sábado, 23 de janeiro de 2010

O enigma do dragão.



Estava esperando ancioso os números da economia chinesa referentes ao ano de 2009. Como sabemos, a partir de 2008 o mundo capitalista vive uma crise sistêmica, a maior desde 1929. Tanto neoliberais ortodoxos, como liberais keynesianos e a meia dúzia de trotskistas que ainda andam por aí, faziam coro com a eminente decadência da "economia de mercado" chinesa. O senso comum satisfaz sua cretinice simplesmente chamando a China de capitalista. Mas, mais uma vez, a China assombra o mundo e, ao contrário de todo capitalismo, cresce 8,7% em seu Produto Interno Bruto.

Esse feito só tem comparação com o realizado em 1930 pela então URSS. Naquele tempo, a crise devastou o mundo capitalista, ficando imune apenas a União Soviética, que cresceu 20%, enquanto as economias capitalistas amargavam o desemprego e a ruína. Vários estudiosos apontavam o fato da economia soviética ser demasiadamente isolada do sistema capitalista, que a deixaria fora das especulações que antecederam a "quebra da bolsa de Nova Iorque".

Mas nem isso serve para China. Com uma economia integrada ao sistema, o gigante do oriente aceita as disputas de mercado mas sem abrir mão do planejamento e da ação estatal. Esse modelo híbrido de economia de mercado sobre uma base planificada e estatal, chamada de "socialismo de mercado", não chega a ser uma novidade na construção do socialismo. Guardadas as devidas diferenças, foi Lênin quem primeiro elaborou a chamada "Nova Política Econômica", NEP, em 1921 na então URSS. Tal política é a convivência entre medidas socialista (estatização e planificação de bancos, terras, subsolo, transportes, energia e grandes empresas) e capitalistas (liberalização do comércio, dos salários, de empresas particulares e atração de capital estrangeiro para investimento direto). Ela é coerente com a idéia de que o socialismo é uma transição entre dois sistemas distintos, por isso mesmo sua forma híbrida, com a preponderância do poder político nas mãos dos trabalhadores.

Com esse modelo a China nos últimos 20 anos tirou 400 milhões de pessoas da pobreza extrema. Isso significa mais de dois Brasis. Bem mais que a antiga URSS e completamente impossível para qualquer país capitalista em qualquer época da história. É óbvio que a China têm problemas e que vai continuar tendo. Mas com 1,3 bilhões de habitantes, 4 mil anos de história civilizacional, uma língua oficial, o mandarim, que não tem tempos verbais (não existe pretérito, presente e futuro dos verbos) e a 3ª extensão territorial do planeta, a China mais uma vez passa pelo teste de fogo e desmente os apressados que só enchergam no seu crescimento um capitalismo como outro qualquer.

A pergunta que eu queria fazer desde 2008 permanece: se a China é simplesmente um país capitalista como outro qualquer, então como ficou imune à sua crise sistêmica? Só há duas respostas possíveis: ou a China inventou um "novo capitalismo", deslocando a centralidade do ocidente para o oriente, um capitalismo sem feições liberais (?), sendo atualmente o centro do capitalismo mundial ( o que é pouco provável pois que o dólar continua sendo o equivalente das trocas internacionais), ou de fato a China é um país não capitalista, isto é, socialista.

Eu fico com a segunda resposta.

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