segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Arafat morreu ! Viva Arafat !





“Então repeti ao povo:

- Desperta do sono teu !
Sansão – derroca as colunas !
Quebra os ferros – Prometeu !
Vesúvio curvo – não pares,
Ígneas como solta aos ares,
Em lavas inunda os mares,
Mergulha o gládio no céu.”

Castro Alves



O filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1775-1854), em sua Filosofia da História, nos diz da existência de quatro espécies de homens que se distinguem por suas contribuições para o avanço do espírito na busca pela liberdade ao longo da História. Entre estes homens há o herói, cujo espírito funde o individual com o universalmente social na busca do absoluto. Ele é o sujeito da História e não importa por que meios, ou de que forma, o objetivo do espírito do mundo (Weltgeist) se fará real através dos seus atos. Ele fala por seu povo e executa a sua vontade. Por isso a moral do herói é a realização do espírito do mundo na busca da sua concretização. Ele está livre das convenções imediatas e seus atos só se farão medir pelo olhar secular do tempo histórico.

O líder palestino Yasser Arafat se encaixa na definição proposta pelo filósofo alemão. Protagonista de um dos principais entraves políticos da contemporaneidade – a questão palestina – Arafat escreveu uma das mais complexas biografias políticas da segunda metade do século XX e início do século XXI.

Com uma História recheada de dominações por povos estrangeiros - principalmente por sua localização estratégica e pela proximidade com os centros produtores de petróleo - a região da Palestina foi ocupada na Primeira Guerra Mundial pelos ingleses que, através do “acordo” de San Remo (1918) previa a criação de um Estado judeu na região. É bom que se diga que por Estado judeu entende-se a ocupação das terras por norte-americanos, ingleses, franceses e alemães que tinham por religião o judaísmo. Tal “acordo” causou intensa revolta entre os árabes.

Durante a II Guerra Mundial, o movimento sionista favoreceu a imigração clandestina e a compra de terras na região, expulsando os antigos moradores. Em 1947, com a irreversibilidade da ocupação sionista e com apoio das potências ocidentais, a ONU decidiu partilhar a Palestina entre um Estado judeu e um Estado árabe. Os árabes se sentiram enganados e queriam de volta suas terras ocupadas. A situação se agravou quando da proclamação unilateral do Estado de Israel (14 de maio de 1948). Os Estados da Liga Árabe entraram em guerra com o novo Estado, ao fim da qual, em 1949, o Estado judeu vitorioso expandiu-se para além dos seus limites, ocupando o que seria o então Estado árabe da Palestina. Este último ficou diminuído e repartido em dois: a Cisjordânia e o território de Gaza. Em 1967, na ‘guerra dos seis dias’ Israel, com sofisticados armamentos norte-americanos, derrotou o Egito, a Jordânia e a Síria e ocupou definitivamente essas regiões.

Esse é o palco onde Yasser Arafat passa a ser protagonista. Começou atuando na política ainda muito jovem e, em 1948, na primeira das guerras Árabe-Israelenses, estreou em campanhas militares. Inconformado com a invasão e posterior expulsão dos palestinos das suas terras, decidiu entregar-se de corpo e alma em defesa da sua gente sofrida e humilhada. Em 1952 presidiu a Federação Palestina dos Estudantes, onde ajudou a congregar jovens para a luta contra a ocupação dos territórios palestinos por tropas da Inglaterra. Em 1956 formou o primeiro embrião da organização que surgiria no Kwait em 1959, a Al-Fatha . Em 1965 o braço armado da Al-Fatha, Al-´Asifa (A Tempestade) iniciou ações armadas contra Israel.

Em 1969 foi eleito presidente da Organização para a Libertação da Palestina – OLP, que passou a se tornar uma coalizão de organizações político-militares autônomas, preconizando prioritariamente a guerra de guerrilhas contra Israel. Dirigindo a tendência moderada, Arafat foi se tornando progressivamente o principal dirigente da resistência palestina. Hábil político, conseguiu a atenção do mundo sobre o drama do seu povo e, aos poucos, foi mostrando os horrores que eram cometidos contra os palestinos por parte dos judeus dominantes.

Em 1982 aconteceu um dos episódios mais macabros da sangrenta luta pela emancipação palestina. O exército de Israel ocupou o sul do Líbano para desalojar os militantes da OLP que ali estavam instalados, protegendo os campos de refugiados palestinos. Arafat e seus homens foram obrigados a se retirar deixando desprotegidos os campos de moradores. No dia seguinte à retirada, milícias pró-israelenses (dizem que comandadas pelo próprio general Ariel Sharon, hoje atual primeiro ministro) massacraram jovens, velhos e mulheres nos campos de Sabbra e Chatilla. Uma investigação da ONU responsabilizou o governo de Israel pelo massacre e acusou Sharon de crimes de guerra.

Na missão de construir o Estado Palestino Arafat evoluiu de chefe de um pequeno movimento de libertação nacional para um estadista ganhador do premio Nobel da Paz, respeitado em todo mundo. Nos últimos tempos, impotente para vencer a força do inimigo, Arafat buscou por todos os meios diplomáticos o estabelecimento do Estado Palestino tal qual previa a resolução da ONU. Já no fim da vida, conseguiu somente uma autonomia relativa dos territórios ocupados. Mas a sua força se fez presente quando Israel, no início de 2002, cercou o quartel general de Arafat em Rahmalla e prometia destruí-lo, encerrando de vez com o maior líder palestino. Entretanto, o que parecia simples se mostrou complexo, e o poderoso exército invasor não teve força moral para assassinar Arafat, deixando-o em prisão domiciliar até sua saída para a França onde morreu.

O desaparecimento de Arafat não é o fim do ideal de autodeterminação do povo palestino na busca do seu Estado soberano. Por mil diferentes caminhos essa idéia se concretizará e o herói, mesmo morto, viverá em seu legado.

Nota: esse texto foi publicado originalmente no sítio do sinproesemmma em 2004, quando do desaparecimento do líder Palestino. Volto a publicá-lo em comemoração ao fato do Estado brasileiro ter reconhecido a legitimidade dos palestinos terem uma nação autônoma.

2 comentários:

  1. «Não afligirás o estrangeiro nem o
    oprimido, pois vós mesmos fostes estrangeiros no país do Egito. Não afligirás a nenhuma viúva ou órfão. Se o afligires e ele clamar a mim escutarei o seu clamor; minha ira se acenderá e vos farei perecer pela espada: vossas mulheres ficarão viúvas e vossos filhos, órfãos. Se emprestares dinheiro a um compatriota, ao indigente que está em teu meio, não agirás com ele como credor que impõe juros. Se tomares o manto do teu próximo em penhor, tu lho restituirás antes do pôr-do-sol. Porque é com ele que se cobre, é a veste do seu corpo em que se deitaria? Se clamar a mim, eu o ouvirei, porque sou compassivo.». (Ex. 22,20-26).
    Mesmo sendo um ateu convicto me emociono com textos tão belos e fico imaginando de que forma não deve estar a cabeça de qualquer jovem israelense da minha idade que, assim como eu, cresceu lendo estes textos e que agora tem que fazer o contrario em nome de um erro desumano de seus governantes dementes, que maquiados pela legitimidade de governar financiam via governo estadunidense a barbárie. Pobres são estes jovens israelenses que persistem num erro histórico. Mais um de tantos que irão entrar na trajetória da humanidade como a Historia do Genocídio.
    E mais pobres ainda são os jovens palestinos que terão de se sacrificar como homens bombas, pois não terão como responder há não ser oferecendo suas próprias vidas, que por hora não valem nada para o governo israelense.

    ResponderExcluir
  2. Parabéns pelo seu belo comentário! De fato Israel assumiu a posição de Golias e os Palestinos de Davi!!!

    Sem dúvida a causa Palestina é a mais grave chaga deixada pelo colonialismo inglês e o imperialismo dos EUA.

    Me emociono com a luta Palestina e utilizo o blogue para divulgar sua causa. Fico feliz que o governo brasileiro tenha tomado essa postura, agora já acompanhado pela Argentina, o reconhecimento do território Palestino aos limites de 1967.

    Quanto a Yasser Arafat é um herói, um martír, entrou para história contemporânea ao universalizar a luta do seu povo.

    Saudações.

    ResponderExcluir

Seu comentário será publicado após moderação.