sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Objeções ao artigo de Sarney.



Recentemente o senador José Sarney (PMDB-AP) publicou artigo sobre “a morte dos direitos individuais” (EMA, dois de agosto de 2009), em clara referência à crise do senado e a execração pública que ele e sua família estão sendo submetidos pela grande mídia. No artigo, levanta duas ordens de questões – uma teórica e outra política – para tentar explicar o que lhe acontece. Mas, no meu entendimento, não é isso que ocorre. Acuado, o senador tropeça nos argumentos, tenta agradar gregos e troianos e, por fim, não nomeia os responsáveis pela “morte dos direitos individuais”. Vamos aos argumentos que são objetos de minhas objeções.

I.Objeções teóricas
Sarney, do ponto de vista teórico, compreende a política como “a arte de harmonizar conflitos”, estando, portanto, excluída a guerra e a luta da sua definição. Fora dela, somente o “ser autoritário” faz da força “método” para alcançar seus objetivos. Hitler e Lênin são citados como exemplos da anti-política, cabendo a esse último a confecção do método da guerra aplicado à política, isto é, seria o líder bolchevique um adepto da não discussão de idéias, pois sua máxima era que “o fim justificam os meios”.
Levando-se em conta que é apenas um artigo de jornal, o senador Sarney deveria tomar mais cuidado com as simplificações teóricas. Logo essas que aparentemente demonstra ter tanto apreço. Ora, todos sabem que a época contemporânea, a nossa época, foi ‘parida’ pela revolução francesa! Todos nós, burgueses e proletários, somos filhos dessa revolução!O parto do nosso mundo começa com a tomada da bastilha a vai até a derrota de Napoleão Bonaparte! Toda a filosofia, o direito, as artes, a técnica e as ciências foram transformadas nesse período. Até o Brasil foi beneficiário desse processo, uma vez que a fuga de D.João VI, provocada pelas invasões napoleônicas, é um dos pressupostos da formação do Brasil como nação.
Os próprios princípios liberais – liberdade, igualdade e fraternidade – além dos direitos individuais, são coisas da contemporaneidade e, portanto, filhos da revolução burguesa e da luta entre as classes. Antes dos princípios liberais se tornarem hegemônicos na Europa e na América do Norte, os burgueses e o povo tiveram que se impor nas barricadas, nos campos de batalha e na guilhotina. Muito sangue foi derramado para que os ‘princípios individuais’ fossem universalizados e positivados em lei. Não foi somente um ‘debate de idéias’ entre a burguesia e o clericalismo da nobreza feudal que tornou o liberalismo político e econômico hegemônico na Europa e no novo-mundo. Foi também a “crítica das armas”!
Parece-me descabido do ponto de vista histórico, portanto, a definição sarneísta de política como a tentativa de harmonizar interesses diversos em todo e qualquer caso, independente das circunstâncias, excluindo para sempre a luta da esfera política. Essa definição, me parece, está mais para uma máxima do próprio Sarney, isto é, uma regra prática condizente com as inclinações da sua vida política imediata, do que uma determinação universal da razão, ou seja, uma determinação que vale para todo e qualquer caso, objetiva. Como máxima subjetiva, ela só é válida em determinados casos particulares e, mesmo nesses, deve ser verificado o escopo do seu alcance.
Ora, se a definição de Sarney para a ação política está sustentada em uma máxima subjetiva, então a disjunção absoluta que ele quer estabelecer entre ‘luta’ e ‘política’ é também um caso particular. A ciência política e a arte da guerra ou a arte política e a ciência da guerra há muito demonstram similitudes, relações e conexões. O próprio Aristóteles (que Sarney outorgou-lhe o título de fundador da “arte da política”, esquecendo do seu mestre, Platão, e da sua “República”) foi preceptor de ninguém menos que Alexandre da Macedônia, “o grande”. Não me consta que Alexandre persuadia seus adversários políticos. Pelo contrário! Ele universalizou as teorias aristotélicas na ponta da lança das falanges, abrindo caminho para os maiores impérios da antiguidade. Ainda sobre esse ponto cabe citar Carl Von Clausewitz e o seu trabalho clássico “Da guerra” (Vom Kriege, em alemão). Valendo-se do entendimento de que a lógica da guerra pertence à política e que esta orienta a condução da guerra em suas manifestações específicas, Clausewitz mostra como a guerra e a políticas têm aspectos em comum, principalmente no que se refere às ações políticas fortes, como a tomada do poder e a manutenção do mesmo. Portanto, mais uma vez, a disjuntiva sarneísta está equivocada, fruto das suas contingências subjetivas. Muito me espantou essa separação absoluta entre ‘guerra’ e ‘política’, principalmente vindo de um estadista, ex-presidente da nossa república.
A comparação entre Hitler e Lênin é um atentado a história política do século XX. O primeiro é um fascista, racista, que queria destruir as nações pelo poder militar, abrindo caminho aos oligopólios alemães. O segundo foi o líder da revolução russa que, tal qual a francesa em seu tempo, inseriu uma nova classe - o proletariado - na disputa pelo poder político. De fato, nada tão oposto quanto essas figuras históricas. Mas os equívocos sarneístas não param por aí. Lênin foi acima de tudo um grande político. Ao contrário de Hitler, não foi general, mas estrategista político e grande teórico. Quem, a véspera de uma revolução, escreve livros sobre economia e geopolítica (Imperialismo fase superior de capitalismo, de 1916), sobre teoria do estado (O estado e a Revolução, de 1917) que se tornariam clássicos para o entendimento do século XX e XXI? Só um grande preconceito sobre a figura de Lênin pode ocultar esses fatos.
Quanto atribuir a Lênin o pensamento de que “os fins justificam os meios” é risível! Ora, foi Maquiavel que afirmou, ao se referir no Príncipe, que “toda ação é designada em termos do fim que se procura atingir”, pois “os regimes não se mantém com padre-nossos”. Isso mesmo senador, foi Maquiavel não Lênin, que separou a moral cristã, medieval e individual, da moral política, autônoma, que atenda ao coletivo, ao estado. Da próxima vez que lhe acusarem de ‘maquiavélico’ direi que lhe falta subsídios para receber esta alcunha.

II. Objeções políticas.
Como num ‘salto quântico’, Sarney deixa a teoria e põe os pés no chão! Afirma que “na sociedade da comunicação” a guerra aplicada à política “é pior que a guilhotina”, é o “vale-tudo”, “insulto”, “calúnia”, “invenção e falsificação de provas”... Se o leitor for desatento e passar direto do ‘teórico’ para o ‘político’, achará que Sarney está falando de algum país do leste europeu no tempo da ‘cortina de ferro’ ou então da Alemanha hitlerista. Mas não. Ele está se referindo ao Brasil e a cobertura da grande mídia na crise do senado. A grande mídia declarou guerra política ao senador Sarney! Mas isso não era coisa de comunista? Não foi Lênin quem inventou essa história de guerra aplicada à política? Num passe de mágica e em contradição com o exposto anteriormente, Sarney descobre que não! Que não são os comunistas que tem a propriedade privada dos grandes meios de comunicação. Que a livre concorrência do liberalismo econômico leva inexoravelmente aos monopólios e aos oligopólios. Que a ‘liberdade de imprensa’, nos marcos da nova ortodoxia liberal, é apenas a liberdade que esses oligopólios têm de mentir, insultar e caluniar quem vai contra seus interesses particulares. Que os grandes meios de comunicação se apropriam da informação social, coletiva, e a transformam em mercadoria para auferir fabulosos lucros privados.
Ora, Sarney está experimentando um pouco do liberalismo ortodoxo das elites do sudeste. As mesmas que levaram Getúlio Vargas ao suicídio e apoiaram o golpe militar de 1964. Que elegeram Collor em 1989 e que hoje fazem campanha aberta para o retorno do PSDB ao comando do executivo. É por isso, senador José Sarney, que o senhor está sendo atacado! Com certeza o senhor sabe disso. Seus “direitos individuais” estão morrendo não por culpa de Lênin ou de um ditador fascista qualquer... Eles estão sendo assassinados pelas contradições internas do próprio liberalismo, pela evolução negativa da ortodoxia neoliberal, pelo poder titânico dos oligopólios industriais, comerciais e financeiros, contra quais os indivíduos nada podem fazer, como o senhor mesmo constata ao final do seu artigo.

III.Conclusão.
A exposição dos argumentos teóricos no artigo do senador José Sarney carece de profundidade conceitual e validação histórica. Sua pedra de toque, a definição da política como “a arte de harmonizar conflitos”, é particular, uma máxima subjetiva constrangida pelas inclinações sensíveis do momento. É uma definição que jamais pode ser universalizada, não atingindo, portanto, o nível do conceito. Argumentos que não contém conceitos não são, a rigor, teóricos, mas simples representações empíricas e subjetivas.
Quanto à separação entre ‘guerra’ e ‘política’, creio ter demonstrado que há uma vasta literatura teórica e exemplos históricos que sustentam essa relação. Sarney foi obrigado a omitir tais constatações para manter a coerência com sua máxima subjetiva sobre a política.

Por fim, a melhor parte do texto de Sarney é quando abandona sua representação empírica e passa a descrever à ação dos oligopólios da comunicação. O senador escamoteia na teoria o que na prática ele próprio demonstra. Ideologicamente tenta atacar a esquerda, politicamente constata sua impotência frente aos oligopólios de comunicação a serviço dos neoliberais. Perdido no meio do caminho entre sua ideologia ultrapassada e a força dessa 'máquina de triturar gente' que é a grande mídia a serviço dos neoliberais, o texto de Sarney nada diz de importante ou relevante. Fica evidente que não há nexo causal entre as duas ordens de questões (teóricas e políticas) que formam o artigo. Sugiro ao senador, em nome da coerência racional, que prepostere a ordem das questões, reformulando profundamente o seu arcabouço teórico, além de nomear seus verdadeiros algozes.
Link onde pode ser lido o texto de Sarney: http://colunas.imirante.com/marcosdeca/page/3/

4 comentários:

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  3. Essa do Sarney em dizer que a política está desvencilhada ou que existe um razão que a sapara diametralmente da arte da guerra, é brincadeira.
    A política pode até ser um instrumento para evitar a guerra no sentido lato, mas, dialeticamente, ela pode ser um dos atores em qualquer teatro de operações bélicas.
    Atualmente, estamos discutido a questão das bases estadunidense na Colômbia, e os esforços políticos estão sendo feitos para evitar a guerra aos povos perpetrado pelos EUA, mas também, no jogo político, esses mesmos povos não poderão abidicar da guerra como resposta política.
    A lógica aristótelica na qual Sarney se agarra para um definição da política é frágil ao negar uma das faces da política. Não é atoa que o Velho Marx foi buscar os primeiros argumentos do materialismo nas obras de Demócito e Epicuro, onde encontrou, em sua tese de doutoramento, os princípios de uma outra forma de ver o mundo a partir do que concebeu como materialismo histórico.
    Sarney se equivoca ao negar que no fronte da batalha política o horizonte da guerra é eminente, Lenin sabia disso . Ele trabalhava com as duas lógicas, a da guerra e da política como duas faces dialética do contexto de manutenção do Estado revolucionário.
    O Sarney está no olho do furacão de uma batalha política de grandes proporçoes e se comporta como um tolo, ao negar o inegável, aquilo que ele é, o seus decendentes são o resultado impoderável daquilo que ele representa. Tenta escamotiar o expediente se utiliza, os instrumentos que no Maranhão é detentor, seu império midiático e celula do PIG (partido da Impresa Golpista) que o ataca para atacar o governo Lula.
    Bela análise Cristiano.
    Um abraço
    Robson

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  4. Caro Robson.

    Sarney derrapa na teoria ao querer universalizar seu "conceito" de política. E o que é pior: não declina os nomes e os motivos por qual é atacado, preferindo o subterfúgio de uma ideologia liberal tacanha e descontextualizada.
    Essa história de ficar citando Lênin de maneira descontextualizada, não levando em consideração que o leninismo tem uma vertente nacional, que influencia fortemente a esquerda no Brasil, é querer se enganar quanto os destinos da luta de classes aqui no Brasil.
    Esse texto de Sarney não podia ficar sem resposta.

    Saudações.

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