desejo da direita e dos setores a ela aliados, o PCdoB não foi e nem será abatido tão facilmente, pois além de não ter telhado de vidro, possui história, grandes amigos e uma militância aguerrida que o fez transpor situações muito mais difíceis.

* Historiador e secretário-geral da Fundação Maurício Grabois

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O fascismo pós-moderno e a batalha pela memória.



Fábio Palácio *

Começou da noite para o dia. A um chamado de Veja, os trustes do oligopólio midiático – hoje alcunhados, não sem razão, de PIG (Partido da Imprensa Golpista) – iniciaram, em uníssono e de forma frenética, intenso bombardeio contra os comunistas brasileiros e sua corrente orgânica, o Partido Comunista do Brasil.

O que começou com agressões contra uma importante e respeitada liderança comunista, o ministro Orlando Silva, foi tomando proporções insólitas. Quando os detratores do PCdoB desceram sorrateiramente aos porões de suas próprias almas, as investidas iniciais deram lugar a uma ofensiva de nítidos contornos ideológicos. Passou-se a atentar contra o Partido como instituição – sua história, suas ideias, sua herança, sua presença na sociedade e na cultura brasileira –, numa espécie de reação ideológica em toda linha, com múltiplas frentes de contestação abertas simultaneamente.

Uma delas, talvez a mais curiosa, foi inaugurada no último sábado (22) com a publicação, na capa do jornal O Globo, de chamada para uma carta da historiadora Anita Leocádia Prestes, filha das históricas lideranças comunistas Olga Benário e Luís Carlos Prestes. Na missiva, endereçada à direção do PCdoB, ela protesta contra o que considera “utilização indébita” da imagem de seus pais no programa do PCdoB, exibido nas redes de TV aberta na última quinta-feira (20). Anita se referia a uma vinheta veiculada como avant-première das comemorações pelos 90 anos do PCdoB, que se realizam em 2012. Vejamos o texto que foi ao ar no programa:

“Mudar era impossível. Até o dia em que eles usaram o que tinham de melhor e simplemente mudaram. A criatividade de Jorge Amado mudou a literatura brasileira. A paixão de Drummond mudou a poesia. A ousadia de Pagu mudou o comportamento feminino. O talento de Portinari mudou a arte. A visão de futuro de Niemeyer mudou a forma da arquitetura. A coragem de Olga Benário mudou a forma de se fazer política. O sonho de João Amazonas, Maurício Grabois e Luís Carlos Prestes mudou a história. De um jeito ou de outro, todos eles mudaram o país. E todos eles fizeram do PC do B um partido que é a cara do Brasil.”

O que talvez tenha passado despercebido de Anita é que o PCdoB não utilizou “seus pais”, mas dois ícones da história política brasileira. Essa senhora – que recentemente, quando do traslado da Rússia para o Brasil de importantes documentos relacionados a Prestes, pleiteou que fossem alocados não em arquivos públicos, mas em uma ONG familiar por ela administrada – pensa que os símbolos da história têm dono. No entanto, personagens como Olga e Prestes pertencem unicamente à galeria de heróis da nação brasileira e ao acervo de lutas de nosso povo. A história não pode ser privatizada – nem pelo dinheiro, nem pela aristocrática evocação de uma herança de sangue.

À senda aberta por Anita Leocádia logo acorreram outros. Não bastava questionar o presente do PCdoB, era preciso golpear os comunistas apagando seu passado, divorciando-os de sua própria história. “O partido delirou: no programa partidário para TV, tratou a História como massinha de moldar. De repente, citam Luís Carlos Prestes, Niemeyer, Drummond como grandes nomes do partido”, afirma o jornalista Carlos Brickmann em coluna publicada em vários jornais deste domingo (23). Já Fernando Gabeira – figura renegada da esquerda, rendida aos conservadores por trinta tostões –, joga ainda mais duro: o PCdoB teria cometido, em seu programa na TV, “uma injustiça com a história cultural brasileira”.

O argumento esgrimido é sempre o mesmo: figuras como Prestes, Niemeyer ou Drummond não teriam sido jamais membros das fileiras do PCdoB, não podendo portanto ser evocados por esse partido. Nas palavras de Gabeira, “fica no ar uma impressão falsa de que existe uma continuidade entre eles e o PC do B”. Nessa concepção cartorial de política, que vê sempre os partidos como meras legendas descartáveis – o que, infelizmente, se aplica de fato à maioria deles – fico pensando se também não deveríamos ser proibidos de reverenciar figuras como as de Marx, Engels, Lênin, José Bonifácio e Tiradentes. Afinal, eles também “não foram do PCdoB”.

Mas Gabeira vai ainda mais longe. Mostrando-se especialmente indignado com a evocação do poeta Carlos Drummond de Andrade, termina por afirmar que nada autoriza a apresentá-lo “como um dos grandes intelectuais comunistas da história do Brasil”. Logo Drummond, ex-editor da Tribuna Popular (órgão da imprensa comunista que circulou na década de 1940) e também autor, como lembra o próprio Gabeira, de A Rosa do Povo, livro de grande sensibilidade social e política, momento alto não apenas da cultura brasileira, mas da literatura de extração comunista em todo o mundo, capaz de ombrear-se à maior literatura do mesmo gênero, bastando para isso compará-lo à poesia comunista de Pablo Neruda.

Para Gabeira, o rompimento de Drummond com o Partido em 1949, após a realização do congresso da Associação Brasileira dos Escritores, seria suficiente para ficarmos os comunistas proibidos de evocá-lo para todo o sempre. “A poesia de Drummond não cabia nos rígidos cânones estéticos do Partido Comunista. Nem sua individualidade poderia ser conformada nos limites do centralismo democrático.” O intuito é fulgente: exaltar a grandeza de Drummond em oposição à “pequenez” do Partido Comunista. Drummond não precisa disso. E Gabeira, ademais, não se dá conta da contradição em que incorre: ali, quando opõe Drummond aos comunistas, enxerga continuidade entre o PCdoB e a legenda à qual esteve filiado o grande poeta brasileiro. Traduzindo: os comunistas só temos o direito de reivindicar a herança do Partido naquilo que possui de “negativa”, jamais no que possa possuir de positiva.

Abre-se dessa forma um confronto de novo tipo, intangível, que bem poderia ser considerado uma “batalha pela memória”. Está decretado: ficam os comunistas proibidos de evocar sua própria história! Ou, melhor dizendo, ficam os comunistas proibidos de ser quem são!

O irônico de tudo é que, na avalanche anticomunista deflagrada no final dos anos 1980, com a queda do muro de Berlim, o PCdoB foi vilipendiado exatamente por continuar reivindicando símbolos, personagens e, enfim, a herança do movimento comunista. Naquela época não foram poucos os que renegaram essa herança. Muitos rasgaram as bandeiras com a foice e o martelo e mergulharam de cabeça no butim neoliberal. Quando nos convidaram a ir junto, recusamos. E se riam de nós, dizendo que, se não nos dispuséssemos a renegar nosso próprio passado, desapareceríamos. Respondemos que não, que preferíamos morrer a jogar no lixo nossa história. Não morremos. Ao contrário, a persistente crise capitalista mundial – à qual nosso país tem resistido bravamente, graças às políticas dos governos Lula e Dilma – nos dá razão dia após dia. E, não por acaso, o Partido cresce a olhos vistos, como revela de maneira insuspeita o semanário Época, apresentando gráficos, tabelas e toda uma parafernália de provas do crescimento dos comunistas, que teriam chegado “ao centro do poder”.

Ou seja: naquela época se riam quando evocávamos a história do comunismo. Hoje, ao contrário, estamos proibidos de reverenciá-la. Num país onde os partidos costumam mudar de nome não como expressão de qualquer avanço programático, mas como reles tentativa de apagar o passado, é surpreendente que se ataque um partido por recusar-se a renegar sua história!

Porém, em pelo menos uma coisa é necessário concordar com nossa moderna inquisição: a memória é coisa séria demais para ser deixada “solta” por aí. O marxismo possui fortuna crítica sobre o tema. Em O narrador, Walter Benjamin – intelectual marxista morto em 1940 em decorrência da perseguição fascista na Europa – mostra-se convicto de que o passado contém sempre a força de algo inacabado, e que o presente pode assumir, por meio da memória, um papel redentor. Em sua crítica da modernidade, Benjamin esforçou-se por apontar o que considerou um grave perigo: a “perda da memória”. O homem moderno teria como um de seus traços o culto obsessivo à imediatidade do instante presente, o que terminaria por acarretar uma recusa persistente do passado. Segundo Benjamin, esse fenômeno seria visível na perda, pelo homem moderno, da capacidade de narrar – e, com ela, de comunicar a experiência, instruindo o presente e agregando sentido ao futuro. Benjamin via nesse fenômeno um verdadeiro atentado à cultura e, mesmo, uma tendência à barbárie.

De fato, o mundo em que vivemos é marcado por contínuos e persistentes ataques à consciência histórica. Como afirma o intelectual marxista britânico Terry Eagleton em seu Depois da Teoria – um olhar sobre os estudos culturais e o pós-modernismo, esse processo é consequência direta do clima de desilusão que se instaurou no pós-guerra. Ao longo das últimas décadas, de enfadonho conservadorismo neoliberal, o senso histórico tornou-se crescentemente “obtuso”, já que convém aos detentores do poder que as maiorias populares, não recordando o passado, sejam também incapazes de imaginar alternativas ao estado atual das coisas. Nessa perspectiva, classificada por Eagleton de “política da amnésia”, o futuro seria, simplesmente, o presente indefinidamente repetido.

Essa realidade tem afetado gravemente os empreendimentos coletivos, sejam os dos trabalhadores, sejam os da juventude, sejam os de diversos outros segmentos sociais ou, mesmo, os do povo-nação. Não à toa, conforme denuncia Eagleton, “o que se provou mais danoso foi a ausência de memórias de ação política coletiva – e efetiva. É isso que tem distorcido tantas ideias culturais contemporâneas”.

Essas ideias distorcidas são expressão de um autoritarismo visceral. Se em tempos outros o fascismo, em sua luta contra os comunistas, tinha como expediente principal a aniquilação física, hoje pratica uma violência simbólica, porém não menos agressiva, que lança mão de uma espécie de liquidacionismo “moral” e inclui a negação do direito à memória. Fico pensando se não seria também a isso que faz referência o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, quando, no auge das denúncias contra Orlando Silva, sacou o termo “fascismo pós-moderno”. No mundo em que vivemos, o mesmo que atira ao lixo da história princípios civilizatórios como o da presunção de inocência, nem mesmo o direito ao passado está garantido. É preciso lutar contra isso. Em nossa sociedade, ninguém devia ser proibido de lembrar seus heróis.

* Fábio Palácio é jornalista e estudante de doutorando pela ECA/USP. Desenvolve, com financiamento da Capes, projeto de pesquisa sobre o marxismo e o conceito de cultura. Militante comunista, espera poder continuar recordando, sem ser importunado, seus ícones e referências, quando e onde quer que seja.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Neta de Prestes defende o PCdoB.





Ana Maria Prestes: "Sobre o legado de Olga e Prestes"


A edição desta segunda-feira (24) do jornal O Globo traz uma matéria sobre as críticas da historiadora Anita Leocádia Prestes, filha de Luís Carlos Prestes e Olga Benário, ao uso das imagens de seus pais no programa partidário do PCdoB – que foi ao ar na última quinta-feira (20), em rede nacional de televisão. Ao lado de outros grandes nomes que ajudaram a construir o movimento comunista no Brasil, Olga e Prestes foram, na verdade, homenageados pela heroica atuação na vida política do país.

Anita chegou a encaminhar uma carta ao Comitê Central do Partido em manifestação contrária à homenagem do PCdoB aos seus pais. Em resposta, a socióloga Ana Maria Prestes Rabelo – membro do Comitê Central do PCdoB e neta de Luís Carlos Prestes – contesta a postura da tia. Ela lembrou que a trajetória do avô “é uma referência na história mundial do século 20” e não pode ser vista como um bem pertencente a qualquer um de seus herdeiros.

“Através destas homenagens e graças à força do PCdoB nos dias atuais, as novas gerações de jovens comprometidos com o desenvolvimento do Brasil podem conhecer esta história e decidir se integrar à ela”, diz Ana Maria.

Ela ressaltou que, há 15 anos, escolheu militar no PCdoB e se reafirmou testemunha das constantes homenagens e do respeito que o Partido rende à memória de Prestes – interna e publicamente.

Ana Maria falou ainda dos ataques e das calúnias das quais o PCdoB foi acusado recentemente. “Nas últimas semanas, este Partido tem sido sistematicamente atacado como parte de uma estratégia que pretende deslegitimar um governo comprometido com os avanços do Brasil. E, não por coincidência, esta estratégia é inflamada pela mesma imprensa golpista que meu avô e minha avó, Maria, me ensinaram a condenar”.

Leia abaixo a íntegra da carta divulgada por Ana Maria Prestes Rabelo:


Sobre o legado de Olga e Prestes


No último dia 21 de outubro, em carta enviada ao PCdoB, minha tia, Anita Leocádia Prestes, protestou contra a homenagem prestada pelo PCdoB a Olga Benário e Luiz Carlos Prestes em programa televisivo transmitido na noite do dia 20 de outubro.

Como neta de Prestes, sempre penso que felizmente em nossa numerosa família ninguém se arvora a ser proprietário(a) da história do meu avô e temos todos consciência de que sua trajetória é uma referência na história mundial do século 20 e não pertence a qualquer um de nós.

Perto de comemorar seus 90 anos, o PCdoB presta uma homenagem a todos aqueles que ajudaram a construir o movimento comunista no Brasil, nas suas diferentes etapas e de diferentes maneiras.

Através destas homenagens e graças à força do PCdoB, nos dias atuais, as novas gerações de jovens comprometidos com o desenvolvimento do Brasil podem conhecer esta história e decidir se integrar à ela.

O programa de TV veiculado pelo PCdoB expressou este momento especial pelo qual passam os comunistas no Brasil, de aumento da influência de suas ideias e projeção de suas lideranças. Por isso, o mesmo tem sido alvo de uma poderosa reação de setores que há tempos imemoriais tentam calar a nossa voz.

O PCdoB foi o Partido que escolhi para militar há 15 anos e sou testemunha das homenagens e o respeito que se tem rendido à memória de Prestes no seu interior e em suas manifestações públicas.

Nas últimas semanas, este Partido tem sido sistematicamente atacado como parte de uma estratégia que pretende deslegitimar um governo comprometido com os avanços do Brasil. E, não por coincidência, esta estratégia é inflamada pela mesma imprensa golpista que meu avô e minha avó, Maria, me ensinaram a condenar.


Ana Maria Prestes Rabelo

Membro do Comitê Central do PCdoB

domingo, 23 de outubro de 2011

Veja se enrola mais nas mentiras.

Uma fonte deste blog na TV Globo, do Rio, informa que não está nada amistosa a relação da emissora dos Marinhos com a revista Veja. O estranhamento de Veja e Globo tem a ver com a artilharia pesada do semanário contra o ministro do Esporte, Orlando Silva, e o PCdoB.

A produção do Jornal Nacional pediu ontem o áudio que Veja recebeu do ex-policial João Dias Ferreira, no qual dialoga com dois assessores do Ministério do Esporte, mas a revista se recusou a fornecer a matéria-prima ao parceiro de PIG (Partido da Imprensa Golpista).

O blog foi atrás e descobriu que Veja não possui diálogos que comprometem o ministro ou os assessores acusados por ela. Pelo contrário. É o policial Dias quem se complica ainda mais. O “herói” da revista já esteve preso por desvio de recursos da pasta e é suspeito de assassinato.

Na fita que está em poder de Veja, o acusador ameaça com um revólver os assessores do Ministério. Por isso a revista não publicou diálogos na reporcagem desta semana.

Como norma padrão, o Jornal Nacional sempre dava destaque às estripulias de Veja com a condição de exclusividade nas “provas” materiais adquiridas. Pela primeira vez a revista não cumpriu o acordo e isso deixou a Globo com muito mau humor.

A direção TV Globo, segundo a mesma fonte, teme que a emissora tenha sido arrastada numa guerra que poderá custar-lhe o pouco de credibilidade (e os pontinhos no Ibope) que tem.

Se a Globo quer saber do áudio secretos de Veja, imagine os comunistas…

O ministro Orlando Silva está rindo à toa da trapalhada. Ele fez a sua parte ao pedir para ser investigado, abrir sigilos bancários e telefônicos, enfim, depor no Congresso Nacional.

O diabo é que a revista Veja se recusa a fazer a parte dela que é bem mais simples: mostrar o áudio coletado clandestinamente pelo policial João Dias.

Fonte: Blog do Esmael (www.esmaelmorais.com.br)

terça-feira, 18 de outubro de 2011

A bárbarie dos grandes meios de comunicação.






As denúncias da Veja/Globo contra o Ministro do Esporte Orlando Silva Jr. são apenas pontas do gigantesco iceberg  que é a  "inversão de valores" que graça na economia e na política.

Sendo o neoliberalismo a hegemonia do capital financeiro, portador de juros, especulativo, volátil, sobre a produção e o trabalho, então vivemos em uma época parasitária, do menor esforço e do máximo lucro. Das conclusões antes das premissas. É a época da especulação vencendo a produção!

O reflexo social da nossa época pode ser percebido na grande mídia - que, a rigor, são empresas privadas - e a sua sistemática destruição de todos os valores do discurso racional, universalista e humanista, em favor das especulações dos interesses corporativos e privados, nacionais e estrangeiros!

Essa "nova ordem mundial" vai de encontro a nossa constituição cidadã de 1988, que consagra os valores clássicos da institucionalidade jurídica de um período democrático da nossa história.

Subvertendo a lógica elementar, querem inverter o ônus da prova e condenar antes do julgamento! Os grandes meios de comunicação se arrogam o direito da autotutela, promovendo verdadeiros linchamentos públicos, sem um mínimo de direito de defesa !!! Estamos, portanto, em uma época bárbara...

Basta dessa injustiça !!! Por uma Lei de Meios!!! Pelo controle social da informação !!!

domingo, 16 de outubro de 2011

As fontes sinistras da revista Veja.


Por Altamiro Borges

Atacado em sua honra pela revista Veja, o ministro dos Esportes, Orlando Silva, foi rápido nas respostas. Ainda de Guadalajara, no México, onde participou da abertura dos Jogos Pan-Americano, ele solicitou que a Polícia Federal investigue as denúncias, colocou à disposição o seu sigilo fiscal e bancário e anunciou que refutará as acusações no Congresso Nacional já na próxima semana.

Revoltado com as “invenções e calúnias”, o ministro também explicitou que não vai se intimidar. Ele está decidido a mover ações judiciais e penais contra os caluniadores e estudará mecanismos para processar a Veja. “Não temo nada do que foi publicado na revista... Estou indignado, porque um bandido me acusa e eu preciso me explicar. Agora, o sentimento é de defesa da honra”.

Métodos criminosos lembram Murdoch

A revolta de Orlando Silva é compreensível. Afinal, a Veja utilizou um sujeito de biografia sinistra, “um bandido”, como fonte para sua “reporcagem”. João Dias Ferreira não apresenta qualquer prova concreta, faz apenas insinuações maldosas. No mínimo, uma revista séria – e não um pasquim partidário dos métodos criminosos do império Murdoch – averiguaria a trajetória da sua fonte.

O noticiário da mídia de meados do ano passado é farto em denúncias sobre as ações criminosas do policial João Dias, que desviou recursos do Programa Segundo Tempo para construir uma mansão e três academias de ginástica. Bastaria ao repórter da Veja ler o que publicou o jornal Correio Braziliense, em 1º de abril de 2010:

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Operação Shaolin prende cinco suspeitos de desviar R$ 2 milhões do Ministério dos Esportes

Por Ary Filgueira e Lilian Tahan

Cinco pessoas estão presas na Divisão Especial de Combate ao Crime Organizado (Deco) suspeitas de participar de desvio de dinheiro repassado pelo Ministério do Esporte. O policial militar João Dias Ferreira, Demis Demétrio Dias de Abreu, Flávio Lima Carmo, Miguel Santos Souza e Eduardo Pereira Tomaz foram detidos às 6h da manhã desta quinta-feira (1º/4) por agentes da Polícia Civil do Distrito Federal, numa operação chamada Shaolin, que tem a participação do Ministério Público do DF.

O grupo, que era liderado pelo PM, falsificou 49 notas frias para retirar o dinheiro repassado pelo Ministério dos Esportes a entidades sociais conveniadas com o Programa Segundo Tempo do Governo Federal. A verba aproximada, ao longo de três anos (2006/07 e 08), foi de R$ 3 milhões. O dinheiro seria destinado a programas sociais, em atividades esportivas para 10 mil atletas carentes de núcleos situados em Sobradinho, mas pouco menos de R$ 1 milhão foi realmente destinado a eles.

O derrame de verba pública saia da Federação Brasiliense de Kung-Fu (Febrak) e da Associação João Dias de Kung-Fu, Esportes e Fitness. Esta última é uma organização não-governamental e leva o nome do soldado da 10ª Companhia de Polícia Militar Independente. Ele é dono de duas academias em Sobradinho: Thisway Fitness e Wellness Ltda., usada para lavar dinheiro desviado, situada no primeiro piso do Sobradinho Shopping.

Além das academias, os agentes cumpriram mandados de busca e apreensão, autorizados pela 3ª Vara Criminal de Brasília, nas residências dos acusados, entre elas, na luxuosa casa onde reside o casal João Dias e Ana Paula Oliveira de Faria, 33, também apontada como integrante da quadrilha. O imóvel do PM fica num condomínio luxuoso de Sobradinho e foi arrestado pela Justiça.

A investigação surgiu em junho de 2008 com o cumprimento de mandado de busca e apreensão no escritório de um dos apontados no esquema: o contador Minguel Santos Souza, 54, situado na 711 Norte. Na ocasião, os policiais localizaram 49 notas fiscais emitidas pelas empresas Infinita e Serviços Gerais Ltda. e JG Comércio de Alimentos Preparados e Serviços Gerais Ltda. administradas por Miguel.

Os documentos foram emitidos em favor da Febrak e da Associação João Dias de Kung-Fu. Elas descreviam a venda de kimonos da luta marcial, jogos de xadrez, dominó, dama, varetas e gêneros alimetícios no valor de R$ 1.999.850,58. Foram apresentadas na prestação de contas ao Ministério dos EsportesApós análise na Seção de Perícias Contábeis do Instituto de Criminalística da Polícia Civil, descobriram que tais notas eram consideradas frias.

Segundo a PCDF, as duas entidades receberam um total de R$ 2.962.998 milhões do convênio com o Programa Segundo Tempo do Ministérios dos Esportes. Destes, o grupo do soldado João Dias é acusado de desviar R$ 1.999.850,58 milhão. Os acusados estão detidos por força de um mandado de prisão temporária com validade de cinco dias. Mas, com o avanço das investigações, pode ser que a pena provisória dobre ou até seja comutada para uma preventiva de 30 dias.


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O uso de mercenários

O uso de fontes desqualificadas já virou moda na mídia nativa – que se acha acima das leis e não teme qualquer represália. No ano passado, o Jornal Nacional serviu-se do ex-presidiário Rubnei Quicoli para caluniar a candidata Dilma Rousseff. Em setembro último, em audiência na 9ª Vara Cível, o mercenário desmentiu as acusações e “pediu desculpas ao PT”. A TV Globo sequer teve a dignidade de se retratar!

Na edição desta semana, Veja usa o mesmo expediente sórdido. Neste caso, ela simplesmente requentou velhas denúncias. Na campanha eleitoral de 2010, o policial João Dias Ferreira fez campanha para a esposa do “ético” Joaquim Roriz, candidata derrotada ao governo do Distrito Federal. O caluniador não é uma pessoa isenta. Tem lado político e virou um opositor feroz do governador Agnelo Queiroz (PT).

Agora, ele ataca o ministro Orlando Silva, até como represália pelo Ministério do Esporte ter suspenso os convênios e exigido a restituição do dinheiro roubado. Dá para confiar numa fonte como esta?

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Deu na Folha de S. Paulo: EUA boicotaram o programa espacial do Brasil.




Telegramas sigilosos divulgados pela Folha revelam pressão americana sobre projeto brasileiro de foguetes. Ações dos EUA, como proibição de venda de tecnologia espacial ao Brasil, atrasaram projetos do país na área.

Telegramas confidenciais do Itamaraty revelam que os EUA promoveram embargo e “abortaram” a venda, por outros países, de tecnologia considerada essencial para o programa espacial brasileiro na década de 1990. Em um dos telegramas, o Itamaraty associou a ação norte-americana a um atraso de quatro anos na produção e lançamento de satélites.

O projeto Folha Transparência divulga em seu site a partir de hoje 101 telegramas confidenciais inéditos da diplomacia brasileira, que tratam dos programas brasileiros espacial e nuclear. A pressão norte-americana sobre o projeto espacial já foi ressaltada por especialistas brasileiros ao longo dos anos, e um telegrama do Wikileaks divulgado em 2010 indica que ela ainda ocorria em 2009. Os documentos agora liberados permitem compreender a origem e o alcance do embargo, assim como a enérgica reação do Brasil.

Em despacho telegráfico de agosto de 1990, o Itamaraty afirmou que a ação norte-americana começara três anos antes, por meio de “embargos de venda de materiais”, impostas pelos países signatários do RCTM (Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis) -um esforço voluntário entre países, de 1987, para coibir o uso de artefatos nucleares em mísseis.

O Itamaraty incluiu o bloqueio dos EUA como um dos motivos para o atraso na entrega do VLS (Veículo Lançador de Satélites), que deveria estar pronto em 1989. O primeiro teste de voo foi em 1997. Além do VLS, o programa espacial previa a construção de quatro satélites, dois para coleta de dados e dois para sensoriamento remoto.
O Brasil só aderiu ao acordo em 1995. Os telegramas revelam que, um ano depois, o diretor do CTA (Centro Técnico Aeroespacial) da Aeronáutica, Reginaldo dos Santos, atual reitor do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), informou ao Itamaraty que os EUA negaram o pedido para importar transmissores para uso em foguetes brasileiros.

O Itamaraty orientou seu embaixador em Washington, Paulo Tarso Flecha de Lima, a manifestar “estranheza e preocupação” ao governo dos EUA. A medida dos EUA só foi revista meses depois.

José Israel Vargas, ministro da Ciência e Tecnologia entre 1992 e 1998, confirmou à Folha as gestões dos EUA para prejudicar o programa espacial brasileiro. “Houve sim pressão americana para qualquer desenvolvimento de foguetes, contra nós e todo mundo (que o fizesse).” Segundo ele, países avançados na área, que ajudavam outros a criar seus programas espaciais, como a França fez com o Brasil, também eram pressionados.

A Embaixada dos EUA em Brasília, quando procurada em agosto pela Folha, não comentou os telegramas do Itamaraty, mas elogiou a divulgação dos documentos.

COMENTÁRIO DO BLOGUE.

É impressionante como a macropolítica estratégica não é discutida nem debatida nos círculos partidários maranhenses. Com raríssimas exceções, no geral, exclui-se da "análise concreta da situação concreta" a questão nacional e, por tabela, o imperialismo! Esses documentos são de dez anos atrás... E hoje? Não estará acontecendo?

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

PCdoB: Enfrentar a crise mundial impulsionando o desenvolvimento nacional.




A grande crise do capitalismo iniciada em 2007-2008 continua regendo a dinâmica econômica, financeira, social e política do mundo. Depois de uma anêmica recuperação no ano passado – que levou os ideólogos do status quo a proclamarem a superação daquele grande abalo –, a economia mundial, em 2011, caiu numa recidiva e a crise vive, agora, sua segunda fase aguda.

Em 2008, com o simbolismo da falência do banco de investimentos Lehman Brothers, deflagrou-se um efeito dominó de quebradeiras cujo apogeu foi em 2009. Faliram grandes bancos, seguradoras e, também, robustas empresas do setor produtivo por conta das gigantescas operações especulativas de derivativos oriundos da regra-mor do neoliberalismo: a desregulamentação e liberalização dos mercados. Desde então, os Estados dos países do centro capitalista tiveram de injetar trilhões de dólares para socorrer e salvar grandes monopólios e o sistema financeiro privado.

A segunda fase aguda da crise

Longe de os riscos se dissiparem, agora em 2011 a situação se agravou. Está a todo vapor a segunda fase aguda da crise cujo epicentro é o denominado “primeiro mundo”, o centro do sistema, formado pelas grandes potências capitalistas. No presente, a diferença é o fato de essa crise – além de persistir nos Estados Unidos da América – se agravar na União Europeia e Japão. A Europa, em particular, é duramente castigada. Inicialmente foram afetados os países da periferia da Zona do Euro, agora, foram golpeadas a Itália e a Espanha.

As manifestações dessa atual etapa da crise são: elevada dívida pública dos Estados Unidos e dos países da União Europeia; desaceleração da economia do centro capitalista, estagnação e risco de recessão global; onda sucessiva de inadimplências; instabilidade e enfraquecimento do dólar; guerra cambial e protecionismo econômico; desemprego crescente e aumento da exploração sobre os trabalhadores. A margem de manobra deste conturbado centro capitalista restringiu-se. Na esfera dos juros, suas taxas já beiram a marca do zero; no plano dos investimentos, eles têm dificuldades, pois os Estados se endividaram para socorrer a quebradeira do setor privado. Esta transferência significa que tesouros e bancos centrais de todo o mundo já gastaram US$ 12,4 trilhões até agosto último.

A análise marxista inscreve essa crise como uma das três maiores já enfrentadas pelo capitalismo, fato que agrava seus paradoxos e contradições. Contudo, as crises fazem parte dos ciclos do capital e, independentemente de suas intensidades, o capitalismo não se destrói por si mesmo. Se não for confrontado por alternativas distintas, que abram um novo ciclo político e econômico, que leve a rupturas do sistema, ele encontra sempre saídas, provocando maiores desastres econômicos, sociais e políticos, para prosseguir com seu processo de expansão.

Ultraliberais continuam no comando político

O neoliberalismo, embora desmoralizado pelo fracasso, recrudesceu no centro capitalista. A lógica de Wall Street, isto é do rentismo, permanece hegemônica. As promessas de alguma regulação do sistema financeiro não passaram de procedimentos cosméticos, não interferindo na mudança da sua natureza. Os ultraliberais responsáveis pela crise continuam à frente do comando político de grandes potências. Nos EUA, Obama se curvou à onda neoconservadora, e os setores mais reacionários do país – como o Tea Party – ganham força. Exigem mais absolutismo do mercado. Do outro lado do Atlântico, no Velho Mundo, a direita domina o cenário político, inclusive com o inchaço de bolsões neonazistas.

Essa hegemonia condiciona fortemente as tendências, os desdobramentos e possíveis cenários decorrentes do atual quadro. Embora na Europa e, no Oriente Médio, haja descontentamento e revoltas sociais, o que prevalece até o momento é a ausência de uma alternativa política condutora do campo patriótico, democrático e progressista. Só forças políticas novas, orientadas por concepções e projetos alternativos aos paradigmas neoliberais, podem enfrentar, romper e superar a lógica liberal reinante.

Ganha velocidade a transição no sistema de poder mundial

Todavia, dialeticamente, em função da profundidade da crise no centro do sistema, como aspecto alentador e progressista, ganha velocidade a transição que se opera no sistema econômico e político internacional. A crise acelera o já constatado declínio progressivo e relativo da hegemonia do imperialismo estadunidense e, simultaneamente, cresce o papel da República Popular da China – país socialista –, pela pujança da sua economia (2º PIB mundial) e sua ascendente influência geopolítica.

Embora também sofra os efeitos danosos da crise, a chamada periferia do sistema capitalista – notadamente, Índia, Rússia, Brasil, África do Sul e a já citada China – enfrenta-a com resultados favoráveis ao crescimento econômico. Sinal dos novos tempos é o fato de os países componentes do BRICs anunciarem que vão debater formas de ajudar a União Europeia a enfrentar a crise econômica.

Sublinhe-se que na América Latina se mantém e até se amplia o leque de países governados por lideranças e blocos de forças que lutam pelo desenvolvimento soberano e democrático. Vai ficando para trás a supremacia unipolar dos EUA e cresce a tendência a um mundo multipolar. Todavia, é preciso sublinhar que o declínio de uma supremacia imperialista hegemônica mundial não transcorre de modo pacifico e poderá se estender por longo período histórico, devido ao fato de ainda ser uma potência militar, econômica e tecnológica, além da influência ideológica que exerce no planeta por inteiro.

Resultante disso temos um cenário internacional contaminado pela instabilidade, ameaças e pelo risco de grandes perigos. As guerras de ocupação contra o Afeganistão, o Iraque e, agora, a intervenção ostensiva da OTAN na Líbia e as ameaças de intervenção contra a Síria, sob a falsa defesa da democracia e dos direitos humanos, demonstram que os EUA poderão recorrer cada vez mais às armas, visto que ostenta de longe a condição de maior potência bélica.

Crise exige audácia do Brasil

Neste contexto – em que as grandes potências tentam lançar o ônus da crise sobre os ombros dos trabalhadores e buscam aumentar o saque sobre os demais países – é que se exige mais audácia política e independência das nações da chamada periferia do sistema, como é caso do Brasil. Assim agiu Getúlio Vargas na grande crise de 1929-1930. E, do mesmo modo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na primeira fase aguda da crise, em 2008. Na atualidade, o país já recebe os impactos da crise.

Constata-se a desaceleração de seu crescimento econômico, com suas conseqüências, como a queda da oferta de postos de trabalho e retração da atividade industrial. O governo Dilma, como será demonstrado a seguir, reage e adota medidas em defesa do país.

A presidente Dilma firma sua autoridade e liderança

Quando esta segunda fase da crise acossa e atinge o Brasil, um fato relevante vai se impondo na realidade brasileira: a presidente Dilma Rousseff firma sua liderança e autoridade em relação tanto à sua base política, partidária e social, quanto ao povo de quem recebe amplo apoio.

Esta afirmação da presidente e de seu governo decorre de três fatores principais. Primeiro, ela enfrenta com vigor as pressões da oposição e de seu poderoso braço midiático no sentido de ditar ao governo a agenda prioritária – que para isso manipulam a justa e necessária bandeira de combate à corrupção, para incompatibilizar a presidente com sua base política de apoio. Estratagema que ficou massificado com o bordão da “faxina”.

Dilma reagiu, demonstrando de modo prático que o combate à corrupção é uma questão de princípios. “A “faxina” é realizada no dia a dia, combatendo as práticas criminosas, os corruptos e corruptores toda vez que se apresentem. Para tal é preciso continuar qualificando o Estado para ele a um só tempo exercer seu papel empreendedor e suas ações vigorosas em defesa do patrimônio público. Todavia, a pauta que deve reger o país, proclama Dilma, é a do desenvolvimento, distribuição de renda e erradicação da pobreza. Esta é a prioridade.

A liderança de Dilma também se eleva à medida que seu governo empreende a defesa crescente do Brasil e de sua economia ante a recidiva da crise. De início, lançou o Programa Brasil Sem Miséria, que pretende retirar 16 milhões de brasileiros da extrema pobreza; depois, o Plano Brasil Maior, um elenco de medidas visando a defender e impulsionar a indústria nacional, vitimada pela política cambial e problemas estruturais, como a defasagem tecnológica. Movimenta-se para melhorar a qualidade do Sistema Único de Saúde (SUS) buscando fontes de mais recursos e a regulamentação da Emenda 29. Também persegue o objetivo de uma educação pública e de qualidade para todos os brasileiros. Progressivamente, vão se delineando e se ampliando, como se verá, as linhas de enfrentamento da crise e de defesa do país. Nesta dinâmica, a presidente dialoga e se aproxima mais de sua base política e partidária e interage com as entidades e lideranças do movimento social e sindical.

Acontecimento promissor: a redução dos juros

Acontecimento impactante e promissor que abre boas perspectivas é a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) – adotada no último 31 de agosto – de reduzir de 12,5% para 12% a taxa básica de juros, a Selic. Essa redução visa manter o crescimento do país e se deu na contramão das expectativas do mercado financeiro, que reagiu com seu poder de fogo. O governo retira o ensinamento de 2008, quando, em pleno momento agudo da crise, o Banco Central (BC) ainda aumentava os juros, levando à recessão em 2009.

A presidente Dilma empreende um movimento que afronta a concepção neoliberal: ela promove uma ação sincronizada entre o Ministério da Fazenda e o Banco Central, entrelaça a política fiscal com a política monetária com o fito de promover uma queda sequenciada dos juros e manter sob controle a inflação, e tenta conter a onda corrosiva que vem de fora, lutando por metas de crescimento e de geração de empregos.

Seu objetivo explicitado é de até 2014 livrar o país da condição absurda de ser campeão mundial dos juros altos, reduzindo a taxa real ao patamar dos índices internacionais. Simultaneamente, o governo busca livrar o Brasil de outra algema: atua para desatrelar a dívida pública da Selic. Atualmente, 30% das Letras Financeiras do Tesouro (LFT) são corrigidas por ela. Estes títulos prejudicam a ação do Banco Central sobre os juros e premiam os rentistas com ganhos sem risco algum. Tais iniciativas do governo Dilma expressam uma importante vitória política nesta fase decisiva de seu mandato.

No horizonte: a possibilidade de um novo pacto político e mudanças na macroeconomia

A luta pela redução dos juros e pela desindexação da dívida pública instaurou uma batalha política e de ideias, mais de fundo. A reação agressiva dos círculos dominantes financeiros e de seus agentes deriva de tais medidas abrirem caminho para uma mudança da atual política macroeconômica. Ela surgiu concomitantemente ao Plano Real, em 1994. O país vivia sob uma torrente inflacionária, circunstância na qual os banqueiros e as camadas ricas da sociedade ganhavam somas fabulosas com a especulação, e a maioria do povo tinha seus salários engolidos pela desvalorização cotidiana da moeda.

Houve, então, um acordo tácito entre aqueles que dirigiam o Estado brasileiro e os círculos financeiros mais poderosos. A estabilidade da moeda nasceu com uma salvaguarda para os ganhos dos credores, banqueiros e especuladores: as estratosféricas taxas de juros. Ao mesmo tempo, elas representam um pesado ônus fiscal para a maioria da Nação, um obstáculo ao desenvolvimento pleno nacional.

Mas a crise, dialeticamente, cria a oportunidade de substituição daquele referido arranjo conservador entre o Estado e os círculos financeiros dominantes por um pacto político novo, hegemonicamente constituído pelos trabalhadores e o setor produtivo empresarial nacional.

Este pacto pode ser o alicerce para a realização de um conjunto de objetivos mais ousados e presentes no compromisso da presidente Dilma de conduzir o Brasil para um estágio mais avançado de seu desenvolvimento.

Este novo pacto político se forjará na luta por grandes bandeiras unificadoras de maiorias políticas e sociais. O protagonismo do povo e dos trabalhadores, de seus movimentos e jornadas, com a autonomia de suas entidades, é indispensável para estimular e instigar o governo a realizar as reformas democráticas estruturais, e sustentá-lo nessa direção.

Nesse sentido é preciso dar prosseguimento ao empenho que têm produzido, nos últimos meses, importantes mobilizações dos trabalhadores e da juventude, entre as quais se destacam a manifestação dos 80 mil trabalhadores na cidade de São Paulo, organizada pela quase totalidade das centrais sindicais; a Marcha das Margaridas com cerca de 70 mil camponesas; e a passeata dos estudantes, por mais recursos para a educação, liderada pela UNE e pelas UBES, ambas em Brasília.

Na visão do PCdoB, na atualidade, esta é a tarefa principal das forças progressistas e populares, em especial da esquerda: impulsionar o governo a liderar a conformação desse novo pacto político capaz de empreender avanços estruturais no país e municiá-lo das medidas apropriadas para o enfrentamento da crise econômica e financeira, como a queda progressiva dos juros, a desindexação da dívida pública da taxa Selic, a adoção de métodos e expedientes que garantam um câmbio competitivo, aumento contínuo dos investimentos, da geração de empregos e da distribuição da renda.

Nesse sentido, cabe ao Partido se empenhar pela realização das seguintes tarefas:

1) Impulsionar o governo a aproveitar a janela de oportunidade aberta pela crise para fazer avançar o Projeto Nacional de Desenvolvimento. Fortalecer a autoridade política da presidente Dilma Rousseff no enfrentamento das consequências da crise mundial sobre o país e para que seu governo venha a liderar a formação de um novo pacto político e social que proporcione ao Brasil avanços estruturais e históricos, como a mudança da política macroeconômica. Para isso, é preciso unir a base política do governo, contar com a mobilização e a luta do povo e realizar as reformas democráticas estruturais. Entre elas, uma reforma política que amplie a democracia, fortaleça o pluralismo e os partidos e combata a corrupção com o fim do financiamento privado das campanhas e adoção do financiamento público exclusivo.

2) Defender o Brasil, e a sua economia, ante os efeitos da crise. Lutar pela redução seqüencial dos juros bancários e da taxa básica, a Selic. Apoiar o objetivo do governo de até 2014 fixar os juros no patamar médio internacional e de igual modo respaldar sua decisão de desindexar progressivamente a dívida pública da taxa Selic no menor tempo possível. Alterar a política cambial, compatibilizando-a com os interesses da produção nacional. Ampliar as normas e medidas que restrinjam o livre fluxo de capital especulativo no país. Empenhar-se para elevar a taxa de investimentos, pelo menos ao marco de 25% do PIB, sendo que os investimentos públicos devem ser ampliados e aplicados em áreas e programas estratégicos do projeto nacional. Aprofundar as medidas constantes do Plano Brasil Maior para ampliar os investimentos na inovação e no aumento da competitividade industrial, perseguindo o objetivo de estruturação de um parque industrial moderno, de alta produtividade. Impulsionar, atualizar e alocar os investimentos necessários para a implementação do Plano da Amazônia Sustentável. Gerar empregos, distribuir renda e valorizar o trabalho.

No curso desse conjunto de medidas e metas, abrir caminho para a mudança da política macroeconômica. No plano internacional, dar continuidade à política externa altiva, de afirmação da soberania nacional, de condenação das guerras imperialistas e de defesa da paz mundial; à participação destacada nas articulações de países em desenvolvimento por soluções que resguardem o direito ao desenvolvimento soberano das nações, defendendo-as da crise mundial; intensificar o processo de integração solidária dos países da América Latina, sobretudo na presente conjuntura, através de medidas convergentes para defesa da economia da região diante do recrudescimento da crise capitalista. Noutro plano, são necessários esforços para oferecer ao coletivo militante espaços e oportunidades para melhor capacitá-lo na compreensão da dimensão da crise e de sua participação na luta de ideias em curso.

3) Apoiar e estimular as lutas e mobilizações do povo e dos trabalhadores, como foram as exitosas jornadas de lutas dos estudantes, a marcha das Margaridas e a marcha dos trabalhadores, todas realizadas no último período. Para isso devemos seguir fortalecendo os espaços de articulação unitária, especialmente a Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS) e o Fórum das Centrais Sindicais, e reforçar a constituição ou consolidação dos fóruns estaduais do movimento social do Partido. Merece, neste momento, especial atenção a luta por mais recursos para a saúde pública, para a construção de moradias dignas para o povo, a defesa da jornada semanal de trabalho de 40 horas, além da batalha pela aplicação de 10% do PIB para a educação pública. É importante que todas estas bandeiras e jornadas de luta estejam associadas à pauta nacional, elevando a participação política dos trabalhadores e do movimento social como um todo.

4) Prosseguir com o trabalho de fortalecimento do Partido, com sua expansão, estruturação e organização desde as bases e com todo o empenho para garantir seu plano político eleitoral para 2012 com a eleição de prefeitos, vices e aumento de sua representação nas Câmaras Municipais. Intensificar a filiação de lideranças. Posicionar e construir as pré-candidaturas majoritárias do Partido, em especial nas capitais e maiores cidades, com a conquista de aliados e ampliação do apoio político para elas. Empreender o diálogo e as negociações que resultem na participação do Partido em chapas majoritárias, com candidaturas de aliados e amigos. Formação de chapas próprias de vereadores, e onde não for possível garantir as coligações proporcionais. Fortalecer a base econômico-financeira do Partido para responder às exigências crescentes de sua atividade. No processo das conferências em andamento, eleger e formar direções à altura dos desafios do curso político e aprofundar a aplicação das orientações do 7º Encontro sobre Questões de Partido para maior vida partidária desde a base.

5) Aplicar massiva e extensivamente o Curso do Programa Socialista (CPS) junto ao conjunto da militância, em especial aos militantes de base e intermediários. Imprimir a esta tarefa um ritmo de campanha no período de outubro até maio do ano próximo, como uma primeira etapa. Os Comitês Estaduais em conjunto com os Municipais devem planejar e executar esse movimento que pode representar uma grande iniciativa para formar e organizar as bases militantes e preparar o Partido para uma participação exitosa nas mobilizações e lutas do povo e nas eleições do ano próximo.



São Paulo, 18 de setembro de 2011

Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB)

sábado, 17 de setembro de 2011

À frente em pesquisa, PCdoB prega unidade “em defesa de São Luís”

O presidente do Comitê Municipal do PCdoB em São Luís, Márcio Jerry, manifestou naturalidade com os números da pesquisa sobre a sucessão municipal feita pelo Instituto Amostragem e divulgados na terça, 13.

“É muito bom nosso candidato, Flávio Dino, estar bem à frente nas intenções de voto no momento, mas o fundamental para nós continua sendo construir coletivamente uma alternativa aos fracassos políticos e administrativos de Roseana Sarney e João Castelo, uma alternativa em defesa de São Luís”, disse.

O dirigente comunista ressaltou que a pesquisa reforça a tese de uma aliança do “campo político da renovação e da mudança”. Ele fez referência à pregação de um palanque em que estejam juntos, além de Flávio Dino, os deputados estaduais Bira do Pindaré e Eliziane Gama; o deputado federal Edvaldo Holanda Júnior; o ex-deputado federal Roberto Rocha, “numa aliança que inclua o PDT e os movimentos sociais”.

Candidatura

Nem mesmo a larga vantagem sobre os concorrentes faz o PCdoB definir se Flávio Dino será ou não candidato a prefeito nas próximas eleições. “O próprio Flávio Dino já disse e reiterou que a decisão de ser candidato ou não deve ser tomada no momento certo e considerando as posições dos aliados, muitos dos quais também pré-candidatos a prefeito”, justificou Jerry.

Nos dias 7 e 8 de outubro o PCdoB realizará a Conferência Municipal, quando os militantes do partido aprovarão uma resolução política sobre a sucessão municipal, mas ainda sem bater o martelo sobre a possível candidatura de Dino. “Vamos analisar o quadro político e definir um calendário de discussões internas, com os demais partidos e com a sociedade, para decidirmos o que fazer em 2012”, informou o dirigente comunista.

Pesquisa

No levantamento realizado dias 02, 03 e 04 de setembro, Flávio Dino lidera com índices que variam de 40,33% - no cenário com 10 candidatos - a 54%, quando são testadas 5 candidaturas. Ele também venceria as eleições no segundo turno com uma larga margem sobre Castelo ou Max Barros. Dino também detém uma das menores taxa de rejeição, um pouco acima de 10%.

sábado, 3 de setembro de 2011

Khadafi e a intoxicação ideológica.






Por João Quartim de Moraes *


No início de 2003 notamos no artigo “A doutrina Bush e a rapina do petróleo” (publicado na revista Debate Sindical) que, em vez de cumprir até o fim o anunciado acerto de contas com os acusados de ter feito os habitantes de Nova Iorque sofrer um apocalipse semelhante às chuvas de mísseis despejadas por seu governo na periferia pobre da ordem liberal-imperialista, o criminoso de guerra Bush filho estava concentrando seu furor genocida contra o Iraque, cujo governo sabidamente não mantinha nenhuma espécie de vínculo com os presumidos autores dos atentados de 2001.

Havia certamente um componente doentio na obstinação anti-iraquiana do então inquilino da Casa Branca, evidente na fixidez alvar, típica dos tresloucados, que paira em sua expressão facial. Mas não convém superestimar o aspecto psicopatológico de seu pensamento. Mesmo porque em dezembro de 1998, Clinton, seu predecessor, que não era louco, mandou bombardear Bagdá com violência sem precedentes desde 1991. Precisava distrair a opinião pública estadunidense do processo de "impeachment" que então lhe era movido por assuntos sexuais, mas, evidentemente, se usou a pele dos iraquianos para fugir da sanha dos alcoviteiros mediáticos, foi porque o aniquilamento de Saddam Hussein se inscrevia perfeitamente na lógica do belicismo imperialista.

O adágio “malandro não estrila” vale para a pequena criminalidade, mas não para o pútrido império dos dólares e dos mísseis. Basta ver a esplêndida arrogância do editorialista do Washington Post, replicando ao então secretário-geral da ONU, Kofi Annan (que ousara expressar tímidas reservas em relação aos bombardeios anglo-estadunidenses): “Os Estados Unidos e a Grã Bretanha são mais fiéis aos objetivos textuais das Nações Unidas do que as próprias Nações Unidas”. Na verdade os dois velhos sócios estavam tentando (não sem certo êxito) tornar a ONU uma casa de tolerância conivente com a pilhagem do planeta e o estupro de Estados e governos que não se inclinam ao “diktat” do cartel imperialista europeu/estadunidense.

Foi evidentemente o desmantelamento do bloco soviético, provocando a ruptura, em favor do bloco capitalista, do equilíbrio estratégico US/URSS, que permitiu ao cartel imperialista agrupado na Otan “esquecer” a missão “defensiva” em nome da qual ela tinha sido criada no início da guerra fria, para assumir a função de exército colonial, agredindo com bestial violência, sob os pretextos mais sórdidos e hipócritas, um número sempre crescente de países periféricos. Na própria Europa, que não tinha sido teatro de conflagração bélica desde maio de 1945, quando o glorioso Exército Vermelho entrou em Berlim, os abutres de Washington, Londres, Paris e adjacências destruíram a Iugoslávia, naquela que Fidel Castro qualificou de “la guerra la más cobarde de todos los tiempos”.

Notamos também, a propósito da alegação mentirosa de que o governo iraquiano havia acumulado armas de destruição em massa para atacar o "Ocidente”, que até então as únicas armas encontradas na região eram os mísseis lançados pelos matadores profissionais do Pentágono. Foi muito importante para que essa mentira prosperasse a contribuição da grande tropa dos sabujos mediáticos.

A intoxicação mental é uma indústria cultural altamente eficiente: satanizou Saddam Hussein a tal ponto que mesmo o jornal da Unicamp, universidade considerada a justo título uma das melhores do país, sucumbiu à histeria: seu Caderno Especial I (1), dezembro de 2001 consagrado ao “Bioterrorismo” anuncia, logo nas primeiras linhas do artigo bombasticamente intitulado “Ébola, varíola, antraz: o horror invisível” que um único membro do Taleban contaminado por varíola, andando no metrô de Nova York, pode causar a morte de centenas de milhares de pessoas em poucas semanas [...]. “Eles são bem capazes de contaminar algum suicida com esse intuito”, “alertou” uma infectologista de plantão. “A ameaça de uso de armas biológicas tornou-se mais real depois dos recentes atentados com correspondências contendo antraz nos EUA. Do possível arsenal a ser usado por terroristas fazem parte, além da varíola e do Bacillus anthracis, o vírus Ébola e a tularemia, entre outros”. Na ocasião, recomendamos a essa pesquisadora das infecções do corpo que se vacinasse contra as da mente. Mais tolas ainda foram as mentiras do periodista que organizou o abominável Caderno Especial. Papagaiando os celerados da Casa Branca e do Pentágono, ele escreveu que “pelo menos 12 países possuem comprovadamente armas biológicas, entre eles o Iraque, que sintetizou o Bacillus anthracis”. O escriba solerte só não contou de onde tirou essa “informação”.

São muitas as semelhanças entre o Iraque de 2003 e a Líbia de 2011. Ambos eram governados, até o estupro neocolonial, por um regime laico, oriundo da luta anti-imperialista das nações árabes, ambos tinham forte produção de petróleo de muito boa qualidade e mantinham, dentro dos limites das fortes pressões impostas pelo imperialismo, uma política externa independente. Ambos, enfim enfrentavam uma oposição heterogênea, composta de provocadores diretamente a soldo dos “serviços especiais” (Cia e sucursais europeias), de liberais de direita pro-imperialistas e de fundamentalistas islâmicos de extrema-direita. (No Iraque entretanto acrescentava-se o movimento autonomista curdo).

Muito semelhante também foi o uso da intoxicação mental contra os dois governos. Já me referi a um energúmeno de “extrema-esquerda” que num debate sobre a Líbia ao qual compareci declarou que Khadafi “massacrou trinta mil líbios”. Perguntei-lhe de onde tinha tirado esse número. Não respondeu porque sua estultice não ia a ponto de cobrir-se de ridículo admitindo que ouvira isso na Rede Globo ou “fonte” similar. Mas enquanto os “baba-ovo” papagaiavam o que liam e ouviam na mediática do capital, os três safados da cúpula da Otan (Camarão, Sarkozy e Berlusconi, este aliás menos aguerrido que os dois parceiros), empenhados na tentativa de recuperar, sob novos rótulos jurídicos, seus velhos impérios coloniais, continuavam intensificando os bombardeios ditos humanitários: entre junho e o final de agosto, quando os sicários da Otan e outros bandoleiros ocuparam Trípoli, esta capital foi bárbara e mortiferamente atacada.

Khadafi, dissemos mais de uma vez, tem seguramente muitos defeitos, mas sobra-lhe a coragem física e moral de que carecem os agentes do colonialismo que o caluniam. Entre seus detratores locais, a Folha conseguiu, “comme d’habitude”, ser a mais tartufa. É sabido que o policiamento ideológico em sua redação é implacável: é proibido escrever Fidel Castro, tem de ser, obrigatoriamente, o ditador Fidel Castro. Não surpreende pois, que ela tenha aplicado a Khadafi o mesmo epíteto pejorativo. Mesmo porque não foi só ela, mas praticamente toda a mediática do capital, embalada pelo pensamento único made in US, que participou do coro de uivos contra os patriotas líbios.

Mas a Folha fez questão de ficar na linha de frente do zelo pró-Otan. Em 30 de agosto, com Trípoli nas mãos dos saqueadores e outros delinquentes, o diário da “famiglia” Frias conseguiu em poucas linhas de uma chamada da primeira página escrever cinco vezes “o ditador Khadafi”. Tanto zelo terminológico seria menos ridículo se o jornal não escrevesse sempre “o presidente Costa e Silva”, “o presidente Médici” etc. Segundo os Frias e seus escribas, esses protetores da tortura não foram ditadores; no pior dos casos, teriam sido, como diriam, “ditabrandos”. Talvez por isso a Folha tenha emprestado ao Doi-Codi, para camuflagem, os furgões que distribuíam o jornal na madrugada, colaborando assim com os degenerados que prendiam e torturavam nossos companheiros, muitas vezes até a morte. Afinal, era imperativo defender por todos os métodos Deus, a Família, a Propriedade e até a “dimócraci”, numa palavra, o “Ocidente”. É o que Marx chamava de “suja rabiscadura jornalística”.


* Professor universitário, pesquisador do marxismo e analista político.




quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Roubini, a China e a reserva de mercado.





Por Elias Jabbour*


Fui chamado, virtualmente – e from – Paris, por um dos mais competentes economistas brasileiros da atualidade –, o professor da UERJ, Maurício David. A pauta seria a de um “relatório explosivo” escrito pelo economista Nouriel Roubini sob o título de “Growth Model: The Rising Risk of a Harding Landing After 2013”. Evidente que li e notei que o renomado economista não foge à regra da literatura anglo-saxônica. Como em Romeu e Julieta, o final é trágico.

Novamente, na Ásia, uma bomba atômica está prestes a estourar. E mais precisamente na China. Os signos deste arsenal atômico são vários: “altas taxas de investimentos”, “pouca participação do consumo na formação geral da demanda”, “estatais ineficientes”, “artificialização do mercado de terras”, “câmbio ultradesvalorizado”, “dívida pública na beira da irresponsabilidade”, “sistema financeiro na beira do precipício”, "um país administrado e subsumido a 'interesses provinciais mesquinhos”'. Talvez fosse melhor se os governadores provinciais e prefeitos não passassem de meros síndicos ocupados em tapar buracos nas estradas em detrimento de serem, de fato o que são, agentes locais do desenvolvimento econômico.

Evidente que devemos reconhecer que as preocupações de Roubini são plausíveis, afinal o mundo espera é da China, e não da Europa e dos Estados Unidos, uma resposta para a crise financeira. Normal. A coincidência é que as preocupações do Roubini são as mesmas do governo chinês. O problema da análise não se encontra no diagnóstico das contradições e sim na ênfase em determinados desequilibrios macro e microecononômicos e em velhas soluções de aporte empírico no mínimo duvidável. Por exemplo, apontar a solução dos imensos problemas da economia chinesa, notadamente da alta taxa de poupança e investimentos, apontando na direção da apreciação da taxa de câmbio e da privatização de estatais é algo no mínimo discutível. Onde isso deu certo? O nosso Nouriel não responde. Ideologia pura.

Não aponta que a solução por mais centralização e concentração do capital já está em curso há muito tempo na China sob a forma de uma imensa operação de fusões e aquisições no âmbito estatal nos últimos quinze anos e que desembocou na formação de 149 conglomerados estatais. Não aponta também que enquanto Krugman lamentava as características do “modelo asiático” (e comemorando o fato de o sistema financeiro coreano estar sendo tomado de assalto pelo FMI), esse processo de reestruturação produtiva sob os auspícios de um sistema financeiro estatal, logo imune a maldição da “preferência pela liquidez”, sustentava (e sustenta) um esforço que deixou o país quase imune às crises de 1997 e a atual. Seus cálculos microeconômicos sobre o retorno dos investimentos em infraestrutura são muito insuficientes, ainda mais quando se quer comparar uma realidade continental como a da China com países como a Islândia, Irlanda e levar à sério demais o caráter non tradable dos investimentos em infraestruturas para justificar, para tristeza de John Maynard Keynes, a pequena relação entre investimento e renda na China.

Ele diz que a questão é a transformação do modelo baseado em investimentos-exportações para outro baseado num maior consumo (transferência de rendimentos do capital para o trabalho). Ótimo e ele não descobriu a roda como muitos acham. Bastaria ler algumas páginas do seminal Business Cycles de Schumpeter para perceber. E isso (mudança de “modelo”), será que não está sendo encaminhada? Que economia (planificada ou não) nunca passou por problemas de sobre-investimentos? Ou ele não conhece (certamente conhece) o processo norte-americano de acumulação que se de um lado tornou a crise de 1929 plausível (pelo "sobre-investimento)", por outro este mesmo sobre-investimento foi essencial para enfrentar o pós-1929. Em Economia Política, determinadas escolhas tem de ser historicizadas, ou seja, se este modelo baseado na relação produtividade-câmbio está se esgotando, o importante é saber que esse modelo foi essencial para China e no fulcro dele está a solução que por sua vez é determinada pela política. Gorbachev ficaria apavorado diante de um relatório deste, não tenho dúvidas. Para os chineses, orientais que são, a contradição e os limites das coisas são parte essencial do processo e não uma aberração sem determinação histórica.

A economia e a sociedade chinesa são eivadas de problemas e o "modelo" está em passo de esgotamento. Disso eu não tenho dúvidas e já escrevi sobre isso algumas vezes. Agora propor soluções tipo "mais do mesmo" não levará a discussão a canto nenhum. A liberalização cambial virá a seu tempo: nos últimos anos a moeda chinesa valorizou mais de 20% com relação ao dólar. Talvez esta valorização não esteja em concordância com as vontades e desejos do governo norte-americano e do próprio Roubini. Os chineses conhecem como poucos o que significa um tal instituto chamado de “reserva de mercado”. Aprenderam isso com os mercantilistas que tiraram Macau de seu controle na metade do século XVI...


* Doutor e Mestre em Geografia Humana pela FFLCH-USP, autor de “China: infra-estruturas e crescimento econômico” e pesquisador da Fundação Maurício Grabois.


terça-feira, 16 de agosto de 2011

As criaturas da crise.







Por Luiz Gonzaga Belluzzo


Tem razão o economista Heiner Flassbeck: o âmago da crise que ora nos aflige está nos sistemas financeiros –bancos, quase-bancos e mercados de títulos, criaturas nascidas do matrimônio entre governos frouxos e “inovadores” incontroláveis.

Tangidos pelas normas da concorrência sem peias e, portanto, envolvidos na perseguição de resultados acima da média, os bancos e assemelhados- entregaram–se a um esporte de alta periculosidade. Lançaram-se- à aventura da superalavancagem e cultivaram a ilusão da diversificação de riscos, enquanto praticavam exatamente o contrário do que afirmava a teoria dos mercados eficientes: a disseminação dos ativos de mesma “origem”, todos de precificação enigmática.

A despeito de suas verdades e de sua força simbólica, a palavra “financeirização” diz menos do que estaria obrigada a revelar. Comprada pelo valor de face, a expressão obscurece a compreensão das leis de movimento do sistema econômico e social que hoje estrebucha sob o olhar desconfiado dos que promoveram sua derrocada. Assim, quase sempre são obscurecidas as conexões entre os desenvolvimentos da finança contemporânea e a globalização do capital produtivo. As relações entre esses fenômenos determinaram a rápida acumulação de capacidade produtiva nos emergentes asiáticos e a farra financeira nos submergentes do Primeiro Mundo. Esse “arranjo” engendrou na área desenvolvida a criação de empregos de baixa qualidade, a queda dos rendimentos da massa assalariada e o avanço assustador da desigualdade. Não faltou à festança a deterioração persistente da receita pública, matriz dos déficits fiscais produzidos por regimes tributários cada vez mais regressivos. Com tais ingredientes, o receituário dito neoliberal preparou a gororoba do “excesso” de endividamento público e privado.

A crise deflagrada em 2007 mostra de forma cabal a natureza e as consequências das reformas financeiras, fiscais e trabalhistas do início dos anos 1980 promovidas pela mão visível do Estado. Elas trataram de remover os controles que pretendiam impedir a subordinação das decisões de gasto geradoras de empregos, renda, lucros e impostos às avaliações diárias e voláteis do estoque de riqueza produzida.

As ditas reformas aceleraram as mudanças na composição e repartição da riqueza social, acentuaram as assimetrias entre o crescimento de países e regiões e aprofundaram as desigualdades na distribuição da renda entre as classes sociais.

Nesse ambiente, sucederam-se os episódios de “inflação de ativos” acompanhados da persistente fuga do capital manufatureiro para regiões de menor custo de mão de obra. Não espanta que, ao longo dos ciclos de prosperidade, fossem intensos os surtos de eliminação dos melhores postos de trabalho nas economias centrais. A desregulamentação e as novas regras fiscais montaram uma usina de desigualdades e uma fábrica de instabilidades.

É tolice, senão esperteza, buscar os “culpados” pelo desfecho desastroso das políticas adotadas a partir da “estagflação” dos anos 1970. Os slogans que proclamavam “mais mercado e menos Estado” não são menos ridículos do que a aceitação dessa falsa dicotomia por quem deveriam criticá-la. O jogo entre o Estado e os mercados cuida, com especial carinho, das relações entre as classes sociais, ou seja, das formas e condições de apropriação da riqueza e da renda entre os protagonistas antagônicos do processo de criação de valor. No capitalismo realmente existente, não há “espontaneidade” ou “naturalidade” nas normas que regem a acumulação de riqueza monetária e abstrata, obtida mediante a produção de novos valores (mercadorias) e o rastro de direitos representativos da propriedade e das relações débito-crédito.

O desenvolvimento da crise demonstra que a eficácia dos instrumentos de “intervenção” do Estado, leia-se, a carga tributária, os níveis de gasto e de endividamento do governo, estão submetidos à preservação do poder privado de acumular riqueza social. A “confiança” dos controladores privados do crédito é decisiva para conferir força e legitimidade à política fiscal e de endividamento público.

Se o desequilíbrio fiscal e o crescimento do débito público na composição dos patrimônios privados tornarem-se, na visão dos mercados, fenômenos profundos e duradouros, a desconfiança dos possuidores de riqueza se desloca das desgraças da finança privada para a situação financeira do Estado. Neste momento, os senhores do universo, salvos pela vigorosa intervenção do Estado, já consideram insustentáveis a trajetória das dívidas privadas e públicas, passivos que criaram generosamente na etapa da euforia inconsequente. O estoque de liquidez injetada nas reservas bancárias para adquirir a massa de ativos privados podres se recusa a produzir os novos fluxos de crédito para governos, empresas e famílias. A isso Keynes chamou de “armadilha da liquidez”, o predomínio absoluto do estoque de riqueza monetária e abstrata sobre o impulso a produzir novo valor, criando renda e emprego.

sábado, 13 de agosto de 2011

O anti-Celso Lafer.






Por Mauricio Dias


 
O novo ministro da Defesa jamais diria "o que é bom para os EUA é bom para o Brasil".

Já é possível traçar um retrato do novo ministro da Defesa, Celso Amorim, ainda que seja um ministro jovem no cargo. Jovem de poucos dias.

Na Defesa, Amorim ganhou muito mais visibilidade do que tinha nos longos anos que comandou o Itamaraty.

Funções distintas, ações distintas. Mas Amorim não retocou a forma de agir. Firme, sem ser rude, objetivo, embora diplomático, exercitou agora essas virtudes sob o fogo das críticas mais estapafúrdias. Chegaram mesmo a plantar notícias de reações nos quartéis, inventadas, em geral, por oficiais de pijama. Daqueles que reagem ao perceber que a grama já cresce à porta da casa deles.

Amorim tem mesmo vários pontos que desagradam ao establishment nacional e internacional. Isso ficou claro com o foco das perguntas ao longo das entrevistas que concedeu. Isso é atacado por argumentos tacanhos e genéricos, por se tratar de ideologia. Posições políticas contrárias às de Amorim não são ideológicas? Existiria no mundo alguém que comentasse qualquer coisa a partir de uma visão não ideológica?

Foram resgatar, por exemplo, artigos escritos por ele em CartaCapital, onde ele teria exercitado “ideias mais à esquerda”.

Nesse período, exerceu o papel de um articulista livre, sem compromissos. Isto é, sem as amarras das funções públicas e, assim, apresentou discordância com a decisão do governo Dilma de apoiar a resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU, que instituiu um relator especial para o Irã.

Amorim, já fora do cargo e em conversas informais, explicou que era uma discordância pontual, reafirmou apoio ao chanceler Antonio Patriota e pontuou também que os dois trabalharam juntos por 15 anos. Isso gerou uma relação de absoluta confiança.

O chanceler Amorim jamais tiraria os sapatos no aeroporto Kennedy, em Nova York, por exigência do protocolo imperial da segurança norte-americana. Um ritual humilhante obedecido, por exemplo, pelo ex-chanceler tucano Celso Lafer.

Em artigo escrito para CartaCapital, embora tenha atacado o preconceito ocidental contra os países islâmicos, que, segundo ele, levou à execução de Saddam Hussein, no Iraque, ressalvou: “Não sejamos inocentes. Interesses econômicos e políticos motivaram a decisão de atacar o Iraque”.

Amorim é o anti-Lafer.

Como ministro da Defesa, Celso Amorim também desarmou várias armadilhas contidas nas perguntas que respondeu ao longo das últimas entrevistas. Uma das indagações transmitia o sentimento contra a presença de um diplomata à frente da função recém-assumida. Teria sido formulada por “um oficial”, conforme foi relatado pela repórter porta-voz: “E se fosse um general mandando no Itamaraty?”

“Já houve ministro militar: Juracy Magalhães”, respondeu Amorim.

Ele pôs o ponto final da resposta no momento certo. Diplomaticamente. Poderia, no entanto, ter exposto o verdadeiro caráter da pergunta do oficial guarnecido pelo anonimato. A razão de Amorim talvez esteja no contexto político em que Juracy atuou. General da reserva, ele foi chanceler do também general Castelo Branco, primeiro presidente da ditadura. Foi então que formulou o lema inscrito hoje na bandeira do servilismo: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”.

Amorim é o anti-Juracy.


Fonte: CartaCapital