quinta-feira, 30 de abril de 2009

Ao 1º de maio.

Desde criança assisto pelos telejornais as manifestações do 1º de maio. Vem-me à memória aquelas passeatas gigantescas, bandeiras vermelhas, palavras de ordem em línguas desconhecidas e enfrentamentos dos manifestantes com a polícia.
Dessa vez não foi diferente. As imagens falam por si. A força dos trabalhadores em manifestações é como uma tempestade, um furacão, um vulcão... Os apresentadores (CNNN, Globo, Band News etc.) ficam sérios e se percebe no semblante um tom de gravidade no acontecimento. Mesmo depois do muro de Berlin, da propaganda sobre o fim da história, da teoria de Karl Marx ser considerada superada... Lá estão os trabalhadores e suas bandeiras vermelhas em todos os cantos do mundo.
Principalmente agora, em um período de crise de superprodução de capitais e mercadorias, onde o desemprego volta ao centro do debate na Europa, Japão e EUA, os trabalhadores se reposicionam e vão às ruas. Esse simbolismo do primeiro de maio talvez seja o mais forte ícone do século XX que passa para o século XXI.

Aos trabalhadores do mundo minha pequena homenagem.

VIVA AO DIA INTERNACIONAL DO TRABALHO !!!


O terceiro excluído. I parte.

Aristóteles (século IV a.C.) sistematizou o que seria as regras do pensamento válido, isto é, regras através das quais o sujeito poderia pensar corretamente evitando inconsistências e falsidades nos seus enunciados. Criava então as “leis da lógica clássica” ou “lógica aristotélica”, ou ainda, “lógica formal”. Com esse instrumento (organon) esperava que fossem afastados todos os entraves que porventura atrapalhassem as inferências do raciocínio. Entre essas “leis do pensamento correto” estava o princípio do terceiro excluído.
 Esse princípio, deduzido do princípio da identidade (toda proposição é idêntica a si mesma) e do princípio da não-contradição (uma proposição não pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo e sob um mesmo aspecto), afirmava que toda proposição é verdadeira ou falsa não havendo qualquer outra possibilidade. Essas formulações nos ajudaram por milênios na formalização de sentenças, na axiomatização da lógica e finalmente na criação das chamadas ‘linguagens de máquinas’, que hoje equipam nossos computadores.
Entretanto, em que pese suas indiscutíveis aplicações, a lógica aristotélica também foi responsabilizada por estreitar os caminhos da racionalidade ocidental por mais de dois mil anos! Ora - dizem os críticos – a vida e o mundo não são formados apenas por sim e não, verdadeiro e falso, o bem e o mal etc. A própria racionalidade não pode ficar refém de um universo bipolar que exclua outras possibilidades ou mesmo não aceite a contradição. No campo da filosofia coube a Hegel e depois Marx desenvolverem a dialética e, nas ciências naturais e formais, sugira a mecânica quântica e as lógicas não-clássicas que derrogaram definitivamente os princípios aristotélicos. Aquilo que Aristóteles achava que eram leis universais da razão, são agora leis específicas de uma lógica particular.
Pois bem. Vivemos na política maranhense o império da lógica formal! O princípio do terceiro excluído aparece aqui como um princípio lógico da política local: se é a favor de Sarney ou se é anti-Sarney não se aceitando qualquer outra possibilidade política. Essa lógica política provinciana divide o mundo em dois pólos – tal qual o princípio aristotélico – um verdadeiro outro falso, deixando o arco-íris com duas cores e resgatando o maniqueísmo religioso das comunidades primitivas: o bem contra o mal. Mas qual é o fundamento histórico-social dessa lógica política ? O que ela tem de real e irreal na vida dos maranhenses ? É isso que queremos investigar nesse pequeno texto.
Do ponto de vista prático, vários observadores já apontaram que a lógica anti-sarneísta serve para encobrir com o manto da moralidade toda sorte de irregularidades e ilegalidades cometidas ao erário público. Como uma espécie de salvo-conduto que permitiria ao seu portador uma desculpa antecipada pelos crimes contra o patrimônio público e o enriquecimento ilícito. Uma sentença do tipo: “roubei e sou incompetente na gestão pública, mas sou contra Sarney e, por isso, estão justificadas minhas ações”, só pode ser aceitável em um universo de discurso onde está excluída uma terceira possibilidade. No campo da prática, no espaço ético, já foi desnudado a visão anti-sarneísta. O que me interessa agora é tratá-la do ponto de vista teórico.
Teoricamente o anti-sarneísmo elevado à condição de lógica política, sustentado pelo princípio do terceiro excluído tem, na verdade, duas vertentes: uma lógica e outra ontológica. Na primeira, do ponto de vista político, tem o valor de uma abstração vazia, isto é, nada diz sobre o objeto que se quer negar e, mesmo depois de negado, tudo permanece igual, apenas com o sinal trocado. É uma negação puramente formal, mecânica, sem conteúdo, que se basta a si mesma na sua própria ação. É uma espécie de ‘coisa em si’ da política maranhense. A negação formal não se diferencia, pelo contrário, se iguala, uma vez que basta estar do outro lado do conectivo para ser verdadeiro, sem, no entanto, ter diferença do conteúdo falso que se quer negar.
Já do ponto de vista ontológico, o anti-sarneísmo tem por fundamento histórico-social os interesses de classe da oposição oligárquica a oligarquia Sarney, isto é, é uma lógica política de conteúdo intra-oligárquica. Ao excluir a possibilidade de uma terceira alternativa ao grupo Sarney, as elites oligárquicas opositoras, cuja raiz se encontra no vitorinismo, se pautam como única saída política contra a oligarquia dominante. Ao negarem uma alternativa progressista ao grupo Sarney, a oposição de direita nega qualquer saída do mundo bipolar das oligarquias seculares maranhenses. Por trás do discurso anti-sarney se esconde uma lógica de classe intra-oligárquica, dicotômica, na qual o mundo político maranhense só pode ser dividido e governado pelas aristocracias que sempre dominaram nosso estado. Durante as últimas eleições municipais ficou claro o papel desse discurso: eleger o oligarca-mor João Castelo como única saída para combater Sarney!
Essa lógica política foi importada por setores da esquerda que, por sua fragmentação e fraqueza política, sempre procuraram um ‘atalho’ – mesmo que seja pela extrema direita – para derrotar Sarney. De fato, a adoção dessa lógica de classe reacionária que divide a política maranhense entre as oligarquias, representa a falta de um projeto político próprio das esquerdas, que agregue amplos setores democráticos e progressistas que não aceitam mais essa lógica pobre de opções e de futuro.
Por fim, a adoção da lógica de discurso anti-saneísta, pautada no princípio do terceiro excluído, é a própria afirmação de que o Maranhão deve permanecer sobre o tacão de alguma oligarquia. Além disso, ao dividir o mundo entre as oligarquias maranhenses, a oposição a Sarney o favorece, pois nesse mundo intra-oligarquico ele é o rei.
Em um próximo artigo pretendo demonstrar como essa lógica oligárquica quer subverter a racionalidade política e rebaixar as perspectivas de avanço para nosso povo, além, é claro, de agregar em torno dela toda sorte de oportunistas e pilantras de plantão.

Os Lusíadas

“No mar tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida;
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?”

Luís de Camões


Camões expressa nessa passagem as dicotomias éticas que a aventura dos portugueses apresentava a um espírito atormentado por tantas transformações. As guerras, as tempestades, os enganos, a morte, são acontecimentos cotidianos, diários, condensados numa viagem cujo resultado, embora grandioso para Portugal, para a Europa e para o mundo, custava o desgaste de simples homens motais, marinheiros, soldados, comercientes e homens de letras.
Como podemos (nós homens) fazer tudo isso ??? Como os céus podem permitir ??? Como tão frágeis somos tão fortes ??? Por que nos arriscamos nessas empreitadas ??? Será que não podemos viver tranquilos ???
Esses são os dilemas apresentados por Camões nesse curto trecho que ficou imortalizado em seu poema épico. Aqui, Camões deixa de ser um simples comentarista e mostra o universal dos sentimentos que a todos nós atormenta nessa viagem que é a vida...

Saddan Hussein e Augusto Pinochet.

A grande mídia internacional e nacional tratou a morte do ex-ditador chileno Augusto Pinochet com um misto de condenação e elogio. A primeira qualificação se deve ao rastro de sangue e brutalidade que acompanhou sua gestão desde o golpe de 1973. Refere-se, portanto, ao aspecto político. Já a segunda diz respeito à sua ação no enxugamento do estado, na desregulamentação do câmbio e é referente à esfera econômica. Esse aparente conflito de opiniões nos coloca a questão de fundo da compreensão da implantação contraditória do neoliberalismo na América Latina. O dilema exposto nas manchetes dos jornais expressa, por um lado, o regozijo com o desenvolvimento e a aplicação dos novos modelos de reprodução do capitalismo internacional e, por outro, ao mesmo tempo, certa tolerância para com os meios políticos necessários à sua aplicação.
A institucionalização do neoliberalismo em determinado padrão da riqueza financeirizada ocorre durante toda a década de 70 do século passado. As condições econômicas e políticas para tal acontecimento foram: a decisão unilateral do presidente norte americano Richard Nixon, em 1971, de acabar com o padrão ouro-dólar estabelecido desde 1945 pelo acordo de Bretton Woods; a crise energética-petrolífera de 1973, trazendo a tona a problemática do oriente médio; o abrandamento das taxas de crescimento e a derrota militar dos EUA no Vietnam. As características principais desse novo padrão de acumulação passam a ser o declínio da moeda e dos depósitos bancários enquanto bases de financiamento e sua substituição por ativos que geram juros; a securitização interconectando mercado creditício e de capitais; ampliação das funções financeiras nas corporações produtivas e déficit público financeiro tornado endógeno. A partir dessas condições emergiu um conjunto de paradigmas ultraliberais, com centralidade no capital financeiro, cujo conteúdo metafísico seria forjar e reproduzir constantemente novos circuitos de valorização do valor que originalmente foram produzidos pelo trabalho. Temos, a partir de então, na esfera econômica, a hegemonia dos rentistas dentro dos próprios ciclos de reprodução do capitalismo.
A vitória do ultraliberalismo econômico não coincide imediatamente com sua vitória política. Essa só vai ocorrer com a eleição da conservadora Margareth Thatcher em 1979 na Inglaterra e de Ronald Reagan nos EUA em 1980. Nesse momento o neoliberalismo se torna política de estado, ação imperialista de recomposição dos lucros dos oligopólios e projeto de subdesenvolvimento para os países pobres.
A primeira aplicação do ‘novo’ modelo foi no Chile de Pinochet. Com a oposição massacrada e os movimentos sociais postos na ilegalidade, estavam dadas as condições para a implantação da linha ortodoxa do novo liberalismo financeiro. O bordão da época era “a luta contra o comunismo” como justificativo para o alinhamento automático aos desígnios de Washington. A proposta era deslocar a centralidade da produção nacional para a captação de recursos dos investidores internacionais. Essa simples mudança é apenas aparente. Constitui-se em uma justificativa para a destruição dos elementos jurídicos e políticos que possibilitam um Estado nacional autônomo, principalmente no que diz respeito à sua intervenção em um projeto de desenvolvimento. Ora, a “diminuição do Estado” - condição necessária para a ortodoxia neoliberal - é a diminuição da nação, uma vez que se compreende que investimento do Estado (infra-estrutura, produção, reforma agrária, educação, saúde, tecnologia, defesa etc.) são simplesmente gastos. A adoção dessa lógica perversa adequou o Chile a globalização, ou seja, condenou o país a um papel subalterno na divisão internacional do trabalho. Coube ao Chile fornecer cobre, peixes e frutas para os grandes mercados consumidores. Tudo isso à custa do empobrecimento geral da nação. Com esse falso nacionalismo, Pinochet implantou o receituário recomendado pelas grandes potências.
Foi preciso que os ventos democráticos soprassem na América do Sul para que Pinochet fosse desmascarado. Com uma lista de crimes hediondos contra a humanidade e o roubo do dinheiro público, mas uma vez o Chile foi humilhado tendo que ver seu “general-presidente” ser detido no exterior a pedido de um juiz espanhol. No entanto Pinochet morreu livre, sem nunca ter pisado em um tribunal, com o beneplácito das grandes nações que o apoiaram.
Com a queda do socialismo no leste europeu o neoliberalismo passou a ser a forma hegemônica da acumulação capitalista contemporânea. A contestação aos princípios passou a ser, em certo sentido, uma contestação antiimperialista. Ao separarem o lado econômico (positivo) do lado político (negativo) do legado de Pinochet, a grande mídia nada mais faz que simplificar o complexo fenômeno que foi a desastrosa aplicação do neoliberalismo em nosso continente. Além do mais, e isso é o mais perigoso, deixa nas entrelinhas a possibilidade de uma ação fascista toda vez que houver uma disjunção entre o liberalismo econômico e o político. Justifica-se assim a perda da liberdade democrática para garantir a liberdade econômica dos grandes capitais financeiros. Portanto, Pinochet não diz respeito somente ao nosso passado, mas também e principalmente ao nosso presente.
Já para Saddam Hussein, o ex – aliado que resolveu seguir caminho próprio: a dura lex...

OBJEÇÕES AO MATERIALISMO ELIMINACIONISTA DE PAUL M. CHURCHLAND

O filósofo norte-americano Paul Churchland nos oferece uma visão panorâmica da filosofia da mente através das suas principais correntes e problemas. O fio condutor das suas argumentações é a resposta ao chamado problema ontológico da mente: “qual a realidade dos processos e estados mentais ?”. A partir daí, duas grandes correntes se dividem quanto à natureza ontológica dos estados mentais, os materialistas, que entendem que essa realidade é condicionada exclusivamente pelo sistema físico cerebral, e os dualistas, que seriam aqueles que defendem uma natureza não estritamente física da mente. Churchland posiciona-se como um materialista eliminacionista, ou seja, defende a idéia que os estados mentais tem por único e exclusivo fundamento as atividades físico-químicas do cérebro, eliminando qualquer outra possibilidade não material para os estados mentais. Para ele a resposta ao problema ontológico deve ser procurada em ciências como a física, a química e a biologia. Na sua compreensão a matéria evolui no tempo sem transformações qualitativas entre as suas diferentes manifestações. Assim, seria possível reproduzir em um sistema físico qualquer os mesmos estados mentais que ocorrem no cérebro humano, haja vista que não há diferenças significativas dentro da matéria que impeça essa reprodutibilidade. Desta forma está dada a possibilidade de uma máquina dotada de estados mentais, uma máquina inteligente.
Interessa-nos nessa abordagem de Churchland, exclusivamente, uma crítica a sua definição do problema ontológico e as conseqüências dela derivada. Criticaremos também a pretensão de reproduzir em um sistema físico qualquer os estados da mente, bem como sobre as possibilidades e limites de uma inteligência artificial.
Em nosso entender há dois níveis distintos, mas não separados, dos problemas referentes aos estados mentais. O primeiro é definir o que é o processo mental, qual sua natureza intrínseca, sua essência determinante. O segundo é dizer como se dá o processo mental, através de que meios e por quais formas essas relações se estabelecem. As duas questões são, respectivamente, os problemas ontológico e epistemológico. Cabe às ciências particulares esclarecer os meios por quais a mente opera, os resultados a que chega. Embora tais caracterizações sejam importantes, é apenas uma parte do conteúdo determinado pela natureza intrínseca da relação mente-mundo. Assim, uma coisa é a realidade contida nos conceitos e teorias científicas sobre a mente (epistemologia), outra é voltar à racionalidade sobre os fundamentos dessa realidade e, a partir daí, determinar suas relações essenciais (ontologia). Ao desconsiderar as relações mente-mundo como sendo materiais, Churchland ignora a História e a Cultura como elementos objetivos formadores da consciência. Uma máquina nunca será capaz de possuir estados mentais em si, pois já é, ela mesma, conseqüência de uma extensão objetiva dos nossos próprios estados mentais.

A miséria da política.

Quero aqui combater uma prática coronelista e anti-republicana que há muito graça pela política de São Luís: a de fazer afirmações peremptórias sem pensar nas condições que tornam possíveis as sentenças serem verdadeiras. Sem isso, sem essa capacidade de julgar as condições de possibilidade das afirmações, é impossível expor um pensamento minimamente coerente, que conjugue objetividade e racionalidade. Na medida em que desprezarmos a lógica dos juízos, qualquer afirmação vale por si mesma e nada mais precisa ser demonstrado. A política, o reino do discurso por excelência, passa a ser o vale tudo das palavras vazias, que ganha força à medida que são massivamente divulgadas. É o que atualmente já estão chamando de “efeito Duda Mendonça” na política maranhense. É a essa prática política de desprezo ao debate racional que volto a minha atenção.
É o caso do deputado federal Roberto Rocha (PSDB). Empolgado pela vitória do arqui-reacionário João Castelo (PSDB) à prefeitura de São Luís, o tucano anda se queixando em notas e artigos que ‘não é direita’, que é de ‘centro-esquerda’, ‘social-democrata’ etc. Nas suas exposições, confunde conceitos, falsifica a história e descontextualiza as noções de direita e esquerda, tentando escamotear sua verdadeira posição ideológica. Tudo isso exposto em um rosário de argumentos falaciosos - sempre concluindo algo que não está contido nas premissas – para reescrever a toponímia das forças políticas que emergiram das últimas eleições.
Uma das premissas falaciosas do deputado é querer criar uma oposição entre ser social-democrata e de direita. A verdade é que a nível internacional a social-democracia, após a queda da URSS, abandonou o keynesianismo e em alguns casos a própria defesa do estado de bem estar social, adotando sem reservas as novas teses, reformas e políticas neoliberais. Com isso, deslocou-se do centro político (que ocupava durante a guerra fria) para ser a renovação da ortodoxia econômica do capitalismo, efetivando suas políticas nos mercados financeiros liberalizados. Temos vários casos paradigmáticos desta virada neoliberal da social-democracia, como os casos de Felipe González do Partido Socialista da Espanha; o de Gerhard Schröder do histórico SPD alemão e de Tony Blair do Partido Trabalhista inglês.
Já no Brasil, o PSDB foi quem capitaneou a modernização conservadora da política e da economia. Ao assumir a presidência da república, o PSDB de Fernando Henrique Cardoso em aliança com o PFL (atual DEM) de Antônio Carlos Magalhães, Jorge Bornhausen, Marco Maciel e outros ícones da ditadura militar, conduziu o país pelas diretrizes políticas e econômicas do ‘Consenso de Washington’, tendo como metas fundamentais de seu governo as reformas neoliberais de abertura comercial, privatizações, desregulamentação e liberalização financeira. Tal receituário iniciou o maior ataque à nação brasileira desde as tentativas das cortes portuguesas de retornar o Brasil à condição de colônia.
O resultado dessa política desastrosa e antinacional nós já conhecemos. O país ancorou seu processo de desenvolvimento no déficit em conta corrente, aumentando o nosso endividamento externo financeiro e patrimonial, provocando um vertiginoso endividamento público, passando de 30% do PIB em 1992 para 56,5% em 2002. Segundo dados do IPEA, só durante a vigência do cambio fixo, paridade Real-Dólar, a dívida externa bruta saltou de US$ 148 bilhões em 1994 para US$ 241 bilhões em 1998. A desnacionalização do parque industrial e de serviços através da transferência de propriedade de empresas nacionais, públicas e privadas, para o capital estrangeiro (leia-se desregulamentação e privatização), provocou a maior onda de desemprego da história recente brasileira. Segundo o IBGE, em fins de 1994 o desemprego vitimava 4,5 milhões de trabalhadores, ou 6,1% da força de trabalho no país. Ao término do primeiro mandato de FHC em 1998 o desemprego avançara para 7 milhões de brasileiros ou, 9,2% da PEA: leia-se, em seu primeiro mandato o PSDB foi responsável por mais 2,5 milhões de desempregados. Ao final do seu segundo mandato, com o país esfacelado e sofrendo com o apagão de energia, o desemprego emerge para 15% da PEA. Todos nos lembramos da degradação social, do arrocho nos salários e do aumento das desigualdades.
Por isso, Sr. Roberto Rocha, o PSDB e seus líderes são o que há de mais direitista na política nacional e não há nada que você possa fazer a respeito, a não ser mudar de partido!
Outra premissa falaciosa que o deputado tucano utiliza em um de seus textos é o de que existem apenas dois campos políticos no maranhão: o do Sarney e do anti-Sarney. Com esse maniqueísmo provinciano, Roberto Rocha espera afastar a política nacional do seu terreiro e, de quebra, colocar-se à esquerda de Sarney. Ora, nada mais primário que uma dicotomia entre bem e mal para reduzir a vida política a apenas duas cores. Entretanto, o mundo é mais complexo que supõe os neurônios de um tucano.
Na verdade, desde a redemocratização existem três pólos de poder político em São Luís e no Maranhão. O antigo grupo oligárquico hegemônico, capitaneado por Sarney, forma um desses pólos. O outro é formado pela oposição intra-oligárquica, de direita, que está tentando ser a oligarquia hegemônica, da qual sempre fez parte o Sr. João Castelo, desde os tempos do PDS, e o próprio Roberto Rocha. O terceiro pólo é o da esquerda, sempre muito fragmentado entre os dois maiores blocos, mas que tem por centro o PT e o PC do B. Com o advento das novas forças políticas no comando da nação através da eleição do Lula, o pólo de esquerda fortaleceu-se e, pela primeira vez na história do Maranhão, criou as condições que levaram a disputa de um segundo turno na capital. Um feito inédito, dada as condições desiguais do embate. Portanto, parece óbvio que o pólo das forças democráticas, progressistas e de esquerda, a partir dessa eleição, entrou definitivamente para a disputa do poder político contra as velhas contendas intra-oligárquicas que tanto alegram o Sr. Roberto Rocha. Aqui, mais uma vez, em nosso estado, o PSDB também encampa as posições de direita.
Não passa despercebido o enorme esforço para ligar a figura de Sarney ao novo pólo de esquerda que se fortalece. Nesse ponto, o deputado tucano recicla os surrados motes mentirosos da campanha eleitoral e os utiliza como mais um argumento falacioso. Ora, sobre esse assunto será que é preciso trazer a tona à lembrança do papel político de fâmulo que o então governador Luiz Rocha tinha com Sarney? Ou será que devemos lembrar que João Castelo foi outorgado governador pela ditadura militar com o consentimento e apoio do Sarney? Ou mesmo agora quando Cutrim (DEM ex-PFL), eterno secretário de segurança de Roseana Sarney, oposição a Jackson na assembléia legislativa, votou, pediu votos e liberou lideranças para fazê-lo em prol do candidato do PSDB, não seria suficiente para demonstrar quem é que se beneficia nas relações com o grupo Sarney? Bastam esses exemplos para provar que quem deve favores e a própria presença na política maranhense ao Sarney são os senhores do PSDB. Essa é a verdade que se tenta esconder com as falácias.
Não podemos deixar que a inverdade e o irracionalismo cubram com o manto da ignorância o desejo de mudança e de transformações sociais que nosso povo tanto precisa. Temos que desmascarar a miséria política que a nova oligarquia direitista do PSDB quer instalar na nossa cidade e em nosso estado. Isso nós não vamos permitir.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Diálogos entre Hegel e Lênin.

Uma forte tradição do pensamento marxista do século XX é o chamado “marxismo soviético” sistematizado pela primeira vez em 1938. Tal programa filosófico era constituído por uma ontologia materialista de cunho naturalista que, por sua vez, condicionava uma gnosiologia representada pela “teoria do reflexo”. A dialética era compreendida como sendo simples método de aplicação. Vários pensadores marxistas aceitam que esse núcleo racional foi elaborado por Lênin e exposto no ‘Materialismo e Empiriocriticismo’ de 1909. Entretanto, contemporaneamente, essas afirmações estão sendo questionadas a partir dos novos estudos sobre sua obra póstuma: os ‘Cadernos Filosóficos’, escritos originalmente entre 1914-15. Elaborada em um contexto histórico complexo, os manuscritos mostram um Lênin que recorre à filosofia para responder aos crescentes dilemas políticos que o marxismo da II Internacional não conseguia. O dirigente russo concentra seus esforços na assimilação crítica da ‘Ciência da Lógica’, das ‘Lições sobre História da Filosofia’ e das ‘Lições sobre Filosofia da História’ de Hegel, além de observações e comentários sobre a ‘Metafísica’ de Aristóteles. O que nos revela ‘Cadernos’ é um contraste entre a primeira e a segunda filosofia de Lênin. As posições defendidas em 1909 sofrem uma autocrítica, emergindo um novo programa de pesquisa filosófico marxista, cujo núcleo é a dialética, compreendida como uma configuração do pensamento conceitual onde Ser, Conhecer e Linguagem se determinam reciprocamente, criando às condições de possibilidade para uma exposição racional da totalidade histórico-social.

O 'Sistema da Ciência' de Hegel.

O filósofo alemão G.W.F. Hegel tinha como projeto fundamental da maturidade a construção de um programa de pesquisa filosófico intitulado “O Sistema da Ciência”, onde deveria surgir uma nova filosofia que superasse as cisões que o idealismo alemão anterior (Kant, Fichte e Schelling) não conseguiu resolver. Tal programa nunca chegou a ser concluído. Ficaram para a posteridade apenas as execuções incompletas de duas de suas partes, o prefácio e a introdução, também conhecida como Fenomenologia do Espírito, de 1807, e a Lógica, a Filosofia da Natureza e a Filosofia do Espírito, todos reunidos na Enciclopédia das Ciências Filosóficas, de 1817.
Ao depararmos com o grandioso projeto do filósofo alemão perguntamos: há fundamentos racionais para essa pretensão? Como falar de sistema e totalidade mesmo depois do criticismo kantiano? Identificamos na introdução e na Lógica da Enciclopédia quatro linhas de investigação que sustentam suas pesquisas: α) a exigência de superar a adequação do Ser ao pensamento condicionado pelos princípios aristotélicos da identidade, não-contradição e do terceiro excluído, abrindo espaço para uma racionalidade especulativa do Devir. β) Crítica da ‘faculdade do entendimento’ kantiana, que apenas separa e classifica os elementos à sua disposição, favorecendo as cisões entre liberdade e necessidade, razão e sensibilidade, subjetividade e objetividade. γ) Uma nova ação da razão, como atividade que unifica e relaciona o que o entendimento separa, criando pela reflexão as condições de possibilidade para uma totalidade de relações de pensamentos. E, por último, δ) a compreensão de que a totalidade de pensamentos, por sua própria natureza conceitual, é uma totalidade de contrários, pois é onde as particularidades se identificam nas suas diferenças, tornando a identidade dos contrários - a imanência do universal no particular – o agir produtor do filosofar, cuja finalidade é ser sistemático e universal.