quinta-feira, 14 de maio de 2009

Ao 13 de maio.


Sobre a escravidão no Brasil muito já foi dito e muito mais há que se dizer. O entrelaçamento entre a questão étnica e a escravidão na formação social brasileira é um universo histórico-social 'mais-que-complexo' ! Mas é fundamental que digamos alguma coisa.

Queria apenas falar sobre um dos processos que participam desse entrelaçamento social e histórico: o cultural, no sentido romântico do termo.

Os românticos alemães especulavam sobre o 'volksgeist', o 'espírito do povo'! Segundo eles, é aí que se encontra a nacionalidade popular, cultural, as raízes mais profundas que identificam um povo, uma nação, uma pátria. É onde está quem nós somos, em que acreditamos e por quais motivos vivemos. Pois é aí também (não somente) que reside a força do negro feito escravo no Brasil. As raízes africanas que constituem o elemento nacional - o 'espírito do povo'- são indistintos na formação social bresileira. Na lógica chamamos de 'indistinguibilidade dos idênticos', isto é, a África e o negro são constituintes fundantes da nacionalidade popular brasileira e em hípotese alguma podem ser separados.

É no fundamento mais profundo do 'espírito do povo', da psiquê, da 'alma' nacional, que aparece a força viva que venceu a escravidão, a pobreza e a discriminação ! Dizem que a força de um povo se mede pelo alcance do seu espírito. Pois bem: somos um país construído materialmente e espiritualmente pelos negros africanos e brasileiros ! Por isso nosso povo é grande e vai longe!
Sabemos que essa similaridade espiritual está longe de ser também material em nosso país. As desigualdades e o preconceito ainda marcam nossas existências. Mas a força da cultura, do 'espírito do povo', tudo venceu e se faz presente... Por isso acredito no futuro, na igualdade e na liberdade do nosso povo, do nosso país...Que um dia se tornará um grande arraial com seus filhos todos iguais nas suas diferenças. Uma unidade dialética de diferenças irmanadas no 'espírito do povo'!

Eu sou daqueles que tem orgulho dessa origem ! Digo mais: sou vaidoso da minha origem africana ! Em cada imagem da Africa ou do Brasil, em cada dança brasileira, em cada batucada, bumba-meu-boi, chorinho ou bossa-nova, reconheço, destaco e me alegro com o espírito dos meus antepassados africanos.

A eles ( ao espírito dos antepassados) e aos contemporâneos ofereço os imortais versos de Castro Alves (seleta) "Saudação a Palmares" nesse 13 de maio.



"Nos altos cerros erguido
Ninho de águias atrevido
Salve - país do bandido!
Salve - pátria do jaguar!
Verde serra, onde os palmares
- Como indianos cocares -
No azul dos colúmbios ares,
Desfraldam-se em mole arfar!

Salve! Região dos valentes
Onde os ecos estridentes
Mando os plainos trementes
Os gritos do caçador!
(...)
Palmares! a ti meu grito!
A ti, barca de granito,
Que no soçobro infinito,
Abriste a vela ao trovão,
E provocaste a rajada,
Solta a flâmula agitada,
Aos urros da marujada,
Nas ondas da escravidão!

De bravos soberbo estádio!
Das liberdades paládio,
Tomaste o punho do gládio,
E olhaste rindo para o val.
"Surgi de cada horizonte,
Senhores! Eis-me de fronte!"
E riste...Riso de um monte!
E a ironia de um chacal!
(...)

Salve - Amazona guerreira!
Que nas rochas da clareira,
- Aos urros da cachoeira-
Sabes bater e lutar...
Salve! - nos cerros erguidos -
Ninho, onde em sonho atrevido,
Dorme o condor ... e o bandido
A liberdade... e o jaguar !"

2 comentários:

  1. Oi Cristiano
    Legal essa postagem. São daquelas questões que devemos sempre reverenciar ou colocar no debate para que possamos avançar na discussão acerca da desigualdade, seja ela "racial", social, econômica ou de qualquer matiz.
    Vejo com alagria essa questão ter sido trazida aqui para seu blog.
    Em tempo: fiz nova postagem, é sobre a crise e suas relações colaterais.

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  2. Obrigado Robson. Isso vindo de vc me deixa mais contente ainda.

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