sexta-feira, 25 de junho de 2010

A comida vai cair do céu.


*Aldo Rebelo

Sob o auto-explicativo título de “Farms here, Forests there” (Fazendas aqui, Florestas lá), foi publicado nos Estados Unidos, em maio de 2010, estudo patrocinado pela Associação Nacional de Fazendeiros (National Farmers Union) e pela organização não governamental Avoided Deforestation Partners, “Parceiros contra o Desmatamento”, em tradução livre.

A autora principal do relatório é Shari Friedman, ex-funcionária do governo Clinton, quando trabalhou na Agência de Proteção Ambiental (Environmental Protetion Agency – EPA), analisando políticas domésticas de mudanças climáticas e competitividade internacional. Também fez parte da equipe norte-americana de negociações para o Protocolo de Kyoto, que os Estados Unidos negaram-se a assinar.

O tema do relatório é a perda de competitividade da agroindústria norte-americana frente aos países tropicais, principalmente o Brasil. A tese principal do estudo é que a única forma de conter essa perda de competitividade é reduzir o aumento da oferta mundial de produtos agropecuários, restringindo a expansão da área agrícola nos países tropicais, por meio da promoção de políticas ambientais internacionais mais duras.

Segundo o relatório, “a destruição das florestas tropicais pela produção de madeira, produtos agrícolas e gado tem levado a uma dramática expansão da produção de commodities que competem diretamente com a produção americana”. Desse modo, “a agricultura e as indústrias de produtos florestais dos Estados Unidos podem beneficiar-se financeiramente da conservação das florestas tropicais por meio de políticas climáticas”.

O estudo avalia que “acabar com o desmatamento por meio de incentivos nos Estados Unidos e da ação internacional sobre o clima pode aumentar a renda agrícola americana de US$ 190 a US$ 270 bilhões entre 2012 e 2030”. Este aumento incluiria benefícios diretos de US$ 141 bilhões, decorrentes do aumento da produção de soja, carne, madeira e substitutos de óleo de palma e economias indiretas de US$ 49 bilhões em razão do menor custo da energia e de fertilizantes, pela redução das medidas compensatórias associadas à diminuição das florestas tropicais, ou seja, na medida em que os países tropicais poluírem e desmatarem menos, eles poderiam poluir e desmatar mais, sem ter que pagar por isso comprando créditos de carbono e outras medidas mitigadoras.

A candura com que eles tratam do tema é comovedora. O estudo revela que na cabeça deles não passamos mesmo de um fundo de quintal que precisa ser preservado para que eles possam destruir o resto do mundo com a consciência tranquila e, principalmente, com o bolso cheio.

Houve um tempo em que a divisão internacional do trabalho imposta pelos países ricos reservava para eles a produção de bens manufaturados e aos países pobres o fornecimento de bens agrícolas e matérias-primas. Hoje, vai se estabelecendo uma nova divisão: os Estados Unidos e a Europa transformaram-se em economias de serviço e grandes produtores e exportadores agrícolas, enquanto a produção industrial se deslocou para a Ásia.

Nesse novo esquema, países como o Brasil deveriam, na opinião deles, cumprir um novo papel: tornar-se uma espécie de “Área de Preservação Permanente Global”. Com isso se resolveriam dois problemas: o comercial, pois sua produção agrícola ineficiente se viabilizaria pela redução da oferta e pelo aumento dos preços internacionais; o outro ambiental, porque garantiríamos a compensação necessária para que eles continuem a manter seu atual padrão de consumo que exige a exploração dos recursos naturais globais acima da capacidade que a natureza tem de repô-los.

Tudo isso funcionaria muito bem, não fosse o fato de sermos um país de mais de 190 milhões de habitantes que precisam satisfazer as mesmas necessidades básicas que os americanos e europeus e que têm as mesmas aspirações de progresso material e espiritual, cada vez mais parecidas e universais no mundo globalizado.

Faz sentido, portanto, a defesa “desinteressada” que eles fazem dos chamados “povos da floresta”. Além de sua expressão quantitativa reduzida, esses brasileiros têm um padrão de consumo que não compete com eles no uso dos recursos naturais e torna perfeitamente viável o esquema de “fazendas lá e florestas aqui”.

Só não dizem o que fazer com os 190 milhões de nossa população que não vivem nas florestas e precisam produzir comida e outros bens para ter um padrão de vida digno. Para esses eles têm a solução que já aplicam na África, depois de arruinarem a produção local de algodão, milho, tomate e outros alimentos com os subsídios milionários que dão aos seus próprios fazendeiros: a chamada “ajuda humanitária”.

A continuar nesse ritmo, ao invés de comprar comida nos supermercados vamos acabar tendo que esperá-la cair do céu em fardos distribuídos pela Força Aérea Americana, pela Cruz Vermelha e pelo Greenpeace.

*Deputado Federal (PCdoB-SP), jornalista, escritor e relator do Código Florestal. Presidiu a Câmara dos Deputados 2005/2007 e foi ministro de Relações Institucionais do governo Lula.

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