domingo, 17 de maio de 2009

O mestre dos espaços.



No dia 20 de novembro de 2007 o professor Luiz Pazzini apresentou uma peça do seu teatro experimental nos espaços do Centro de Ciências Humanas da UFMA, como parte da programação cultural do VII Encontro Humanístico.
A peça Diálogo das memórias: O imperador Jones foi apresentada a um público de aproximadamente duzentas pessoas. Elas tiveram que se deslocar pelos espaços inusitados da universidade para poder acompanhar o desenrolar do enredo. O público, a encenação, o texto e o deslocar pelos espaços interagiram em uma mesma composição claramente experimental, lançando luz sobre o pouco conhecido e debatido teatro contemporâneo maranhense. É sobre o impacto dessa montagem que trago ao público minhas impressões sobre o tema.
Existem duas trajetórias simultâneas e sobrepostas na montagem do Imperador Jones de Pazzini: de um lado a relação da composição com o espaço e o público e de outro o trabalho com o texto.
Desde Brecht o espaço da composição teatral sempre é um problema complexo de enfrentar. A relação ator-público, teatro-realidade, estética-ontologia, representa os diversos níveis em que perpassa esse debate. A proposta de Pazzini é a articulação dos espaços de forma que atores e expectadores relacionem-se reciprocamente, interagindo corpos, vozes, gestos, ocasionando ruídos que não podem e nem devem ser desprezados durante a encenação. Os contatos, incontroláveis e imprevisíveis, são assimilados pela composição, causando uma flutuação no agir cênico.
O Ator-público-meio interage em uma totalidade de contrários, evidenciando uma unidade, ainda que efêmera, de elementos distintos. Essa emersão da ação cênica em espaços inusitados, interagindo com um público-supresa, é a mistura de onde sai o choque de realidade: a efemeridade de uma unidade de opostos, matéria prima com qual o experimento procura trabalhar.
A relação do público com o experimento teatral foi, sem dúvida, a parte mais importante da composição. Aqui se deu o resultado do choque de realidade: risos, medo, espanto, curiosidade, admiração, críticas, surpresa e desinteresse, foram os sentimentos emitidos pelo público presente. Nada mal para quem arrisca no desenvolvimento de novas linguagens e procura integrá-las ao cotidiano de um espaço de estudos e trabalhos.
Esse ‘choque’ intencional parece procurar provocar um rompimento com a apatia e causar um turbilhão de sentimentos em quem de alguma forma participa. Sentimentos esses que vão do desconforto consigo e com o que nos rodeia, ao ódio e a angústia. Não se trata, aqui, a meu ver, de criar um desconforto imaturo e juvenil de um existencialismo subjetivista, mas, sim, o de demonstrar o incômodo da fragmentação de perspectivas, do choque objetivo das contradições de uma realidade e de um mundo de guerra, miséria, violência e ignorância. Um desconforto por uma realidade incompleta, individualista e medíocre, que se contenta no seu próprio mal estar.
Mas não para por aí! O desconforto é o caminho que conduz o expectador para a reflexão, para o aprendizado, para a ação! O próprio acompanhar do desenrolar da peça requer um percurso, uma vontade, uma dúvida que conduz o expectador até o fim. O sofrimento, a angústia, é a ascese necessária à compreensão, ao auto-entendimento da obra e de si mesmo.
Ao romper com a cisão entre ator-expectador, em um espaço inusitado, sobressai ainda outra proposta que deriva reflexão: as conseqüências sobre a relação entre arte e cotidiano, entre ‘espaço-morto’ e ‘espaço-vivo’ na arquitetura onde trabalhamos e vivemos. A composição cênica de Pazzini se desenvolve em locais comuns de trabalho, estudo e nos ‘espaços-mortos’ - aqueles que aparentemente parecem não ter utilidade- da nossa universidade.
Ao expressar trabalho artístico em um espaço não utilizado – ‘espaço-morto’ - recompomos a própria noção de espaço a partir do sujeito (ator-expectador), que, ao encontrar arte onde não deveria ter nada, quebra o utilitarismo que fraciona os espaços da vida, fazendo da cena teatral em um lugar inusitado uma profunda crítica à divisão do trabalho, fator preponderante da alienação dos espíritos. O espaço, então, não é mais compreendido como um espaço geométrico, matemático, que distancia e separa, mas sim, como um espaço público, vivo, atual e possível. Um espaço aberto para nossa ação. Essa é uma característica singular do trabalho de Pazzini.

O texto escolhido por Pazzini foi o Imperador Jones do autor norte-americano Eugene O’Neill, de 1920. É um texto complexo, que introduziu o expressionismo na cena teatral estadunidense e que mexe com alguns dos dramas mais caros à contemporaneidade. Jones é um negro pobre que ascendeu através de um crime à condição de um rei déspota e tirano cujos súditos são também negros. Esses se revoltam, tomam o poder e levam Jones à morte.
Mas é em cena que os diálogos mostram a psique caleidoscópica dos personagens. No longo diálogo introdutório – que na montagem foi executada por quatro atores, dando dinâmica, velocidade e centralidade ao prólogo – deixa transparecer todos os caminhos psicológicos, políticos e sociais que aparecem no debate entre Jones e seu assessor Smithers.
Pazzini também coteja o texto de O’Neill com outros textos, selecionados a partir de uma vivência própria, de outras montagens, cujo resultado é uma seleta de passagens que ruminam sentenças que anteriormente já foram ingeridas pelo público. Temos, assim, o desfile de autores teatrais e filósofos do porte de Walter Benjamim, Bertolt Brecht, Albert Camus, George Orwell, Heine Müller. E, como não poderia deixar de ser, o ingresso de autores como Lenita de Sá e Maria Firmina dos Reis, essas últimas trazendo para nossa aldeia o universal do expressionismo norte-americano.
O trabalho com o texto em um experimento teatral é a ponte entre o público e a obra. Essa ponte é a linguagem. O choque de realidade é, antes, um atravessar de horizontes lingüísticos, um estranhamento na comunicação, um jogo entre o dito e o não-dito, onde o expectador reclama do deslocamento em seu entendimento imediato, mas, mesmo assim, acompanha os signos impressos na montagem do texto, pois no seu íntimo reconhece o que a princípio lhe parece distante e inacessível.
Aqui, mais uma vez, Pazzini leva ao limite o trabalho com o texto. Ao que parece ele não tem medo de arriscar na narrativa fracionada do seu teatro experimental. E o resultado é sempre surpreendente.
Com todas as dificuldades inerentes ao fazer teatro em nosso Estado, na nossa cidade e em nossa universidade, enfrentando toda sorte de carências e falta de apoio, Pazzini e seu grupo não temem experimentar novas linguagens teatrais. O choque de realidade e a reação do público-surpresa se torna mais real, menos óbvio e por isso mesmo mais interessante. A UFMA e o seu curso de teatro estão de parabéns.
Se pudermos caracterizar o trabalho de Pazzini na cena teatral maranhense com apenas uma oração, poderíamos afirmá-lo que se trata sem dúvida do mestre dos espaços.

6 comentários:

  1. Cristiano,
    Obrigado por trazer à tona um tema tão interessante e escrito de forma saborosa.
    Ed Wilson

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  2. Caro Ed.

    Precisamos pautar mais arte. Não é um luxo, é uma necessidade...

    Você também é um dos nossos!

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  3. Capovilla, considero o professor pazzini um homem da arte. um homem do teatro. já o entrevistei na rádio timbira AM. uma beleza de conversa. um lutador em defesa da estética popular nacional.

    abraço a todos

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  4. É verdade Marden! Desde quando entrei na universidade o trabalho de Pazzini foi o mais - senão único - constante trabalho teatral-acadêmico. E olha que não havia curso de teatro.

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  5. Excelente a leitura estética do trabalho de Pazzine. Tive a oportunidade de vivenciar alguns trabalhos dele, com alunos do curso de artes e com o Grupo de Teatro Universitário, um teatro que não se traduz só em imagens, mas em palavras, ações, personagens, o envolvimento do espectador, na proposta cênica,o texto, enfim o fazer teatral como construção e a reflexão a cerca do cotidiano. A arte é vida.

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  6. Cara Márcia.

    Todos nós nos lembramos das peças do Pazzini pelos corredores, rampas, salas e salões do CCH da UFMA. Podemos dizer que também participamos desses experimentos, vivenciamos esses momentos que, sem dúvida, ajudaram a compor nossa formação acadêmica.

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