quinta-feira, 30 de abril de 2009

O terceiro excluído. I parte.

Aristóteles (século IV a.C.) sistematizou o que seria as regras do pensamento válido, isto é, regras através das quais o sujeito poderia pensar corretamente evitando inconsistências e falsidades nos seus enunciados. Criava então as “leis da lógica clássica” ou “lógica aristotélica”, ou ainda, “lógica formal”. Com esse instrumento (organon) esperava que fossem afastados todos os entraves que porventura atrapalhassem as inferências do raciocínio. Entre essas “leis do pensamento correto” estava o princípio do terceiro excluído.
 Esse princípio, deduzido do princípio da identidade (toda proposição é idêntica a si mesma) e do princípio da não-contradição (uma proposição não pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo e sob um mesmo aspecto), afirmava que toda proposição é verdadeira ou falsa não havendo qualquer outra possibilidade. Essas formulações nos ajudaram por milênios na formalização de sentenças, na axiomatização da lógica e finalmente na criação das chamadas ‘linguagens de máquinas’, que hoje equipam nossos computadores.
Entretanto, em que pese suas indiscutíveis aplicações, a lógica aristotélica também foi responsabilizada por estreitar os caminhos da racionalidade ocidental por mais de dois mil anos! Ora - dizem os críticos – a vida e o mundo não são formados apenas por sim e não, verdadeiro e falso, o bem e o mal etc. A própria racionalidade não pode ficar refém de um universo bipolar que exclua outras possibilidades ou mesmo não aceite a contradição. No campo da filosofia coube a Hegel e depois Marx desenvolverem a dialética e, nas ciências naturais e formais, sugira a mecânica quântica e as lógicas não-clássicas que derrogaram definitivamente os princípios aristotélicos. Aquilo que Aristóteles achava que eram leis universais da razão, são agora leis específicas de uma lógica particular.
Pois bem. Vivemos na política maranhense o império da lógica formal! O princípio do terceiro excluído aparece aqui como um princípio lógico da política local: se é a favor de Sarney ou se é anti-Sarney não se aceitando qualquer outra possibilidade política. Essa lógica política provinciana divide o mundo em dois pólos – tal qual o princípio aristotélico – um verdadeiro outro falso, deixando o arco-íris com duas cores e resgatando o maniqueísmo religioso das comunidades primitivas: o bem contra o mal. Mas qual é o fundamento histórico-social dessa lógica política ? O que ela tem de real e irreal na vida dos maranhenses ? É isso que queremos investigar nesse pequeno texto.
Do ponto de vista prático, vários observadores já apontaram que a lógica anti-sarneísta serve para encobrir com o manto da moralidade toda sorte de irregularidades e ilegalidades cometidas ao erário público. Como uma espécie de salvo-conduto que permitiria ao seu portador uma desculpa antecipada pelos crimes contra o patrimônio público e o enriquecimento ilícito. Uma sentença do tipo: “roubei e sou incompetente na gestão pública, mas sou contra Sarney e, por isso, estão justificadas minhas ações”, só pode ser aceitável em um universo de discurso onde está excluída uma terceira possibilidade. No campo da prática, no espaço ético, já foi desnudado a visão anti-sarneísta. O que me interessa agora é tratá-la do ponto de vista teórico.
Teoricamente o anti-sarneísmo elevado à condição de lógica política, sustentado pelo princípio do terceiro excluído tem, na verdade, duas vertentes: uma lógica e outra ontológica. Na primeira, do ponto de vista político, tem o valor de uma abstração vazia, isto é, nada diz sobre o objeto que se quer negar e, mesmo depois de negado, tudo permanece igual, apenas com o sinal trocado. É uma negação puramente formal, mecânica, sem conteúdo, que se basta a si mesma na sua própria ação. É uma espécie de ‘coisa em si’ da política maranhense. A negação formal não se diferencia, pelo contrário, se iguala, uma vez que basta estar do outro lado do conectivo para ser verdadeiro, sem, no entanto, ter diferença do conteúdo falso que se quer negar.
Já do ponto de vista ontológico, o anti-sarneísmo tem por fundamento histórico-social os interesses de classe da oposição oligárquica a oligarquia Sarney, isto é, é uma lógica política de conteúdo intra-oligárquica. Ao excluir a possibilidade de uma terceira alternativa ao grupo Sarney, as elites oligárquicas opositoras, cuja raiz se encontra no vitorinismo, se pautam como única saída política contra a oligarquia dominante. Ao negarem uma alternativa progressista ao grupo Sarney, a oposição de direita nega qualquer saída do mundo bipolar das oligarquias seculares maranhenses. Por trás do discurso anti-sarney se esconde uma lógica de classe intra-oligárquica, dicotômica, na qual o mundo político maranhense só pode ser dividido e governado pelas aristocracias que sempre dominaram nosso estado. Durante as últimas eleições municipais ficou claro o papel desse discurso: eleger o oligarca-mor João Castelo como única saída para combater Sarney!
Essa lógica política foi importada por setores da esquerda que, por sua fragmentação e fraqueza política, sempre procuraram um ‘atalho’ – mesmo que seja pela extrema direita – para derrotar Sarney. De fato, a adoção dessa lógica de classe reacionária que divide a política maranhense entre as oligarquias, representa a falta de um projeto político próprio das esquerdas, que agregue amplos setores democráticos e progressistas que não aceitam mais essa lógica pobre de opções e de futuro.
Por fim, a adoção da lógica de discurso anti-saneísta, pautada no princípio do terceiro excluído, é a própria afirmação de que o Maranhão deve permanecer sobre o tacão de alguma oligarquia. Além disso, ao dividir o mundo entre as oligarquias maranhenses, a oposição a Sarney o favorece, pois nesse mundo intra-oligarquico ele é o rei.
Em um próximo artigo pretendo demonstrar como essa lógica oligárquica quer subverter a racionalidade política e rebaixar as perspectivas de avanço para nosso povo, além, é claro, de agregar em torno dela toda sorte de oportunistas e pilantras de plantão.

12 comentários:

  1. Bom, agora é esperar a próxima parte da análise, entretanto, me reportarei a que já foi postada.
    A realidade evidencia que na questão do sarneísmo a alternativa não é maniquísta e pautado por uma lógica formal. É necessária uma dialética, pois as analises anacrônicas, capitaneiada por setores da "esquerda" maranhense, já demonstraram sua exaustão.
    A questão da análise política é mais profunda, é necessária destruir o âmago da tese que sustenta a unidade da força saneysista.
    O Maranhão, com todo o retrocesso que representa a volta da Roseana, passa por um momento sui generis, pois o construto, os pilares da legitimação do domínio foram abalados. Há um vácuo, algo diferenciado surgiu, não é algo parecido com as teses do defensores da teoria do caos, ma é um elemento, lógico- seria o terceiro excluído esse elemento analítico que falta para formulamos ou compreendermos a dinamica do movimento das peças do tabuleiro do sarney? o movimento passa por essa explicação lógica, a dinâmica e essa? Existe outros elementos analíticos não explorados?(aguardo continuação da análise, pois está interessante), talvez hipotético diferenciado, enfim, um elemento novo que pode ser estimulado a se revelar.
    Acredito que a reglutinação de forças e em novas condições poderia ser rearanjadas. Não discartamos alianças táticas com setores da burguesia oposicionista, porém evitá-las ao máximo e fazer a aproximação necessária para garantir a vitória.É um processo que se retroalimenta, não podemos ser ingênuos.

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  2. Caro Robson Câmara.
    Você de Brasília pode ser nosso 'enviado especial1 para comentar o política a partir do centro do Brasil !!!
    Que achas ????

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  3. Cristiano,
    Vida inteligente na internet.
    seja bem-vindo e parabéns pelo texto.
    ed wilson

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  4. Pode ser. Umas postagens relâmpago acerca das novidades e fatos importantes que acontece no país e com desdobramentos internacionais. Com humildade e modestia poderei fazer algumas inserções, pois assim como você, a gente vai aprendendo a dominar a melhor a linguagem dessa ferramenta da blogesfera.

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  5. Parabéns pelo blogue. Certamente um espaço aberto ao pensar.

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  6. Oi Cristiano,

    recebeste o boletim de conjuntura da CNBB? tentei enviar pro teu e-mail mas parece que voltou...
    nos teus termos, trato do terceiro excluído...
    parabéns pelo blog,
    abraços,
    Wagner Cabral
    wagner-cabral@uol.com.br

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  10. Caro Ed Wilson.

    Devo dizer que escrevi esse texto pensando no que vc já havia dito no seu blog.

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  11. Querida Márcia.

    É um prazer recebe-la !!! Fique a vontade e aguardo contribuições.

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  12. Caro Wagner.

    Já me falaram do texto da CNBB mas ainda não li. Estou enviando um email e vc me retorna com o texto.

    Abraços.

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