segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Ano-novo

 
 

Ano-novo
 
 
Meia-noite. fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.
 
Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
 
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça:
nada ali indica
que um ano novo começa.
 
E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.
 
Começa com a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
 
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar que sonha
(e luta).
 
Ferreira Gullar

domingo, 23 de dezembro de 2012

Homenagem a Ledo Ivo (1924-2012)



A Queimada.

Queime tudo o que puder
as cartas de amor
as contas telefônicas
o rol de roupas sujas
as escrituras e certidões
as inconfidências dos confrades ressentidos
a confissão interrompida
o poema erótico que ratifica a impotência
e anuncia a arteriosclerose

os recortes antigos e as fotografias amareladas.
Não deixe aos herdeiros esfaimados
nenhuma herança de papel.

Seja como os lobos : more num covil
e só mostre à canalha das ruas os seus dentes afiados.
Viva e morra fechado como um caracol.
Diga sempre não à escória eletrônica.

Destrua os poemas inacabados,os rascunhos,
as variantes e os fragmentos
que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.
Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.
Não confie a ninguém o seu segredo.
A verdade não pode ser dita.

Ledo Ivo

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Conversa de Feira: Júlio Guterres fala sobre desenvolvimento e educação

 
 
Julio César Rego Guterres é conhecido na política ludovicense como uma pessoa de luta no movimento sindical e comunitário, lutador na defesa dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras. É presidente Estadual da CTB, já presidiu o Sindicato dos Metalúrgicos do Ma, hoje é diretor do Sindicato dos Educadores do Ma e desde 1972, milita no PCdoB.
CF: Primeiramente, gostaríamos que você se apresentasse aos internautas de São Luís como candidato dizendo seu nome e número de candidatura:
Júlio Guterres: Meu nome na campanha é Júlio Guterres com o nº 65 123.
CF. São Luis é uma cidade de grandes potencialidades econômicas e naturais. Por que ainda apresentamos índices socioeconômicos sofríveis?
Júlio Guterres: São Luís é a capital política, econômica e a maior cidade do Maranhão. Uma região metropolitana com mais de um milhão de habitantes e 400 anos de história. Dizíamos em 2008 que a cidade estava diante de uma encruzilhada entre dois caminhos: o da permanência de um crescimento distorcido e excludente ou o da busca de um modelo sustentável de desenvolvimento com democracia, valorização do trabalho e cidadania. Quatro anos depois só aprofundamos esse dilema e todos os principais problemas se agravaram!
Não temos uma política para o setor de serviços, responsável por cerca de 40% do nosso PIB municipal. Aí está incluído o turismo e sua interface com a cultura e o saneamento, por exemplo. Ora, falar de turismo como um dos eixos estruturantes da economia local com uma Fundação Municipal de Cultura que não tem orçamento e planejamento - além de gozar de baixa reputação entre os artistas locais por não honrar seus compromissos -, de praias poluídas e um centro histórico deteriorado é uma brincadeira de mau gosto! Não teremos uma política de turismo sólida e economicamente viável sem ter água e esgotos tratados e saneamento básico! Essa é uma política econômica que interfere diretamente nos índices sociais. Mas atualmente não temos nada!
Não há uma política de produção e beneficiamento de alimentos locais. Não há uma política de comercialização da produção, que envolve feiras e mercados. Não há uma política para a pequena e média empresa. Enfim, a prefeitura não trabalha como indutora e organizadora do processo de desenvolvimento da cidade.
Falta, portanto, a decisão política para seguir o caminho do crescimento sustentável, com democracia e valorização do trabalho. É por isso que as grandes potencialidades econômicas e naturais de São Luís não se revertem em índices sociais positivos.
Na câmara municipal vou dar especial atenção à produção e ao trabalho. Realizarei audiência pública com os diversos setores na intenção de propor um conjunto de leis e pactos pelo trabalho e saneamento dos bairros e praias.
CF: Nos últimos 20 anos, existiu em São Luís algum crescimento de forma planejada a ponto de considerarmos que poderia está melhor? Cite dois exemplos.
Júlio Guterres: A única ação de envergadura, embora pontual, de crescimento planejado em São Luís foi o PAC do Rio Anil. A retirada das palafitas, o saneamento da região e a construção da avenida foram a maior ação de planejamento urbano que São Luís teve nos últimos vinte anos! Mas é uma obra do PAC, do governo federal! Atualmente, a prefeitura e a câmara estão ausentes deste debate!
Numa região metropolitana com mais de um milhão de habitantes temos que planejar seu crescimento e agir sobre as deficiências já existentes. Moradias, saneamento e transporte precisam de um planejamento de médio longo prazo. Deve ser política da prefeitura e não de prefeitos!
Meu mandato será uma trincheira na defesa da reforma urbana e da luta pela regularização fundiária. Proporei a criação do Fundo Municipal de Habitação e Desenvolvimento Urbano que, com parcerias com a Caixa Econômica Federal e outros bancos públicos, ofertará moradias populares e intervenções urbanas em áreas de risco ou degradadas. Essa será uma grande tarefa do meu mandato popular.
CF: Quais os maiores equívocos cometidos pelos governos recentes quanto às políticas públicas em prol do desenvolvimento de São Luis ?
Júlio Guterres: O principal problema que aflige as políticas públicas de desenvolvimento de São Luís é o mesmo que afeta o Maranhão: o problema político!A opção pelo desenvolvimento para poucos, excludente e desigual não é natural, é uma opção política!
Precisamos ter uma câmara fiscalizadora, independente e propositiva para atender os clamores da sociedade. Acredito que o legislativo tenha responsabilidades para com o desenvolvimento global da cidade. Optamos por uma visão da totalidade do desenvolvimento que inclua a valorização de amplas parcelas trabalhadoras e produtivas ao sistema econômico. O desenvolvimento com valorização do trabalho e democracia é a nossa bandeira política na câmara dos vereadores.
CF: O senhor consegue identificar alguma inovação na gestão, no planejamento ou nas políticas públicas de desenvolvimento nas sucessivas administrações em São Luis?
Júlio Guterres: Sim, consigo identificar algumas experiências que infelizmente não tiveram continuidade, pois eram ações pontuais de governos e não políticas de estado. São elas: os pólos de produção da zona rural e a revitalização das feiras e mercados públicos da cidade.
Essas experiências embrionárias devem ser retomadas em novos patamares. Só com essas ações estamos falando em mais de dez mil empregos!!! Qual indústria de São Luís gera dez mil empregos? Na Câmara defenderei a revitalização da produção agrícola, pesqueira e de beneficiamento, além de uma política de comercialização eficaz!
CR: O senhor que é ligado à educação. Qual o papel da Educação no processo de desenvolvimento da cidade de São Luis?
Júlio Guterres: A educação é à base do desenvolvimento. A rede pública municipal deve criar condições de permanência, aprendizagem e progressão dos alunos em um sistema integrado de educação, esporte, informática, cultura e alimentação! Só assim daremos condições a amplas parcelas da população de se qualificarem para ingresso no mundo do trabalho. Sem educação não há desenvolvimento que se sustente.
CF: O grande Paulo Freire nos ensina que sem educação ninguém vai para frente. Você concorda? Nosso atual modelo é arcaico? Qual o modelo ideal para educação?
Júlio Guterres: Como disse acima, precisamos de um sistema integrado de educação. Precisamos universalizar a educação infantil, construir e reformar escolas, aumentar a oferta de vagas, contratar mais professores, técnicos e funcionários, respeitar e capacitar os trabalhadores da educação!
Precisamos criar nessas escolas condições de aprendizagem, centros de informática, esportes e ensino profissionalizante. Todas as escolas devem ser em tempo integral. O sistema municipal de educação tem ao seu dispor o maior número de aparelhos públicos. Se esse sistema for gerido de maneira adequada, com profissionalismo e democracia, temos um importante sistema agindo em benefício da população.
CF: Qual sua opinião sobre a atual gestão da SEMED e quais pontos positivos e negativos?
Júlio Guterres: A Secretaria Municipal de Educação está acéfala, sucateada e atendendo a interesses estranhos à sua missão. Em menos de três anos tivemos quatro secretários de educação! Como pode um sistema público que requer um grande e importante planejamento ter quatro secretários em menos de três anos? Falta compromisso e sobra incompetência do gestor municipal!!
Na câmara vou cobrar a presença dos secretários para prestar contas e esclarecimentos das suas gestões! Um absurdo como esse não pode ficar assim.
CF: Existem razões técnicas para os alunos ficarem 6 meses sem aulas?
Júlio Guterres: Não, não existem essas razões! A razão dos alunos ficarem seis meses sem aulas é a inoperância do prefeito e sua incapacidade de gerir o sistema municipal de educação. Se fosse para atribuir uma nota para o prefeito João Castelo na área da educação, sem dúvida ele estaria reprovado com um retumbante zero! E a maioria da câmara municipal se mantém omissa diante desse quadro, com raras exceções.
CF: Obrigado Júlio Guterres por essa oportunidade de entrevistá-lo e fique a vontade para pedir o voto.
Júlio Guterres: Certo. Bem internautas, eu tenho certeza que vocês estão querendo renovação e que a nossa câmara passe para o patamar de cobrança do executivo nas ações que venham beneficiar a maioria da população. Por isso peço seu voto para contemplar com muita luta e dedicação esse seus anseios. Muito obrigado!
 

sábado, 1 de setembro de 2012

O reinado do capital fictício

 
 
 
Por Luiz Gonzaga Belluzzo
 
No dia 11 de julho de 1856, o "New York Tribune" publicou o terceiro artigo de Marx sobre o crédit mobilier. Sob os auspícios de Napoleão III, o banco de investimentos empreendido pelos irmãos Pereire, Emile e Isaac, tinha o propósito de "concentrar grandes somas de capital de empréstimos para investimento em empresas comerciais".
 
Depois de ironias e sarcasmos lançados sobre o "socialismo imperial" de Luís Napoleão e das habituais estocadas nas concepções reformistas de Saint Simon e discípulos, Marx reconhece que as transformações da finança capitalista e o surgimento da sociedade por ações, sobretudo da sociedade anônima, "marcam uma nova época na vida econômica das nações modernas".

Os bancos comerciais, diz ele, "fluidificam temporariamente o capital fixo", enquanto os bancos de investimento cuidam de "fixar o capital líquido" em estruturas empresariais cada vez maiores e de administração mais complexa. Marx conclui: "Quase todas as crises comerciais dos tempos modernos estão relacionadas com o desarranjo nas proporções entre o capital fixo e o "floating capital" (os títulos de dívida e de propriedade negociados diariamente nas Bolsas de Valores e nos demais mercados secundários).

A série de artigos sobre o Crédit Mobilier foi estampada nas páginas do "New York Tribune" no período em que Marx trabalhava nos chamados "Borradores" ("Grundrisse") e dez anos antes da publicação do primeiro volume de "O Capital". Quatro décadas iriam transcorrer entre as primeiras e pontuais investigações de Marx sobre as peripécias do capital financeiro e o esforço de Engels para completar os alfarrábios do terceiro volume, publicado em 1894.

Marx adverte, na abertura do Livro III de "O Capital", que até então, nos Livros I e II, o processo capitalista de produção foi considerado em seu conjunto, representando a unidade do processo de produção e de circulação. "Aqui no livro III, não se trata de formular reflexões gerais sobre essa unidade, senão, ao contrário, de descobrir e expor as formas concretas que brotam do movimento do capital considerado como um todo. Em seu movimento real, os capitais se enfrentam sob essas formas concretas... As manifestações do capital se aproximam, pois, gradualmente da forma sob a qual se apresentam na superfície da sociedade, mediante a ação recíproca dos diversos capitais que se enfrentam na concorrência e tal como (essas manifestações) se refletem na consciência habitual dos agentes de produção." Marx procura articular teoricamente essas formas de modo a demonstrar como o capital, no exercício de sua natureza expansionista, rompe continuamente as limitações do seu processo mais geral e "elementar" de circulação e reprodução.

O capital precisa existir permanentemente de forma "livre" e líquida e, ao mesmo tempo, crescentemente centralizada, para revolucionar periodicamente a base técnica, submeter massas crescentes de força de trabalho a seu domínio e criar novos mercados. Apenas dessa maneira pode fluir para colher novas oportunidades de lucro e, concomitantemente, reforçar o poder do capital industrial e mercantil imobilizado nos circuitos prévios de acumulação. Daí as análises da concorrência, do crédito e, portanto, do processo de concentração e centralização do capital se constituírem na parte mais rica e substantiva da investigação marxista sobre a dinâmica do sistema capitalista e suas metamorfoses.

Uma leitura cuidadosa dos "Grundrisse" e dos três volumes de "O Capital" permite compreender que o dinheiro transformado em capital - origem e finalidade da circulação e da produção capitalistas (Dinheiro-Mercadoria-Dinheiro) - não só exige a submissão real da força de trabalho ao domínio das forças produtivas como também impõe aos trabalhadores (e aos proprietários do valor-capital) os ditames da acumulação de riqueza abstrata. A acumulação de mais dinheiro mediante o uso do dinheiro para capturar mais valor sob a forma monetária suscita a transfiguração das formas de expansão do valor, isto é, impõe o predomínio das formas "desenvolvidas": o capital a juros, o dinheiro de crédito e o capital fictício. Nessas formas, o dinheiro-capital realiza o seu conceito de valor que se valoriza e tenta continuamente romper os seus próprios limites ao buscar o acrescentamento do valor sem a mediação da mercadoria força de trabalho. "D-M-D" se converte em "D-D".

Na (re) constituição teórica do modo capitalista de produção, o dinheiro, enquanto substantivação do valor e objetivo do processo de valorização, assume a forma de dinheiro de crédito. As determinações mercantis e capitalistas do modo de produção não são distorcidas, mas, ao contrário, alcançam o ápice de seu desenvolvimento quando são introduzidos o capital a juros e o dinheiro bancário. O sistema de crédito é a forma mais adequada para cumprir as determinações do dinheiro: ele "aperfeiçoa" a execução das funções monetárias no capitalismo e constitui uma esfera de "valorização" em que o capital monetário ensaia estabelecer uma relação consigo mesmo, "D-D". Aqui, o dinheiro realiza o seu conceito de substantivação do valor e de forma universal da riqueza. O movimento de abstração real e o fetichismo chegam ao estágio supremo. "O crédito, que também é uma forma social da riqueza, substitui o dinheiro (metálico) e usurpa o lugar que lhe correspondia. A confiança no caráter social da produção faz a forma dinheiro dos produtos algo destinado a desaparecer...Ao se desenvolver o sistema de crédito, a produção capitalista tende a suprimir continuamente o limite metálico-material e fantástico da riqueza e de seu movimento - mas quebrando seguidamente sua cabeça contra ele."

Ao concentrar capital monetário, os bancos ganharam a prerrogativa de emitir notas que abastecem a circulação monetária. Com a evolução do sistema de crédito, os passivos bancários mudam de forma: a emissão de notas é substituída por depósitos à vista que podem ser mobilizados por seus titulares como meios de pagamento. "Se B deposita no banco o dinheiro recebido de A e o banqueiro entrega esse dinheiro a C como desconto de uma letra, C faz uma compra a D e este deposita no banco, que por sua vez empresta a E, que compra de F, teremos que o ritmo (da criação monetária) como meio de circulação se opera mediante várias operações de crédito." ("O Capital", vol. III, pag 489).

O "salto" no potencial de acumulação promovido pelas formas financeiras engendra a criação de modalidades de negócios e de enriquecimento que pretendem se tornar independentes das leis da produção de mais-valia e das normas de reprodução e acumulação do capital produtivo. A concentração da riqueza líquida nos bancos e demais instituições financeiras enseja o adiantamento de recursos livres e líquidos para sancionar a aposta do capitalista em funções que resolveu colocar o seu estoque de capital em operação, contratando trabalhadores e adquirindo meios de produção. Concomitantemente, o movimento de expansão do valor, ao ampliar as relações de débito e crédito, "cria" o circuito de negociação de valores - títulos de dívida e direitos de propriedade. A avaliação e negociação dos direitos de propriedade e de dívidas abre espaço para episódios especulativos.

O capital a juros patrocina a valorização "fictícia" da riqueza, o que acentua e acelera as tendências da economia capitalista para deflagrar crises de superacumulação e de crédito, provocando com violência a continuidade do processo de "expropriação dos expropriadores" e de destruição de valor na esfera produtiva e financeira. A "reunião do que não deveria estar separado" impõe o "retorno" aos fundamentos, o que se efetua mediante a desvalorização dos títulos que representam direitos à apropriação da renda futura e do patrimônio: títulos de dívida e de propriedade, mercadorias não vendidas e sem valor, capacidade produtiva excedente. Nas crises, fica demonstrado que não é possível preservar o capital em funções [capital produtivo] das escaladas de valorização da riqueza capitalista na esfera financeira.

As relações entre a "economia real" e a economia monetário-financeira não são de exterioridade, mas nascem das formas necessárias assumidas pelo capital em seu movimento de expansão e transformação permanentes. Aí estão inscritas a concentração e centralização do controle do capital líquido em instituições de grande porte e cada vez mais interdependentes. O circuito "D-D" nasce das tendências centrais do regime do capital: um processo necessário e inexorável, porque a acumulação capitalista é acumulação de riqueza abstrata e, ao mesmo tempo, um movimento de abstração real que transfigura o dinheiro, a encarnação substantivada do valor e da riqueza, nas formas "desenvolvidas" do dinheiro de crédito, do capital a juros e do capital fictício.

Não há oposição entre as formas - capital produtivo versus capital financeiro - mas um desenvolvimento contraditório. Por isso, o capital financeiro, em seu movimento de valorização, tende a arrastar o capital em funções para o frenesi especulativo, a criação contábil de capital fictício. A chamada desregulamentação financeira mostrou de forma cabal como a "natureza" intrinsecamente especulativa do capital fictício se apoderou da gestão empresarial, impondo práticas destinadas a aumentar a participação dos ativos financeiros na composição do patrimônio, inflar o valor desses ativos e conferir maior poder aos acionistas. Particularmente significativas são as implicações da "nova finança" sobre a governança corporativa. A dominância da "criação de valor" na esfera financeira expressa o poder do acionista, agora reforçado pela nova modalidade de remuneração dos administradores, efetivada mediante o exercício de opções de compra das ações da empresa.

A "geração de valor" para os acionistas acirra a concorrência entre as empresas na busca de ganhos especulativos de curto prazo, enquanto a liquidez dos mercados permite a constante reestruturação das carteiras pelos administradores dos fundos financeiros "coletivizados". No sistema de crédito, os prestamistas finais disponibilizam - através dos bancos comerciais e demais intermediários financeiros - recursos destinados ao conjunto da classe capitalista, para um empreendimento que eles não sabem qual é. Entregam aos especialistas das finanças a administração de suas "poupanças" e dependem de seus critérios para a obtenção de rendimentos.

No último ciclo de exuberância financeira, que culminou na crise de 2008, foi ampla e irrestrita a utilização das técnicas de alavancagem com o propósito de elevar os rendimentos das carteiras em um ambiente de taxas de juros reduzidas. Isso favoreceu a concentração da massa de ativos mobiliários em um número reduzido de instituições financeiras grandes demais para falir. Os administradores dessas instituições ganharam poder na definição de estratégias de utilização das "poupanças" das famílias e dos lucros acumulados pelas empresas, assim como no direcionamento do crédito. Na esfera internacional, a abertura das contas de capital suscitou a disseminação dos regimes de taxas de câmbio flutuantes, que ampliaram o papel de "ativos financeiros" das moedas nacionais, não raro em detrimento de sua dimensão de preço relativo entre importações e exportações.

A interdependência e a "solidariedade" dos capitais individuais no sistema de crédito os tornam mais sujeitos a episódios de crises sistêmicas.

Na esteira da liberalização das contas de capital e da desregulamentação, as grandes instituições construíram uma teia de relações "internacionalizadas" de débito-crédito entre bancos de depósito, bancos de investimento e investidores institucionais. O avanço dessas interrelações foi respaldado pela expansão do mercado interbancário global e pelo aperfeiçoamento dos sistemas de pagamentos. Os bancos de investimento e os demais bancos "sombra" aproximaram-se das funções monetárias dos bancos comerciais, abastecendo seus passivos nos "mercados atacadistas de dinheiro" ("wholesale money markets"), amparados nas aplicações de curto prazo de empresas e famílias. Não por acaso, nos anos 2000 a dívida intrafinanceira como proporção do PIB americano cresceu mais rapidamente do que o endividamento das famílias e das empresas. A "endogeinização" da criação monetária mediante a expansão do crédito chegou à perfeição em suas relações com o crescimento do estoque de quase-moedas abrigado nos "money markets funds". Esses fenômenos correspondem ao que Marx designou "controle privado da riqueza social", fenômeno que se realiza no movimento de expansão do sistema capitalista.

Essa socialização da riqueza significa não apenas que o credito permite o aumento das escalas produtivas, da massa de trabalhadores reunidos sob o comando de um só capitalista. Significa mais que isso: os capitais individuais passam a ser mais interdependentes e "solidários" no sistema de crédito e, portanto, mais sujeitos a episódio de crise sistêmica. A "separação" entre o capital em funções e o capital a juros (capital-propriedade) promove a subordinação "solidária" do capital produtivo à sua forma mais "desencarnada".

A remuneração do capital em geral "aparece" sob a forma de juros e dividendos. Formas aparenciais são, ao mesmo tempo, formas ilusórias, no sentido de que ocultam as conexões fundamentais desse modo de produção, mas também são formas necessárias, expressões das relações de produção "transformadas" pelo processo de abstração real. Os juros aparecem como forma de remuneração do capital "sans phrase" e sua formação nos mercados de riqueza mobiliária depende da demanda e oferta de capital dinheiro transfigurado na forma de capital a juros, capital-propriedade. Essa é a forma mais abstrata de existência do capital, a sua forma "verdadeira", no sentido de que é a mais desenvolvida. "É evidente que no capital a juros, o capital se completa como fonte misteriosa e autocriativa de seu próprio acrescentamento.... é o capital par excellence". ("Teorias da Mais Valia", vol. III)

*Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Línguas europeias surgiram na Turquia há 9 mil anos, diz estudo


 

A saga do mais importante grupo de línguas do mundo, com quase 3 bilhões de falantes nativos, começou há 9 mil anos, na atual Turquia, e está ligada às origens da agricultura. Em última instância, portanto, seria graças à descoberta de como cultivar trigo e cevada que os brasileiros falam português e os americanos falam inglês.

A conclusão está em uma pesquisa publicada hoje na revista especializada "Science" e que almeja colocar um ponto final no debate sobre a origem das chamadas línguas indo-europeias.

A afirmação pode soar estranha à primeira vista, mas há boas razões para achar que esse grupo imenso de idiomas, que coloca no mesmo balaio o grego, o alemão, o russo e as principais línguas do Irã e da Índia, descende de um ancestral comum.

A prova disso é o vocabulário básico de todas elas --como as palavras usadas para designar parentes próximos, partes do corpo, numerais e os pronomes pessoais.

Apesar das diferenças, elas conservam um "núcleo" comum de som e significado, e as mudanças que ocorrem de um grupo de línguas para outro não são aleatórias: seguem "leis" estabelecidas.

Um exemplo é a transformação do "p" em "f" nas línguas germânicas, como o inglês. É por isso que "peixe" e "pé" viram "fish" e "foot" no idioma de Shakespeare.

O diabo era saber quando e como o ancestral dessas línguas todas começou sua carreira de sucesso.

A equipe de cientistas liderados por Quentin Atkinson, da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, resolveu responder à questão "emprestando" um método normalmente usado para estudar a evolução e propagação de vírus como o da gripe.

Grosso modo, o método compara as "letras" químicas do DNA de vários tipos de vírus para saber qual está mais próximo do ancestral comum de todos eles e, a partir disso, monta uma árvore genealógica dos parasitas usando estratégias sofisticadas de estatística.

A mesma coisa, raciocinaram Atkinson e companhia, pode valer para línguas – desde que, em vez de mutações no código genético, sejam avaliadas "mutações" no som das palavras.

Também foram incorporados elementos geográficos – com base na distribuição histórica e atual das línguas, o método calculava qual o trajeto de expansão mais provável para elas.

O resultado, em vários tipos de simulação, apontou a Turquia, há 9 mil anos, como o lugar e o tempo de origem do tronco indo-europeu. O método foi testado só para as línguas latinas, grupo do português, e deu indícios de ser confiável: mostrava o centro da Itália (onde está Roma, berço do latim) como fonte da nossa família de idiomas.

Fonte: Folha Online

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Lições de Guernica, 75 anos depois

 
 
 
Por Amy Goodman.
 
Há setenta e cinco anos, a cidade espanhola de Guernica foi bombardeada e reduzida a escombros. O ato brutal levou a que um dos maiores artistas do mundo pintasse um quadro em três semanas de trabalho intenso. “Guernica” de Pablo Picasso, um óleo de 3,5 x 7,8 metros retrata de forma cruel os horrores da guerra, refletidos nos rostos das pessoas e animais. Isto não prova que tenha sido o pior ataque durante a Guerra Civil de Espanha, mas tornou-se no mais famoso, graças ao poder da arte.
O impacto de milhares de bombas lançadas sobre Guernica, o fogo das metralhadores aéreas que disparavam sobre civis tentando fugir do inferno, ainda hoje é sentido – pelos idosos sobreviventes, que ansiosamente partilham as suas memórias vividas, bem como pela juventude de Guernica, que luta por um futuro para a sua própria cidade longe da sua história dolorosa.

A Legião Condor da Luftwaffe Alemã (Força Aérea Alemã durante a Alemanha Nazi) fez o bombardeio a pedido do Gen. Francisco Franco, que liderou uma revolta militar contra o governo espanhol democraticamente eleito. Franco pediu ajuda a Adolf Hitler e Benito Mussolini, que estavam ansiosos para pôr em prática técnicas modernas de guerra sobre os indefesos cidadãos de Espanha. O ataque contra Guernica foi a primeira destruição completa de uma cidade civil na história europeia efetuada por bombardeio aéreo. Enquanto casas e lojas eram destruídas, algumas unidades de fabrico de armas, juntamente com uma ponte importante e a linha férrea foram deixadas intactas.

Ativo e lúcido aos 89 anos de idade, Luís Iriondo Aurtenetxea, sentou-se comigo nos escritórios da organização Gernika Gogoratuz, que em língua Basca significa “Recordar Guernica”. O basco é uma língua antiga e um elemento fundamental na independência feroz do povo Basco, que vive há milhares de anos na região fronteiriça entre Espanha e França.

Luís tinha catorze anos e trabalhava como assistente num banco local quando Guernica foi bombardeada. Era dia de feira, por isso a cidade estava cheia, a praça do mercado repleta de pessoas e animais. O bombardeio começou às 16h30 da tarde do dia 26 de Abril de 1937. Luís recorda: “Nunca mais acabava. O ataque durou três horas e meia. Quando terminou, saí do abrigo e vi toda a cidade a arder. Estava tudo em chamas.”

Luís e outras pessoas fugiram até à aldeia vizinha de Lumo, no cume da colina, onde, com o cair da noite, viram a sua cidade arder e as suas casas ruírem pelas chamas. Deram-lhes um lugar onde dormir num celeiro. Luís continua: “Não me recordo se era meia-noite ou outra hora qualquer, porque na altura não tinha relógio. Ouvi alguém chamar-me... No fundo, podia ver-se Guernica em chamas, e graças à luz do fogo, eu vi que era a minha mãe. Já tinha encontrado os meus outros três irmãos. Eu era o último.”Luís e a sua família foram refugiados de guerra durante muitos anos, acabando por regressar a Guernica, onde ele ainda vive e trabalha como pintor – tal como Picasso em Paris.

Luís levou-me até ao seu estúdio, com as suas paredes cobertas de pinturas. A mais proeminente era a que ele pintou sobre aquele momento em Lumo quando sua mãe o encontrou. Perguntei-lhe como se sentiu naquela altura. Os seus olhos marejaram-se de lágrimas, Pediu-me desculpa e disse que não podia falar disso. Apenas a alguns quarteirões de distância situa-se uma das fábricas de armas que foi preservada da destruição. Um edifício onde são fabricadas armas químicas e pistolas, chamado Edificio Astra. Embora Astra se tenha mudado, a empresa de fabrico de armas mantém a sua ligação com a cidade, uma vez que várias das suas armas automáticas são denominadas de “Guernica” desenhadas “por guerreiros, para guerreiros”.

Há alguns anos, um grupo de jovens ocupou o edifício vazio, exigindo que fosse transformado num centro cultural. Oier Plaza é um jovem ativista de Guernica que me contou, “A princípio a polícia expulsou-nos, mas nós voltamos a ocupar o edifício. Finalmente, a câmara comprou-o, e iniciamos este processo de recuperação do edifício para criar o projeto Astra.”

O objetivo do projeto Astra é reconverter esta fábrica de armas num centro cultural com aulas de arte, vídeo e outros meios audiovisuais. “Temos de olhar o passado para compreender o presente e criar um futuro melhor. E eu acho que Astra faz parte desse processo. É o passado, é o presente, e é o futuro desta cidade.”

De “Guernica” de Picasso ao auto-retrato de Luís Iriondo Aurtenetxea com a sua mãe, passando pela iniciativa de Oier Plaza e os seus jovens amigos, o poder da arte em transformar armas em arados, e resistir à guerra, é constantemente renovado.

Fonte: Democracy Now

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Renato Archer, 90 anos: legado e atualidade



 Fábio Palácio*

 O último dia 10 de julho marcou os 90 anos de nascimento do militar e cientista maranhense Renato Archer. Por ensejo da data a Fundação Maurício Grabois promove, no próximo dia 24, a mesa “Renato Archer, 90 anos: legado e atualidade”. O evento compõe a programação oficial da 64ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que este ano ocorre nas dependências da Universidade Federal do Maranhão, em São Luis, entre os dias 22 e 27 de julho.

 
Proposta pela Fundação Maurício Grabois e realizada em parceria com a Universidade Federal do Maranhão, a secção regional maranhense da SBPC e o Instituto de Estudos e Cooperação Internacional (Iecint), a atividade homenageará uma referência do campo político democrático e nacionalista, destacando o legado e a atualidade de seu trabalho como referência para as novas gerações.
Falecido há 16 anos, em junho de 1996, Archer foi o primeiro ocupante do cargo de ministro de Estado da Ciência e Tecnologia. Teve papel importante também no campo diplomático. Como integrante da junta de governadores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), participou das definições internacionais sobre o uso da energia nuclear. O político maranhense foi ainda subsecretário de Relações Exteriores na gestão de San Tiago Dantas, quando o Brasil, sob a presidência de João Goulart, adotou uma política externa independente e altaneira.

Herdeiro da tradição científica dos militares

Ex-capitão de fragata da marinha, Archer pertence à cepa de cientistas militares que tem no nome do almirante Álvaro Alberto da Motta e Silva uma de suas referências mais importantes. Figura destacada em episódios decisivos da história brasileira, Álvaro Alberto foi professor catedrático de química da Escola Naval. Presidiu a Sociedade Brasileira de Química (SBQ) e, mais tarde, a Academia Brasileira de Ciências (ABC). Foi também membro titular do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Em 1934, partiu do almirante o convite ao físico italiano Enrico Fermi – um dos líderes do Projeto Manhatan, responsável pelo desenvolvimento das primeiras armas nucleares – para que este viesse ao Brasil proferir conferência na ABC. O almirante também compôs a delegação de cientistas que, em 1925, recepcionou Albert Einstein em sua visita ao Brasil.
Na área da química de explosivos, Álvaro Alberto realizou descobertas que o consagraram internacionalmente. Ainda jovem, patenteou a dinamite rupturita e fundou, para explorar a descoberta, uma empresa inovadora na área de explosivos para mineração. Foi o criador da chamada “fórmula escola naval”, método de cálculo que simplificou a determinação da temperatura de explosão da pólvora. A descoberta implicou importantes avanços no terreno militar, possibilitando a otimização do uso de canhões. Doada à Marinha, foi negociada com a Inglaterra nos anos 1930, quando da assinatura do contrato de construção de navios brasileiros em estaleiros da Escócia. Os navios jamais chegariam ao Brasil – com o início da Segunda Guerra, os ingleses resolveram utilizá-los para seu próprio reforço militar. A fórmula, contudo, foi repassada e garantiu à Marinha britânica importante superioridade tecnológica na Segunda Guerra Mundial.

No governo Vargas, Álvaro Alberto foi o primeiro presidente do então Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), hoje Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Principal mentor da criação do órgão, o almirante o concebeu como parte do esforço de criação de uma política nuclear nacional – iniciativa largamente sabotada pelo imperialismo, como atestam inúmeros episódios bem documentados. Alguns desses episódios seriam denunciados de maneira contundente por Renato Archer, no transcorrer de seu primeiro mandato como deputado federal (1954-58). As denúncias se transformaram no eixo de uma CPI sobre a questão nuclear, fato de grande repercussão política no Brasil dos anos 1950.

A realidade é que, após a Segunda Guerra Mundial — e, especialmente, após o estouro da bomba de Hiroshima —, a ciência e tecnologia passou a ser concebida como área de grande importância geopolítica. Essa percepção se acentuaria ainda mais com o início da Guerra Fria. Não é por acaso, portanto, que o primeiro órgão de fomento a pesquisas do Brasil, o CNPq, tenha nascido do empenho de um militar de alta patente. Por meio da criação da agência, Álvaro Alberto propunha um ousado plano de formação de recursos humanos, fator indispensável ao domínio da tecnologia nuclear. Nessa mesma área, o almirante ainda voltaria a jogar papel decisivo anos mais tarde, quando da acertada opção brasileira pela inovadora técnica de ultracentrifugação como método para o enriquecimento de urânio.

Em 1947 Álvaro Alberto foi designado, por indicação unânime da ABC, para liderar a delegação brasileira na conferência da Comissão de Energia Atômica da ONU – convocada para definir e aprovar as regras internacionais sobre o uso da energia nuclear. Na ocasião, a atitude firme do almirante foi crucial para a inviabilização do chamado Plano Baruch, por meio do qual os EUA pretendiam “internacionalizar” as reservas de urânio dos países detentores desse minério, entre eles o Brasil.

De forma engenhosa, Álvaro Alberto aceitou os termos propostos pelo chefe da delegação americana, Bernard Baruch, mas desde que a internacionalização se estendesse também a outros minérios, como o petróleo e o carvão mineral. Propôs, além disso, a tese das “compensações específicas”: uma série de medidas a serem tomadas como contraparte da exportação de urânio às potências tecnológicas desprovidas do minério. As compensações aos países exportadores incluíam a construção de reatores primários, cotas preferenciais de energia, fornecimento de equipamentos e treinamento de pessoal, dentre outras contrapartidas. O Plano Baruch acabou aprovado, sem nenhum voto contra e com as abstenções de Índia e Austrália. Mas, com a obrigatoriedade das compensações específicas, acabou virando letra morta.

Em defesa da ciência e tecnologia

Em 1949, Álvaro Alberto convida Renato Archer – seu ex-aluno na Escola Naval – para ajudá-lo na aprovação do projeto de lei 1.310, que criava o CNPq. Era o início de uma longa colaboração, que uniria por décadas duas das mais destacadas personalidades da ciência nacional: o primeiro presidente do CNPq e o primeiro ministro de Estado da Ciência e Tecnologia.

Por esse período Archer, após ter concluído seus estudos na Escola Naval, e já promovido a primeiro-tenente da Marinha, retornara ao Maranhão para ocupar o cargo de secretário de governo de Sebastião Archer, seu pai, governador do estado no final dos anos 1940. Foi nesse período que recebeu de Álvaro Alberto a tarefa de coordenar politicamente, no processo de tramitação do PL 1.310, a bancada maranhense do Partido Social Democrático (PSD). Archer já integrava então as fileiras do Partido, compondo sua Ala Moça (espécie de juventude) na companhia de nomes como Ulysses Guimarães.

Em comunhão de propósitos com Álvaro Alberto, Archer foi capaz de perceber desde cedo a centralidade da ciência e tecnologia para a estratégia nacional de desenvolvimento. Construiu, com base nessa percepção, uma trajetória devotada à área científico-tecnológica, um setor sensível e submetido a múltiplas formas de controle, dada sua importância saliente tanto para os interesses do imperialismo quanto, no polo oposto, para a conquista da verdadeira autonomia nacional.

O vínculo de Archer com a causa da ciência e tecnologia manifestou-se não apenas em sua atividade política, mas também no campo corporativo. No início dos anos 1950 – a exemplo do que também fizera Álvaro Alberto –, fundou uma empresa inovadora, a Prospec, atuante nas áreas de aerofotogrametria e fotogeologia. A empresa destacou-se internacionalmente desenvolvendo tecnologia de ponta, e foi responsável por importantes descobertas mineralógicas.

Na esfera cívico-política, já em 1958 Archer liderava, em aliança com Álvaro Alberto, José Leite Lopes e outros eminentes cientistas, a primeira campanha pela criação do Ministério da Ciência e Tecnologia. A bandeira só se tornaria vitoriosa quase três décadas depois, já no governo Sarney, com Renato Archer – um ex-adversário do presidente – como primeiro titular do novo ministério.

À frente do MCT, Archer decuplicou o número de bolsas e auxílios; conferiu novo impulso à produção nacional de fármacos; promoveu o acordo espacial sino-brasileiro, responsável pelo lançamento da família de satélites Cbers e considerado o mais importante acordo de cooperação tecnológica entre dois países em desenvolvimento; ajudou a acelerar o processo de edificação do Centro de Lançamento de Alcântara (MA); iniciou a construção do colisor de partículas Síncrotron, localizado em Campinas (SP), ainda hoje um dos únicos em funcionamento em todo o Hemisfério Sul do planeta.

Archer também combateu os limites, impostos pelas nações centrais, à importação de supercomputadores. Deu largada à reserva de mercado no setor de informática, medida responsável por tornar o Brasil, já em fins dos anos 1980, um dos poucos países com 60% de sua produção nas mãos de fabricantes nacionais. Mais tarde, já como presidente da Embratel no governo Itamar Franco, ordenou a implantação da rede nacional de fibras óticas, infraestrutura que possibilitou projetos como a Rede Nacional de Pesquisas (RNP) – internet de alta velocidade que hoje conecta os principais centros nacionais de pesquisa e desenvolvimento.

Um aristocrata renovador

Renato Archer era oriundo de família ligada à indústria têxtil, fato repleto de significados – ainda mais no Maranhão de primórdios do século passado. Ali os industriais do ramo têxtil compunham setores oligárquicos ligados, por um lado, ao latifúndio mais atrasado e, por outro, às demandas de formação e consolidação do mercado interno. Tal condição ambígua marcaria profundamente o perfil e a trajetória do político maranhense – como ocorreu, de resto, com outros políticos ligados à indústria têxtil, a exemplo do ex-vice-presidente José Alencar.

As bases eleitorais oligárquicas elegeriam Archer em diversas oportunidades. Em 1950 tornou-se vice-governador do Maranhão na chapa de Eugênio Barros, político apoiado por seu pai. Na década seguinte, candidato do presidente Dutra e do arquioligarca Vitorino Freire ao governo do Maranhão, seria derrotado por José Sarney, então representante da modernização burguesa no estado. Em 1982 Archer sofreria nova derrota na disputa pelo governo do Maranhão, novamente para as forças sarneístas, que dessa vez tinham à frente a candidatura de Luis Rocha.

Apesar das derrotas nas eleições para governador, Archer elegeu-se por quatro vezes deputado federal, entre os anos de 1954 e 1967. A última delas pelo MDB; as três primeiras pelo PSD.

Em prefácio (leia aqui) ao livro Renato Archer: energia atômica, soberania e desenvolvimento, o deputado comunista Aldo Rebelo descreve o PSD como “esfinge da política brasileira, ainda não o bastante desvendada”. A referência ao caráter enigmático do partido viria de seu perfil ambíguo, ao mesmo tempo conservador e reformista. Em conjunto com o PTB, o PSD – que reunia setores das oligarquias tradicionais – formou a base de apoio do segundo governo Getúlio Vargas (1950-1954), embora sempre como um aliado problemático. Ambas as legendas se contrapunham à antigetulista União Democrática Nacional (UDN). Se o PSD era um partido conservador, mas reformista, a UDN pode ser vista, em sentido contrário, como um partido modernizante, mas conservador. E conservador, essencialmente, nos sentidos políticos que atribuía a seu próprio “modernismo”, sentidos estes que afastavam a agremiação da ideia de defesa da pátria e a aproximavam de um cosmopolitismo elitista, muito semelhante ao que encontramos hoje no PSDB.

O enigma ao qual se refere Rebelo, fazendo alusão às ambiguidades do PSD, é em grande medida elucidado nos trabalhos de um outro maranhense, o economista Ignácio Rangel. Em textos como A História da Dualidade Brasileira, Rangel chama atenção para uma idiossincrasia da realidade brasileira: o fato de que, em nosso país, as transformações costumam ocorrer por meio de movimentos frentistas, que congregam, em torno dos mesmos propósitos, setores democrático-populares e dissidências progressistas das oligarquias tradicionais. Enquanto os primeiros vocalizariam as demandas por mudanças, os últimos – com o fito de permanecer no centro do tabuleiro político – as promoveriam. É nessa chave que devem ser compreendidos os governos Getúlio e JK, como também, no período mais recente, a ampla aliança de partidos amalgamada pela liderança de Lula.

Atento ao fenômeno descrito por Rangel, Alvaro Rocha Filho assevera, na apresentação de seu Renato Archer: energia atômica, soberania e desenvolvimento, que o político maranhense surge, desde seus primeiros passos na vida pública, como um “dissidente oligárquico típico”. Archer teria se situado sempre como elo “entre os setores mais conservadores e as diversas nuances das lideranças políticas ditas progressistas. Nessa posição, consegue construir e consolidar um perfil próprio de conciliador elegante, hábil negociador, com trânsito permanente entre todos os contrários e com acesso garantido aos núcleos de decisão”.

Trajetória frutífera

Os grandes nomes da República costumam projetar, com sua estatura, uma sombra de influência e prestígio que se estende pelas gerações seguintes. É o que podemos dizer do almirante Álvaro Alberto. Verdadeiro totem da ciência brasileira, o almirante segue inspirando e iluminando, com a força de sua autoridade intelectual e moral, os caminhos daqueles que, nas condições contemporâneas, dão continuidade às lutas por soberania e desenvolvimento nacional.

Coisa semelhante pode ser dita de Renato Archer. Seu trabalho representou o elo entre a geração nacionalista de Getúlio e Álvaro Alberto – cujas aspirações ajudou a concretizar – e a nova geração republicana que luta, nos dias de hoje, pela realização de um novo projeto nacional de desenvolvimento. Falar de Archer como “elo” não representa nenhum exagero: herdeiro direto de Álvaro Alberto, ele também ajudou a projetar personalidades de destaque na vida política contemporânea. Dois dos atuais ministros da República sob o governo Dilma – Marco Antonio Raupp, da Ciência e Tecnologia, e Celso Amorim, da Defesa – foram lançados no cenário político por Archer, tendo composto equipes de trabalho lideradas pelo ex-ministro da Ciência e Tecnologia. Ambos estarão presentes à homenagem promovida, no próximo dia 24, pela Fundação Maurício Grabois.

A mesa contará ainda com intervenções do físico Rex Nazaré, ex-presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEM), e do jornalista Alvaro Rocha Filho, organizador de livro sobre a trajetória de Renato Archer. Tanto Nazaré quanto Rocha Filho trabalharam diretamente com o ex-ministro da Ciência e Tecnologia. Também comporá a mesa o físico e vice-reitor da Universidade Federal do Maranhão Antonio José Silva Oliveira.

A iniciativa da Fundação Grabois será uma oportunidade para refletir sobre o passado e futuro da ciência brasileira à luz da trajetória de um de seus grandes vultos. Um homem otimista, entusiasmado com o destino luminoso que enxergava para a nação. Mas, ao mesmo tempo, uma personalidade crítica e irrequieta. Archer jamais se cansou de lamentar que, quarenta anos depois de ter denunciado o abandono da política nuclear inaugurada por Getúlio Vargas, o Brasil ainda acumulasse imensas defasagens nessa área estratégica, avançando de forma pouco resoluta, como se pouco cônscio de sua tradição, de sua capacidade e, também, de suas imensas potencialidades.

Outras atividades da Fundação Grabois na 64º SBPC

Além da mesa sobre Renato Archer, a Fundação Maurício Grabois promove outros dois eventos constantes da programação oficial da 64º Reunião da SBPC.

Realizado em parceria com a Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) e o Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Direito (CONPEDI), o debate “Os 40 anos da Guerrilha do Araguaia e a Comissão da Verdade” contará com as presenças de Paulo Fonteles Filho e Romualdo Pessoa Campos. O primeiro é membro do Grupo de Trabalho do Araguaia, instituição intergovernamental com vértice no Ministério da Justiça. Já Campos é professor do Instituto de Estudos Sócio-Ambientais da Universidade Federal de Goiás e membro da Comissão de Altos Estudos do “Memórias Reveladas – Centro de Referência das Lutas Políticas no Brasil (1964-1985)”, instituição vinculada ao Arquivo Nacional.

O debate, marcado para o dia 25 de julho, abordará a recém-criada Comissão da Verdade, que investigará violações de direitos humanos perpetradas por agentes do Estado no Brasil entre os anos de 1946 e 1988. Entre os episódios a serem investigados figura a Guerrilha do Araguaia, acontecimento que acaba de completar quarenta anos e teve em cidades do sudoeste maranhense algumas de suas bases de operações. Na ocasião será realizado o lançamento do livro Guerrilha do Araguaia: a esquerda em armas, de Romualdo Pessoa Campos. Também haverá a exibição, inédita no Maranhão, do filme Camponeses do Araguaia – A guerrilha vista por dentro, que acaba de ser premiado na 6º Mostra Cinema e Direitos Humanos.

No dia 26 de julho, desta vez em parceria com a Associação Nacional de Pós-Graduandos, a Fundação Grabois promove o debate “Ignácio Rangel e os 50 anos de A inflação brasileira”. Documento denso, o livro de Rangel constitui-se em uma das mais importantes reflexões de inspiração marxista sobre a realidade socioeconômica brasileira. Diferencia-se de outras obras do gênero pela habilidade do economista em interligar fenômenos puramente macroeconômicos e leis objetivas da formação social brasileira. A reflexão sobre os cinquenta anos dessa obra seminal será conduzida por Elias Jabbour, doutor em Geografia pela USP e autor do livro China Hoje – Projeto Nacional, Desenvolvimento e Socialismo de Mercado; Raimundo Palhano, economista e mestre em História pela Universidade Federal Fluminense, e Raimundo Moacir Mendes Feitosa, também economista, mestre em Planejamento do Desenvolvimento pela Universidade Federal do Pará.

* Fábio Palácio é jornalista e diretor da Fundação Maurício Grabois. Coordenará, na 64º Reunião da SBPC, o debate “Renato Archer, 90 anos: legado e atualidade”.