quinta-feira, 21 de maio de 2009

O terceiro excluído. II parte.





(Cafeteira e Castelo extraído do blog do Scanssette).

No artigo anterior procurei demonstrar que o discurso 'Sarney- anti-sarneísmo' representa - lógica e ontologicamente - os interesses de classe das atrasadas oligarquias maranhenses, uma vez que configura como único universo de discurso possível a luta intra-oligáquica: “ou se é a favor de Sarney ou se é anti-Sarney”. Com isso a aristocracia opositora pretende afastar como ilegítima qualquer outra possibilidade política de mudança, excluindo importantes setores sociais da luta pelo poder do Estado. A esse modo tacanho e pueril de pensar a política estadual chamei de ‘princípio do terceiro excluído’.

O resultado desse discurso vazio é bem conhecido: as oligarquias no exercício do poder do Estado não se diferenciam nas práticas políticas e na gestão da coisa pública. Pelo contrário. É justamente na gestão do aparelho estatal que as semelhanças de classe afloram, de tal forma que - em governos sarneístas ou anti-serneístas- tudo permanece igual, apenas com o sinal trocado. A luta entre oligarquias é, portanto, uma negação puramente formal, mecânica, sem conteúdo. A negação formal não se diferencia, pelo contrário, se iguala, uma vez que basta estar do outro lado do conectivo para ser verdadeiro, sem, no entanto, ter diferença do conteúdo falso que se quer negar. O rastro de corrupção, enriquecimento ilícito, nepotismo, patrimonialismo e fraude eleitoral (captação ilícita de sufrágio) fazem parte da ficha corrida desses gestores. Quem adota o discurso do terceiro excluído é porque quer manter tudo do jeito que está.

Para comprovar essa ligação subterrânea, de classe, entre as oligarquias travestidas de 'situação' ou 'oposição', basta ver os últimos acontecimentos na província. Jackson Lago eleito sob a égide da mudança e da esperança do povo maranhense, logo tratou de reforçar os laços patrimonialistas e pôr na proa da 'nau libertária' velhos e conhecidos piratas. Sua idéia era derrotar Sarney através das mesmas relações de poder aristocráticas que sempre sustentaram o oligarca-mor. Os métodos e as práticas foram as mesmas e o resultado já sabemos: a eleição da múmia direitista João Castelo prefeito de São Luís e Madeira em Imperatriz. Ou seja, para quem foi eleito para mudar, Jackson reforçou o 'eterno retorno intra-oligárquico', dando sequência ao ciclo de poder secular das classes mandonistas do Maranhão. Ora, com a extrema direita mandando no estado e a congênita falta de pulso de Jackson, o governo logo se tornou anti-popular! Estavam, então, criadas as condições de, mais uma vez, fazer girar o ciclo das oligarquias, retornando Roseana Sarney! O governo Jackson é o único e verdadeiro responsável pelo retorno de Roseana Sarney ao poder do estado.

Nesse campo de indistiguibilidade entre oligarquias, o professor Wagner Cabral observa que "o discurso “libertador” transmutou-o (Sarney) num ser onipotente, por trás de tudo o que acontece no Maranhão. Até para fazer a crítica, copiam-no, basta ver um lema dos “novos balaios” (“Meu voto é minha Lei, Nunca mais Sarney”), que modificou a 2a estrofe do slogan de 1965 (“Meu voto é minha Lei, Governador Sarney”). Não seria este um caso freudiano de parricídio? Em que a rebelião dos filhos é uma homenagem ao patriarca, morto e transformado em totem, ancestral e modelo a ser seguido por uma nova geração morta de medalhões?". Essa só Freud explica!

Como vimos, o discurso anti-sarneísta é, antes de tudo, uma opção pela manutenção do atraso político do Maranhão, pois é apenas um lado de uma mesma moeda oligarquica corrente em nosso estado. Parte da esquerda adotou sem ressalvas esse discurso. Politicamente tornaram-se satélites dessas forças retrógradas, jogando água no moínho direitista. Parte desses setores foram seduzidos pela patrimonialização (recursos financeiros) advindos da máquina pública. Sem perspectivas de lutar pelo poder político, esses setores de centro-esquerda se acomodaram com as migalhas oferecidas, adotando a lógica do 'terceiro excluído' e procurando criar um 'atalho' pela direita pera derrotar Sarney. Em nome dessa lógica provinciana, esses setores foram tragados pelo pântano da corrupção intra-oligárquica, além de tornarem-se fâmulos das velhas e carcomidas aristocracias!

Ficou patente o fracasso da tentativa de derrotar Sarney pela direita! Não adianta mudar apenas os atores (todos canastrões!), sem, no entanto, deslocar às relações de poder que sustentam o mandonismo e excluem grandes parcelas do povo maranhense da luta pelo poder político. É preciso romper o ciclo intra-oligárquico! É necessário que se derrogue o 'princípio do terceiro excluído' da política maranhense! Ao contrário do que dizem, o pólo político que deveria estar excluído da disputa do poder estatal é o único capaz de romper com esse 'eterno retorno das múmias'! Ora, o que deveria estar excluído da luta política são, justamente, aqueles setores que almejam a mudança efetiva e as transformações nas relações de poder do estado. São os movimentos sociais organizados, os camponeses, setores médios do empresariado, intelectuais, artistas, acadêmicos e o proletariado urbano. São esses os segmentos que reúnem as condições democráticas, progressistas e de esquerda para quebrar o poder das oligarquias.

O que o discurso do terceiro excluído não diz é que, para derrotar a oligarquia hegemônica (Sarney), é necessário destruir todas e qualquer condições para sobrevivência das oligarquias. Portanto, é inviável derrotar Sarney pela direita! A tarefa do pólo democrático, progressista e de esquerda, é liquidar as condições de possibilidade de toda e qualquer oligarquia! Só assim, vamos superar as relações de poder que atravancam o desenvolvimento do nosso estado e condenam milhares de conterrâneos à falta de perspectivas e à miséria absoluta.
O terceiro pólo não pode mais ficar excluído da luta pelo poder político em nosso estado. Vamos botar o bloco nas ruas !






14 comentários:

  1. Caro Cristiano
    Muito bom, acho que pode ser por essa via analítica.
    Eu vejo a necessidade formularmos uma compreensão acerca dessa problemática. O terceiro excluido pode ser ou será essa terceiro elemento a partir de sua respectiva operacionalização.
    No tabuleiro estão as peças. As velhas peças já conhecidas e nefandas o Jackson jogou, pior, ele conseguiu envelhecer, em sentido lato, a já envelhecida da política maranhense, aquela que o patriarca mor cutua e se desloca como uma raposa velha e matreira tão bem conhece. queria jogar o jogo no terreno do adversario sem conhecê-lo totalmente.
    O terceiro excluído tem que ser um instrumento de renovação e ousadia, um instrumento catalizador na força cinética do povo pela via de um projeto construído pela esquerda do espectro político.
    Acho que ainda explorar a análise numa terceira reflexão, o que acha?

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  2. Caro Robson.

    Nem sei se posso! Na verdade os artigos do 'terceiro excluído' são apenas uma tentativa de refutar a provinciana lógica política do 'Sarney X anti-Sarney', desmascarar seu conteúdo de classe reacionário!
    Vc imagina que ainda hoje tem gente querendo uttilizar esse discusso para 2010!!!

    Saudações.

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  3. Caro Cristiano:
    Parabens pela excelente analise, so não digo que é perfeita por que o conceito de perfeição não pode existir na pratica, mas isso é coisa que o Cornelio Castoriades analiza melhor.hehehehehe!
    De minha parte afirmo a dor no coração de saber que boa parte da população (principalmente aqui em Imperatriz) se engana com essa falsa polarização sarney x jackson, que na verdade escamoteia as pespectivas reais de luta dos trabalhadores no sentido de socializar riquezas e fazer acontecer Politicas Publicasa de verdade!
    abraçao!!

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  4. há aqui alguns pontos a contestar das suas afirmações. Castelo não é nenhuma múmia política ressuscitada. Castelo sempre teve votos pra se eleger o Deputado Federal mais votado, a eleição que disputou a governador com Lobão foi mais uma eleição fraudulenta de Sarney assim como a primeira de Cafeteira com Roseano. Quanto a ser Governador, em eleição da Assembléia de Deputados, assim era da regra eleitoral. Os governos militares foram apoiados pelos civis. O Brasil vivia o clima mundial de embate da guerra fria. A esquerda promovia o terrorismo para tomar o poder. Do período militar o que pode-se dizer de mais grave foram os governos de Médici e Geisel. Os militares contribuíram e até hoje contribuem para o engrandescimento da nação. Na questão local o fato de do Dr. Castelo ter ganho a prefeitura é algo que precisou de mais uma pequena parcela do eleitorado, pois em todas as outras eleições, ele já tinha quase a metade dos votos. Ele é um administrador por excelência, com os políticos há isso, uns que são mais destacados no parlamento que no executivo. quanto a questão da Quimicanorte, eu acho louvável da parte de uma pessoa daqui ter pelo menos a iniciativa e a coragem de enfrentar grandes multinacionais e com inimigos poderosos. Mas acho no direito qualquer um insurgir-se, não embarcar na onda de ninguem.

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  5. Obrigado Carlos.

    Os impasses políticos e as contradições sociais do Maranhão são muito profundas. Em um certo sentido isso também requer rupturas políticas.Acredito que é preciso desconstruir as condições de possibilidade de toda e qualquer oligarquia.
    Acredito também que cabe as forças prograssistas, democráticas e de esquerda, junto com o povo, realizar a tarefa de libertar o MA do secular domínio oligárquico.

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  6. Sr. Cid Luís.

    Quando comparei Castelo a uma 'múmia' o fiz em sentido figurado, como uma licença poética, querendo expressar que ele representa politicamente as mais alienantes, anti-democráticas, exploradoras e atrasadas forças sociais do nosso estado e do nosso país. Como vc mesmo constatou são forças eleitorais, mas que nunca, desde Gardênia, tinham ganho no majoritário. Sua vitória em 2008, portanto, representa um retrocesso, o resgate de um político do regime de exclusão, anti-democrático, 'gestor de grandes e caras obras', igual ao seu homônimo político: Paulo Maluf!. É um político moldado no final dos anos 70. Ele nem consegue absorver as conquistas da 'constituição cidadã' de 1988 ! Como suas práticas são as mesmas, deduzi que ele está bem 'conservado', mantendo seu corpo por toda a eternidade...

    Quanto aos militares o governo Lula está fazendo mais em oito anos pela defesa e soberania do Brasil do que os entreguistas neoliberais que Castelo sempre apoiou: Collor, FHC etc., em vinte anos!

    Nada falei sobre a químicanorte, mas ao fato de que Castelo é um 'administrador experiente' é mais um mito dos anos 70! A única intervenção administrativa de Castelo depois que deixou de ser governador biônico foi na prefeitura de Dona Gardênia, sua esposa. E foi uma catastrofe!
    Acabo de ver pela tv imegens do socorrão II. É um absurdo ! A saúde tratada como joguete político, berganha eleitoral ! Castelo precisa demosntrar na prática sua propaganda elitoral. A cidade está esperando por isso.

    Obrigado pelos seus comentários e volte sempre

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  7. Oi Cristiano
    Esse artigo me inspirou, postei um novo artigo no meu blog, acho que pode ser uma complementação do seu.
    Um abraço
    Robson

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  8. Sr. Pneuma Ápeiron, Paulo Maluf, Fernando Collor, Jader Barbalho e Sarney etc, são hoje da base de sustentação do Dr. Luis Ignácio Silva.

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  9. Cristiano,

    Parabéns pelo artigo! É de uma profundeza política e de um conhecimento pouco comuns, o que, aliás, é uma característica sua.

    Acho inacreditável e até irracional alguém tecer elogios e achar adjetivos que possam justificar a eleição fraudulenta de um escroque como o atual Prefeito de São Luís. E o que é mais assustador, rememorar positivamente o pior momento político da história brasileira, taxando os movimentos revolucionários, que à época lutavam pela redemocratização do Brasil, de Terroristas. Essa Direitona não se emenda mesmo, só podem achar que todos somos bonequinhos de presépio, quê que é isso???? Não tenho como admitir um discurso desses.

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  10. Sr. Luís.

    Esses senhores não são criação política do Lula, pelo contrário, quando Lula chegou ao poder da república pelo voto de milhões de brasileiros já os encontrou...
    A questão de fundo é: de onde vieram, como foram criados e para onde vão ? Pois bem, vieram e foram criados do mesmo caldo de cultura política que o senhor João Castelo, do qual, aliás, nunca saiu e sempre permaneceu. E para onde vão? Os que apoiam Lula tem isso como atenuante em suas biografias. Como Castelo é oposição à Lula, então recai sobre ele um agravante no seu direitismo reacionário.
    É simples assim!

    Obrigado pelo comentário e volta sempre!

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  11. Caro Allan Patrício.

    Como vc disse não podemos aceitar esse discurso irracional que toda eleição graça pelas terras maranhenses! Cabe a todos nós desmascarar esses sofismas para que prevaleça a verdade do povo, das ruas e dos trabalhadores.

    Obrigado pelos comentários.

    Saudações.

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  12. Lula é que apóia a política econômica do governo anterior, está aí Henrique Meireles. Lula só fortaleceu oligarquias decadentes, péssimo para o Maranhão. O Muro de Berlim caiu para o lado oriental, agora é a vez da Coréia, há uma só Coréia, assim a imprensa deveria considerar, já que todos torciam pela reunificação da Alemanha, a Coréia tem que se livrar daquele didadorzinho comunista.

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  13. Sr. Luís.

    Faça a lição de casa: compre todos os indicadores econômicos e sociais do gov. FHC e do Lula e depois o sr. mesmo responda se a política econômica é a mesma ou não !!!Faça isso e tire suas dúvidas porque eu já não as tenho!!!
    Para mim basta o sepulamento da ALCA e a políica externa soberna para traçar um fosso entre os dois governos !!!
    Quanto ao Lula ter fortalecido 'oligarquias decadentes' não vale para o Brasil. Como diz um amigo "A Sé naõ cabe na Igreja de Santaninha, mas a Santaninha cabe na Sé", isto é, Lula derrotou a oligarquia financeira de São Paulo,do PSDB, vendedora e exploradora da nação brasileira! Ao fazer isso ele cria condições para a forças políticas progressistas derrotar as oligarquias regionais sarneístas ou anti-sarneístas !!
    Quanto as Coréias é uma questão que remonta a descolonização da Ásia e a guerra fria.É um problema complexo que não cabe simplificações!
    De minha parte desejo sorte para os Norte-Coreanos!!

    Saudações.

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