sábado, 20 de junho de 2009

AO CAMARADA VLADÍMIR MAIAKÓVSKI.

Um belo dia, em algum ano da década de noventa do século passado, meu amigo Haroldão me mostrou um velho livro de poemas. O livro estava sem capa, riscado, sujo e ele me disse que tinha encontrado no meio de um monte de papéis na sua própria casa. Me entregou e disse para ler. Qual não foi minha surpresa ao perceber que o livro em questão era do poeta russo Vladimir Maiakóvski. E não foi só isso. O livro rasgado iniciava exatamente no poema "À plena voz" que é uma espécie de testamento que o poeta deixa para as gerações seguintes, dizendo quem foi e pelo que viveu. É um poema escrito para o futuro. É como se ele, de alguma forma, tivesse a certeza de que seu poema seria lido, sentido e interpretado por alguém no futuro. Em alguns trechos da leitura, senti mesmo que falava comigo, que estava vivo me dizendo da força quase absurda das suas palavras, do seu mundo difícil, das guerras, da revolução dos trabalhadores e da construção do socialismo.

Nunca esqueci aquele dia. A leitura do poema foi, de alguma forma, a realização do testamento de Maiakóvski. A todos uma seleta do poema "À plena voz" de 1930.

"Respeitáveis camaradas

herdeiros e descendentes!

Abafando a torrente de poemas,

passarei por cima de líricos livrinhos,

para falar aos vivos como se vivo fosse.

Meu verso chegará

através do cume dos séculos,

por cima das cabeças de poetas e governos.

Meu verso chegará,

Não como chega a seta lírica do cupido,

nem como velha moeda na mão do numismata,

nem como a luz das estrelas extintas.

Meu verso com esforço irromperá de sob a peso dos anos

e grosseiro, pesado, gritante, há de chegar,

como em nossos dias chegou o aqueduto de Roma,

tal como o fizeram os escravos.

Entre pilhas de livros, túmulos de poemas,

ao descobrir o ferro de minhas estrofes,

vós, com respeito, as apalpareis, como velhas armas perigosas.

Minhas páginas desfilando como tropas,

as linhas do front eu as passo em revista.

Os versos se perfilam pesados como chumbo,

prontos para morrer ou para a glória imortal.

Os poemas postados como um canhão atrás doutro,

apontam à distância, com seus títulos e letras enormes.

Os ditos mordazes, minhas armas preferidas, ei-los prontos,

sofreando o cavalo, a lança em riste, com rimas agudas,

prestes a galopar lanço um grito de guerra.

E todas essas tropas até os dentes armadas,

vinte anos de vitórias atravessaram,

a ti as dou, até a última folha, a ti, planeta proletário."


2 comentários:

  1. Obrigado Cristiano
    Um abração e também lhe adicionei entre os meus favoritos

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