domingo, 11 de outubro de 2009

"Uma humanidade em flor, à espera de seu destino".


Transcrevo entrevista que o jornalista e mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo, Fábio Palácio, concedeu ao blog do Walter Sorrentino. Palácio relaciona o debate sobre cultura nacional associado a um projeto de desenvolvimento, procurando fazer uma interessante conjunção entre o futuro do povo e o seu destino enquanto nação. Chamo atenção especial a idéia da "mundividência" enquanto "método" e lógica da atividade espiritual brasileria. Talvez, no meu entender, esteja aí o caminho para as investigações acerca de uma teoria do conhecimento revovada, atualizada com as novas determinações históricas e sociais, superando os "modelos universalizantes" e metafísicos e abrindo caminho para a criatividade dialética.


BLOG DO SORRENTINO.

Fábio Palácio é outro jovem a quem pedi colaboração neste espaço. Tem 35 anos, é mestre em filosofia, militante do PCdoB provindo da UJS. Atuou intensamente no Centro de Memória da Juventude e tem apreço pela cultura e saber.


Fábio, falei com outros sobre o mesmo tema e vou repetir a pergunta. Vivemos um novo ciclo de “redescoberta” do Brasil. O Brasil está na moda, aqui e lá fora, de certo modo. No final dos anos 1950 e início dos 60, tivemos a Bossa Nova, o cinema novo, a copa mundial de futebol, o CPC e o teatro levando o povo ao proscênio, posteriormente a MPB… Hoje, como você avalia o panorama cultural brasileiro hoje?


É realmente muito interessante essa ideia de uma “redescoberta” de nosso país. O Brasil é de fato uma nação que, como se tem dito, “está na moda”. Isso tem muito a ver com o que disse o presidente Lula em sua recente entrevista na revista norte-americana Newsweek: “Ninguém respeita a quem não respeita a si mesmo”. Essa afirmação, acredito, está na base deste novo momento da cultura brasileira, inclusive no que se refere à sua crescente projeção mundial.
Não que nossa cultura tenha nascido ontem. Como você mesmo afirma, Walter, ao longo das últimas décadas a cultura brasileira foi reverenciada pela importância e pela grandeza de suas manifestações. Na música tivemos Villa-Lobos, que é mais conhecido e cultuado na Europa do que no Brasil. E tivemos o movimento da bossa-nova, um dos momentos marcantes da música popular do século XX, que revelou um compositor da altura de Tom Jobim – com suas harmonias luxuosas, de extremo bom gosto e refinamento. Também no teatro o Brasil foi capaz de projetar um gênio como Augusto Boal, que surgiu no movimento dos CPCs da UNE e hoje é colocado pela imprensa mundial lado a lado com gigantes como Brecht e Stanislavski. Além disso, conseguimos deixar nossa marca na história da sétima arte com o cinema novo, talvez o mais importante movimento do cinema no século XX, ombreando-se com o futurismo russo, com o expressionismo alemão e com o realismo italiano. O Brasil também é muito reconhecido no campo do esporte. Recentemente o insuspeito diário esportivo argentino “Olé” classificou o futebol brasileiro como “de um talento inesgotável”. E isso porque nem falei de outras manifestações de nossa cultura, como a literatura, o artesanato, a gravura, a dança, a culinária e as manifestações folclóricas. O carnaval brasileiro, vale lembrar, é a maior festa popular do mundo.
No plano sociopolítico, a projeção de nossa cultura se deve ao povo brasileiro. Afinal, como afirma a proposta de Programa Socialista em debate no 12º Congresso do PCdoB, “o povo é o heroi e o autor da nacionalidade”. Nossas elites sempre cultivaram uma cultura cosmopolita, e só fizeram questão de abraçar a cultura popular quando cultivaram alguma veleidade de liderança e de projeto nacional. Situação muito semelhante nos é narrada por Gramsci em relação à cultura italiana, em especial em seu célebre Letteratura e Vita Nazionale.
Já no plano teórico-ideológico, a projeção de nossa cultura é uma vitória da vertente de pensamento que, como aponta Ariano Suassuna, remete a Euclides da Cunha. O autor de Os Sertões foi um homem que mergulhou no Brasil profundo e retirou de lá sua inspiração para pensar no futuro de nosso país. Na campanha de Canudos Euclides encarou o Brasil de frente, enxergou-o como de fato é e chocou-se com o que viu devido a seus próprios preconceitos de classe. Mas teve inteligência suficiente para superar esses mesmos preconceitos e reconhecer na gente simples do sertão não uma humanidade pior, mas melhor. Ou, como diria mais tarde Darcy Ribeiro, “uma humanidade em flor, à espera do seu destino”.
Essa corrente que tem Euclides como patrono se desenrola na Sociologia com Gilberto Freyre e Câmara Cascudo, na Literatura com Guimarães Rosa. Claro que o espaço me permite trazer à tona apenas os grandes vultos, e nossas escolhas têm sempre algo de arbitrário.

Pode-se dizer que a cultura nacional tem uma identidade própria perante o mundo?
Sim, o Brasil tem uma identidade a afirmar perante o mundo. E o que é essa “identidade”? Ela é antes de tudo uma mundividência, uma cosmovisão – isto é, um método próprio de pensar e sentir as coisas. Esse “método”, por sua vez, se materializa em hábitos, costumes, em um jeito de ser. Isso tudo a que me refiro está englobado no moderno conceito de “cultura”, ratificado pela UNESCO em sua Conferência Mundial sobre Políticas Culturais, ocorrida no México em 1982. Na ocasião foi proposta “a adoção de abordagens políticas que enfatizassem um conceito amplo, antropológico, de cultura, que incluam não apenas as artes e as letras, mas também os modos de vida, os direitos humanos, os costumes e as crenças”. Trata-se a meu ver de uma definição justa e ampla de cultura, que – ao contrário do que poderia pensar um certo marxismo ossificado – de forma nenhuma se coloca em oposição ao pensamento de esquerda e às aspirações dos setores progressistas. Muito pelo contrário.
No que diz respeito à identidade brasileira, ela tem suas raízes fincadas em nossa própria experiência histórica. Somos filhos da expansão ultramarina realizada por obra da nascente burguesia mercantil ibérica sob influência ideológica da contrarreforma católica. E como foi nossa colonização? Tomemos, para responder essa pergunta, dois curiosos personagens que figuram no panteão dos fundadores da nacionalidade: os padres Manuel da Nóbrega e José de Anchieta, responsáveis pela colonização em seus momentos primordiais. O primeiro era um político, o segundo um ideólogo-educador. Que tinham em mente para o Brasil? Um projeto chamado “salvacionismo”. O salvacionismo – que mais tarde, na obra do Pe. Antônio Vieira, comparece como a tese do “Quinto Império” – foi a ideologia que fundamentou a colonização jesuítica. Trata-se da ideia de que os índios não eram animais e possuíam alma, sendo, portanto, passíveis de salvação. A partir dessa ideia, os jesuítas pretendiam fazer da América portuguesa o locus de uma nova e verdadeira cristandade, realização da utopia do “milênio joaquinista”, em que a humanidade seria reconstruída em novas bases de solidariedade e igualitarismo, podendo com isso a felicidade e a glória divinas ser alcançadas ainda neste mundo. A ideia dos jesuítas era, portanto, a de fazer do Brasil um modelo para a humanidade, uma espécie de paraíso sobre a Terra. Poderíamos perguntar hoje: não teriam de certa forma os jesuítas, mesmo derrotados, logrado alcançar esse projeto?


Aliás, Aldo Rebelo sempre ressalta isso: Manuel da Nóbrega e Anchieta fizeram São Paulo não em torno de um quartel, mas de uma escola, o Páteo do Colégio é o marco de São Paulo…


Isso. A Educação em nosso país – em seus primórdios e mesmo ainda hoje – foi profundamente influenciada pelo salvacionismo jesuítico, fato que deitou marcas na personalidade do Homem brasileiro. Não por acaso, um dos traços marcantes de nossa personalidade coletiva é uma índole marcadamente religiosa. Esse temperamento tende a oscilar entre a mais completa fantasia mística e arroubos de lucidez, na maioria das vezes coexistentes dentro de uma mesma situação, configurando o fenômeno universalmente conhecido como “realismo fantástico”. Chico Buarque nos fala em “cidadãos inteiramente loucos, com carradas de razão”. Essa “loucura” anda frequentemente de mãos dadas com a genialidade, com o “talento inesgotável” de nosso povo, algo muito perceptível nas manifestações culturais do engenho humano, em particular nas artes e no esporte.
Além disso, é inegável que o povo brasileiro possui temperamento marcadamente lúdico. Esse caráter lúdico traduz-se em uma imensa afeição por jogos, brincadeiras e enigmas, os quais parecem permear mesmo os momentos mais sóbrios de nossa existência. Tudo para nós é motivo de riso e irreverência, elementos que sempre caracterizaram as mais ricas culturas populares. Somos um povo marcado por uma grande alegria de viver.
Outra de nossas características é a solidariedade. Há alguns anos foi realizada uma pesquisa para verificar qual a cidade mais solidária do mundo. E sabe quem ganhou? O Rio de Janeiro. Extraordinário, não? Nosso povo parece ter sido feito para a igualdade e a fraternidade – para o socialismo! Ora, não seria isso, afinal, a realização do projeto salvacionista dos jesuítas?


O mundo está atento ao Brasil?


Walter, escrevo essas linhas no momento em que o Rio de Janeiro acaba de ser escolhido como cidade-sede das Olimpíadas de 2016. Por si só esse fato já responde sua pergunta. De modo que eu desde já proponho outra: por que o mundo está atento ao Brasil?
Nos últimos tempos nosso país tem sido destaque na imprensa mundial. E a tônica é uma imensa simpatia por nossa nação. Em todas as partes o Brasil é adorado como sinônimo de alegria, de simplicidade, de humildade, de beleza, de felicidade. E isso se tornou ainda mais forte com a crise econômica mundial, que colocou na defensiva os países ricos, fazendo decrescer o prestígio dessas nações. Não é por acaso que o momento é tão bom para nosso país. Em plena crise trabalhamos, “fizemos o dever de casa” de forma simples e honesta e nos tornamos um exemplo para o mundo. Você tem alguma dúvida de que isso pesou na vitória do Rio nesta acirrada disputa para sediar os Jogos de 2016?
Neste momento olho o noticiário e uma notícia “salta” da tela do computador: “Diante do COI, discurso de Lula supera o de Obama”. Na matéria lê-se que “Obama, considerado um orador eloquente, fez um discurso frio, excessivamente sóbrio”, enquanto que Lula teria sabido tocar a alma de cada jurado com sua fala. Isso ocorre porque não era Obama quem falava, mas os Estados Unidos, nação atualmente em situação de defensiva, enredada em uma miríade de problemas internos que parecem não ter fim. Da mesma forma, não era Lula quem falava, mas o Brasil, país que vive um grande momento e passou a representar uma esperança para a humanidade, um caminho a ser seguido, uma “salvação” (sinto-me novamente tentado a lembrar dos jesuítas).


Politicamente, o trabalho realizado durante o governo Lula, particularmente na cultura, precisa de que desenvolvimentos? O que foi constituído está consolidado, é irreversível? O que você acha mais marcante, por exemplo, os pontos de cultura? O que vem se constituindo em termos de plataforma?


Sob o Governo Lula, o Estado brasileiro vem retomando seu papel indutor e regulador da produção e difusão cultural, promovendo políticas de fomento, financiamento e circulação dos bens culturais. Vem se perseguindo, desde a gestão do ministro Gilberto Gil, o objetivo de fazer da cultura, de fato, um direito básico do cidadão. Ações como a instituição do “vale-cultura” contribuem sobremaneira para incluir os bens simbólicos na “cesta básica” dos brasileiros. A recente proposta de reforma da Lei Rouanet busca a democratização do financiamento, o combate às desigualdades regionais e às distorções setoriais e, no melhor espírito republicano, a ampliação das contrapartidas sociais das empresas interessadas em investir em cultura.
O atual governo também tem perseguido a abertura democrática dos espaços e equipamentos públicos aos nossos artistas populares e ao grande público; a formação de conselhos de cultura nos estados e municípios; a ampliação do Programa Cultura Viva (Pontos de Cultura); a defesa da convenção da UNESCO sobre a proteção e promoção da diversidade das expressões culturais, adotada por essa instituição em outubro de 2005 e ratificada pelo Brasil por meio do decreto legislativo 485/2003; a ampliação do orçamento do MinC e do Fundo Nacional de Cultura; a ampliação das linhas de crédito de instituições financeiras como Caixa Econômica, Banco do Brasil e BNDES; a conjugação das políticas de cultura com as políticas educacionais e de comunicação; a instituição de políticas de educação para arte e qualificação dos artistas.
A aprovação do Plano Nacional de Cultura e a estruturação do Sistema Nacional de Política Cultural são iniciativas que podem contribuir para a consolidação desse projeto como política de Estado, tornando-o menos vulnerável a uma eventual má-vontade ou falta de visão dos governantes de plantão. No entanto, como em outras áreas, a mobilização do povo será fundamental para que mudanças significativas ocorram. E para isso devemos ser capazes de fomentar um amplo movimento em defesa da cultura brasileira – que estimule a democratização dos bens culturais, repense o papel do Estado na área e combata a imposição cultural estrangeira. Essa é uma iniciativa de fundamental importância para a soberania e o desenvolvimento de nosso país.


A juventude brasileira está ativa e atenta a todas essas possibilidades que se abrem?


Sim, e prova disso é que, segundo pesquisa do Projeto Juventude (2003), 91% dos jovens de nosso país têm orgulho de ser brasileiros. Muitos desses jovens têm desejo de participar. Isso fica claro quando observamos iniciativas como a do Centro Universitário de Cultura e Arte (CUCA) da UNE, projeto que conta com a liderança e o protagonismo de jovens democratas, socialistas e comunistas. Trata-se de um projeto ousado, forjado para enfrentar os desafios da disputa de ideias nas universidades e na sociedade, aglutinando artistas, estudantes, produtores e demais pessoas interessadas no debate sobre a cultura. Às vésperas de completar 10 anos de vida, é possível verificar o crescimento e o potencial do projeto. O CUCA vem abrindo canais e espaços de criação, circulação e distribuição da produção que hoje não encontra espaço na indústria cultural. Chegou a conquistar dez pontos de cultura, que viraram centros culturais espalhados pelo país. Há condições de transformar esse empreendimento em polo aglutinador de vários segmentos da área cultural, fomentando um amplo movimento nacional pela cultura brasileira, que impulsione bandeiras como a regionalização da produção televisiva, a destinação de determinado percentual do PIB para a cultura, a transformação do Programa Cultura Viva (Pontos de Cultura) em política de Estado por meio de instrumento legal, a defesa do artista nacional e da cultura popular brasileira etc.


Excelente, Fábio. Aprendi muito com esta conversa. Obrigado, volte sempre. O blog está aberto à contribuição


2 comentários:

  1. Podes crer, ficou legal! Alerto apenas para o fato de que a segunda pergunta ficou sem negrito, misturada às respostas.

    E o Congresso? Tá chegando, hein?

    Abrs,

    Fábio.

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  2. Já corrigi. Nos encontraremos em SP no início de novembro.

    Saudações.

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